DICKENS (1812-1870)

E agora que a nuvem encobria Santo Antônio, cujo sagrado semblante fora momentaneamente iluminado por um raio de sol, e as trevas que sobre ele pesaram voltavam a se adensar — frio, sujeira, doença, ignorância, fome —, eram os senhores que se perfilavam perante a santificada presença, nobres de grande poder todos eles, mas especialmente o último. Espécies de um povo que, de uma forma terrível, vinha sendo moído e remoído, e certamente não no moinho fabuloso que transformava velhos em jovens, experimentavam calafrios em cada esquina, entravam e saíam de cada porta, olhavam através de cada janela, tremulavam em cada farrapo que o vento agitava. O moinho que os havia triturado era aquele que transformava jovens em velhos. As crianças exibiam rostos envelhecidos e vozes graves; e sobre elas, e sobre seus rostos adultos, lavrado em cada sulco da idade e renovando-se a cada momento, estava o mesmo sinal, a Fome. Esta prevalecia por toda a parte. A Fome projetava-se das casas estreitas nas roupas esfarrapadas que pendiam de varas e cordas. A Fome era remendada no interior delas com retalhos de palha, trapos, madeira e papel. A Fome repetia o seu nome em cada fragmento da lenha miúda e escassa que os homens cortavam. A Fome os contemplava do alto das chaminés sem fumaça e do rés das vias imundas, sem nenhum resíduo, no meio de seu lixo, de algo que se pudesse comer. Fome era a inscrição nas prateleiras do padeiro, gravada em cada pãozinho de seu exíguo estoque de pão ruim; na salsicharia, em cada produto de carne de cachorro que era posto à venda. A Fome chacoalhava seus ossos secos entre as castanhas, no cilindro giratório em que eram postas a assar no braseiro. A Fome se estilhaçava em átomos em cada ínfima tigela de palhentas rodelas finas de batata, fritas com algumas relutantes gotas de azeite.

Sua residência permanente lhe era de todo conveniente. Uma rua estreita e batida pelo vento, cheia de imundícies e mau cheiro, desembocando em outras ruas estreitas e batidas pelo vento, todas povoadas por figuras andrajosas e bêbedas, cheirando a andrajos e bebidas, e por todas as coisas que exibiam seu aspecto enfermiço ao olhar atento. Sob o ar acuado das pessoas existia, contudo, a ideia feroz quanto à possibilidade de se transformarem de caça em caçador. Embora deprimidos e furtivos, não faltavam no meio deles os olhos de fogo, nem lábios crispados, esbranquiçados por tudo quanto calavam, nem frontes cujas rugas sem entreteciam como a corda dos patíbulos que pensavam um dia vir a suportar ou infligir. Os sinais de comércio (e os havia em cada uma das lojas) eram todos sombrias ilustrações da Fome. O açougueiro e o homem que vendia carne de porco pintavam em suas tabuletas apenas as carnes de pescoço mais esqueléticas. O padeiro, os mais grosseiros e minguados pães. As pessoas toscamente retratadas bebendo nas tabernas resmungavam sobre as diminutas canecas de vinho e cerveja, trocando olhares dissimulados e ameaçadores. Nada era representado em condições de prosperidade, com exceção de ferramentas e armas. As facas e os machados do cuteleiro eram aguçados e brilhantes, o martelo do ferreiro era pesado e o estoque do fabricante de armas era mortífero. As pedras irregulares e afiadas do chão, com seus pequenos e numerosos reservatórios de lama e água parada, não ofereciam passeio para pedestres, parando abruptamente diante das portas. O esgoto, em compensação, corria pelo meio da rua, quando corria, já que isso só acontecia depois de chuvas fortes. Então, precipitava-se por muitos excêntricos caminhos para dentro das casas. Ao longo das ruas, em largos intervalos, havia toscos lampiões suspensos por roldana e corda. À noite quando o acendedor de lampiões os abaixava para acendê-los e tornava a erguê-los, as luzes turvas oscilavam sobre as cabeças de modo nauseante, como se estivessem no interior de um navio. De fato estavam no mar, e tanto o navio quanto sua tripulação encontravam-se sob a iminência de uma tempestade, pois aproximava-se o tempo em que os lúgubres espantalhos que povoavam aquela região, entregues à sua inatividade e sua fome, observariam o acendedor de lampiões o suficiente para conceberem a idéia de aperfeiçoar o método, içando homens com aquelas cordas e roldanas, como uma forma de iluminar as trevas da condição em que viviam. Mas o tempo ainda não chegava. E cada vento que sacudia a França em vão agitava os farrapos do espantalho pois os pássaros, donos de um canto mavioso e de linda plumagem, não percebiam neles qualquer advertência.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Primeira Parte. De volta à vida. 
Capítulo V. A Taberna

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