DICKENS (1812-1870)

A debilidade da voz era lastimável e assustadora. Não se tratava de debilidade decorrente de fraqueza física, embora o confinamento e os sofrimentos passados sem dúvida tivessem contribuído para isso. Sua deplorável peculiaridade devia-se à solidão e à falta de uso das cordas vocais. Soava como a última reverberação de um som produzido anos e anos antes. De tal modo perdera a ressonância da voz humana que ela afetava os sentidos como uma cor viva que desbotara até reduzir-se à uma pálida mancha; tão cava e abafada era que parecia brotar de algum subterrâneo, e tão bem expressava a desesperança de uma criatura perdida que um viajante faminto, exausto de perambular sozinho pelo deserto, recordaria nesse tom o lar e os amigos antes de sucumbir.

UM CONTO DE DUAS CIDADES
Primeira Parte. De volta à vida. 
Capítulo VI. O Sapateiro

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