FLAUBERT (1821-1880)

Charles tinha entrevisto no casamento a chegada de uma condição melhor, imaginando que ficaria mais livre e poderia dispor de sua pessoa e de seu dinheiro. Mas a sua mulher é quem mandava; ele devia, diante das pessoas, dizer isto, não dizer aquilo, jejuar todas as sextas-feiras, vestir-se como ela bem entendia, ficar em cima, por ordem dela, dos clientes que não pagavam. Ela abria as cartas dele, espionava o que fazia, e ficava escutando, atrás do biombo, as consultas em seu gabinete, quando havia mulheres.

Precisava do seu chocolate todas as manhãs, atenções que não acabavam mais. Ela se queixava sem cessar dos nervos, do peito, dos humores; O barulho dos passos lhe fazia mal; as pessoas se iam, a solidão se tornava odiosa; voltavam para junto dela, era para vê-la morrer, sem dúvida. À noitinha, quando Charles voltava para casa, ela tirava de debaixo das cobertas os longos braços magros, passava-os em torno do pescoço dele e, tendo-o feito sentar-se na beirada da cama, punha-se a falar de seus infortúnios: ele se esquecia dela, amava alguma outra! Bem que lhe haviam dito que ela seria infeliz; e acabava por pedir a ele algum xarope para a saúde e um pouco mais de amor.

MADAME BOVARY



Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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