"CÃOMÍCIO" NO CALÇADÃO

JOSÉ CARLOS OLIVEIRA





Reunidos no calçadão central da Avenida Atlântica, entre as Ruas Sousa Lima e Sá Ferreira, dezenas de cães participaram sábado à tarde de um comício autorizado, em principio, pela Administração Regional de Capacabana. Eram cachorros das mais variadas raças e dos mais diferentes tamanhos, desde Pastores Alemães até miniaturas Pintcher. Junto ao meio-feio, no local da concentração, um carro-choque do Batalhão de Gatos, armados de unhas e dentes, garantia a ordem.

O primeiro a subir ao tablado, que era um engradado de refrigerantes emborcado, foi um Poodle branquinho, de rabinho cotó.


 Nossos doutos são irresponsáveis!  gritou ele.

 Abaixo os donos irresponsáveis!  respondeu a multidão raivosa (embora toda ela vacinada).

 Todo o poder aos cachorros!  prosseguiu veemente o Poodle branco, cujo focinho lembrava vagamente o de Jane Fonda, e que era tido, entre o Posto 6 e o Posto 4, como o líder inconteste do Dog-Power.

Em seguida, pediu a palavra um Weimanarer azulado, de olhos tristes. Do alto do caixote, falou ponderamente:

 Meus modos, if... if... (estava chorando, o coitado)... Meus modos refletem o do meu dono... Não quero mais, if... if... Não quero mais passar vergonha sujando a calçada!

 Nós também não!  responderam em uníssomo os manifestantes caninos. Lá do meio do povo, alguém latiu com voz de Pointer:

 Nossos donos precisam aprender que lugar de cachorro fazer suas coisas é em casa!

 Bravo! Apoiado!  concordou a cãonalhada.

 Pipi-dog! Queremos pipi-dog!  puseram-se a ladrar umas cadelinhas Basset, cinco ou seis, provavelmente da mesma ninhada.  Somos moças de família, e portanto temos direito a um lugar no apartamento, onde possamos fazer a nossa toalete sem que os intrusos invadam a nossa privacidade!

 Muito bem! Falou! Podem crer!  entoaram em coro as cinco Dobermans que moram no Edifício Chopin, um dos mais luxuosos de Copacabana, e que fazem pipi  vejam só a heresia!  na piscina do Capacabana Palace, que fica logo ali ao lado.

Agora, estava no tablado um musculoso Boxer, com sua cara abobalhada e seu tradicional bom coração.

 Senhoas e senhores  disse ele  sejamos objetivos. Desejo colocar em votação uma proposta simples, de três pontos, a qual, se aprovada, será encaminhada aos nossos donos, em forma de abaixo-assinado. Primeiro ponto:

 Quero meu pipi-dog no apartamento.

 Apoiado!  gritou a assembléia.

 Segundo ponto... Mas, antes, para evitar tumulto, prefiro que os distintos companheiros, em vez de latirem, ladrarem, rosnarem e coisa e tal, balancem o rabo em sinal de aprovação. Aqueles que não mais possuem rabo poderiam uivar, mas docemente, pois uma de nossas preocupações principais há de sr a de não agravar a poluição sonora, de maneira a não indispor a opinião pública contra a nossa causa...

Todos balançaram o rabo, em silêncio. A questão do orador fora aceita. Ele então prosseguiu:

 Segundo ponto:  Queremos fazer nosso cooper canino apenas no calçadão central da Avenida Atlântica...

Rabinhos balançaram para lá e para cá: aprovado.

 Terceiro ponto:  É preferível que não nos levem à praia, onde involuntariamente causamos uma porção de doenças!

Rabinhos alegres: de acordo.

 Desta forma  finalizou o Boxer  poderemos afirmar que somos felizardos e que temos donos educados!

 Nosso dono vai ser superlegal!  exclamou a assembléia, esquecendo a recomendação de só balançar o rabo.

Nessa altura, todos ali estavam com vontade de fazer cocô e pipi. Sendo assim, o Poodle branco decidiu dar por encerrada a reunião, recomendando que os manifestantes se dispersassem em ordem.

Mas nesse instante pulou no caixote um autêntico Vira-Lata, magrinho, de olhos famintos, as costelas aparecendo sob o pêlo ralo, o rabo entre as pernas.

 Irmãos!  bradou ele, ou melhor, soltou essa palavra num gemido.  Irmãos! Todos somos irmãos! Todos os cachorros são iguais! Portanto, o verdadeiro problema não está no pipi-dog doméstico nem no pinicão de apartamento. O necessário é que todos nós, os de pedigrees e os da rua, dos de raça e os vira-latas, tenhamos, todos, direito aos cuidados veterinários periódicos, à vacinação gratuita, à alimentação farta e balanceada, à coleira protetora com sua placa de identificação, aos banhos seguidos de talco contra pulgas... Viva pois a revolução! Todo o poder aos cachorros, sem distinção de raça, cor ou credo!

 Uh! Fora!  gritaram os cães de luxo, que pertencem todos, naturalmente, à Direita, e preferem que as coisas continuem como estão, no plano mais amplo da justiça social.  Fora! Sarnento! Babão! Comedor de restos! Ralé!

A multidão de sócio do Kennel Club avançou na direção do anarquista, rosnando ameaçadoramente. Foi preciso que os gatos salvassem o Vira-Lata do linchamento inevitável, para que o cercaram, dispersando a cachorrada ulutante com bombas de gás lacrimogêneo.

Em seguida, o Batalhão de Gatos levou o Vira-Lata para o lugar adequado a essa espécie de agitador. Ele agora está sendo processado e é capaz de passar o resto da vida num canil-presidio. Acusação: trata-se de um CÃOMUNISTA.

Comentários