STENDHAL (1783-1842)

Aproximando-se da usina, o pai Sorel chamou Julien com seu vozeirão; ninguém respondeu. Só viu os filhos mais velhos, espécie de gigantes que, armados de pesados machados, talhavam os troncos de pinheiro que levariam à serraria. Concentrados em seguir com exatidão a marca preta traçada na tora de madeira, a cada golpe de machado arrancavam-lhe lascas enormes. Não ouviram a voz do pai. Ele se dirigiu ao galpão; ali entrando, em vão procurou Julien no lugar onde ele deveria estar, ao lado da serra. Avistou-o cinco ou seis pés acima, a cavalo numa das vigas do telhado. Em vez de vigiar atentamente a ação de todo o mecanismo, Julien lia. Nada era mais antipático ao velho Sorel; talvez tivesse perdoado a Julien o porte esbelto, pouco apropriado ao trabalho pesado e tão diferente daquele dos irmãos mais velhos, porém a mania de leitura lhe era odiosa: ele mesmo não sabia ler.

De nada adiantou chamar Julien duas ou três vezes. A atenção que o rapaz dava ao livro, bem mais que o barulho da serra, impedia-o de ouvir a voz terrível do pai. Finalmente, apesar da idade, este pulou com agilidade sobre a árvore submetida à ação da serra e daí para a viga transversal que sustentava o telhado. Um golpe violento fez cair no riacho o livro que Julien segurava; um segundo golpe tão violento quanto o primeiro, dado na cabeça em forma de cascudo, o fez perder o equilíbrio. Despencaria de doze ou quinze pés de altura em meio às alavancas da máquina em ação, que o teriam arrebentado, mas o pai o reteve com a mão esquerda quando ia cair.

- Pois bem, preguiçoso! Vai continuar a ler esses malditos livros enquanto está de guarda na serraria? Leia de noite, quando vai perder seu tempo na casa do cura, isso sim.

Julien, embora atordoado pela força do golpe e todo ofendido, aproximou-se de seu posto oficial, ao lado da serra. Tinha lágrimas nos olhos, menos por causa da dor física do que pela perda de um livro que adorava.

O VERMELHO E O NEGRO

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