CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O CÃO E O FRASCO

- MEU BELO CÃO, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade.

E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, mete o nariz úmido no frasco destampado; porém subitamente, recuando de susto, late contra mim, à feição de reprimenda.

- Ah, miserável cão! se eu te houvesse oferecido um embrulho de excremento, decerto o cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o exasperam, mas imundícies cuidadosamente escolhidas.


Comentários

  1. Baudelaire ao seu melhor nível. Sentir o excremento do aplauso escravizado é um perfume que delícia uns quantos e causa inveja a outros tantos. A imundíce das palavras perfumadas são o melhor engodo das crendices profissionalizadas em verbalizar as reprimendas das desobiências. Ó Baudelaire é tudo uma questão de embrulhos bem tatuados.

    Moinho das Antas, 05/12/2009 - Jorge Brasil Mesquita
    www.gomosdotempo.blogspot.com

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