CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

À UMA DA MANHÃ

ENFIM! SOZINHO! Não se ouve mais do que o rolar de alguns fiacres retardatários e esfaltados. Por algumas horas, possuiremos o silêncio, se não o repouso! Enfim! desapareceu a tirania do semblante humano, e agora todos os sofrimentos virão apenas de mim mesmo.

Enfim! posso repousar num banho de trevas! Antes de tudo, uma volta dupla à fechadura. Parece-me que essa volta de chave aumentará minha solidão e reforçará as trincheiras que ora me separam do mundo.

Vida horrível! Cidade horrível! Recapitulemos o dia: vi diversos homens de letras, um dos quais me perguntou se era possível ir à Rússia por via terrestre (sem dúvida julgava a Rússia uma ilha); discuti generosamente com o diretor de uma revista, que respondia a cada objeção: - "Aqui é o partido dos homens de bem" - donde se deduz que todos os outros jornais são redigidos por patifes; saudei cerca de vinte pessoas, quinze delas desconhecidas; distribui apertos de mão em proporção igual, e isto sem haver tomado a precaução de comprar luvas; subi, para matar o tempo, durante um aguaceiro, à casa de uma bailarina, que me pediu lhe desenhasse um traje de "Veno"; cortejei um diretor de teatro, que me disse, despedindo-me: - "Creio que vale a pena o senhor dirigir-se a Z; é o mais estúpido, o mais tolo e o mais célebre de todos os nossos autores; com ele talvez o senhor consiga alguma coisa. Procure-o, e depois nos veremos"; gabei-me (por quê?) de várias ações vis que nunca pratiquei, e neguei covardemente alguns outros males que perpetrei com alegria, delito de fanfarronada, crime de respeito humano; recusei a um amigo um obséquio fácil, e dei uma recomendação escrita a um refinado malandro; uf! cheguei realmente ao fim?

Descontente com todos e descontente comigo mesmo, ser-me-ia grato redimir-me e vangloriar-me um pouco, no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles a quem amei, almas daqueles que cantei, fortalecei-me, amparai-me, afastai-me de mim a mentira e as emanações corruptoras do mundo; e vós, Senhor meu Deus! concedei-me a graça de produzir alguns belos versos que me dêem a certeza de que não sou o último dos homens, de que não sou inferior àqueles a quem desprezo!

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