DANÇA MACABRA

CHARLES BAUDELAIRE



Vaidosa, qual mortal; da fidalga estatura,
Com seu buqué, a luva e o lenço balouçante,
Tem ela a inércia e a singular desenvoltura
De uma coquete esguia de ar extravagante.

Quem viu jamais no baile um porte tão sublime?
O vestido abundante, em rútilo esplendor,
Descai em dobras sobre um pé que se comprime
Em rico borzeguim, belo como uma flor.


A mantilha que ondula à borda das clavículas,
Qual lascivo regato a roçar no rochedo,
Recobre, com temor das pilhérias ridículas,
Os fúnebres ardis que ela guarda em segredo.

As trevas e o vazio inundam-lhe a pupila,
E o crânio, com artísticas flores penteado,
Sobre as vértebras frágeis indolente oscila.
Ó fascínio de um nada loucamente ornado!

Alguns verão em ti uma caricatura,
E sedentos da carne voltam sempre o rosto
À anônima elegância da humana ossatura.
Atendes, esqueleto, à essência de meu gosto!

Vens então denegrir, com teu ar de desgraça,
A doçura da Vida? Ou qualquer coisa a doer,
Pungindo ainda a tua agônia carcaça,
Te impele, tão ingênua, ao sabá do prazer?

Ao canto do violino, ao cintilar dos círios,
Pensas fugir ao teu mordaz sonho malsão,
E vens pedir à ébria torrente dos delírios
Que te refresque o inferno em que arde o coração?

Inesgotável poço de erros e mazelas!
Da antiga dor um alambique intermitente!
Por entre as grades curvas de tuas costelas
Eu vejo, a errar ainda, a lúbrica serpente.

Chego a pensar que a tua atroz coqueteira
Nunca recebe pelo esforço a justa paga;
Que coração mortal te entende a zombaria?
O fascínio do horror somente ao forte embriaga!

Teus olhos abissais, cheios de horrendos sonhos,
Fazem girar tudo em redor, e os mais prudentes
Jamais contemplarão sem vômitos medonhos
O sorriso fatal de teus trinta e dois dentes.

Mas quem nos braços nunca teve um esqueleto,
Ou sequer uma vez não se nutriu do além?
Que importa o aroma, o traje, o enfeite mais faceto?
Quem de raro se fez crê-se belo também.

Cortesã sem nariz, hedionda bailarina,
Dize aos que dançam e se fingem de ofuscados:
"Galãs gentis, malgrado o ruge e a purpurina,
Cheirais à morte! Ó esqueleto perfumados!

Antínos já sem viço ou dândis de tez glabra,
Defuntos de verniz, dom-juans encanecidos,
O embalo universal dessa dança macabra
Vos arrasta a confins por ninguém conhecidos!

Dos frios cais do Sena ou do Ganges ao leste,
O rebanho mortal se agita em toda parte,
Sem ver surgir no teto a trombeta celeste
Que se abre qual sinistro e negro bacamarte.

Ao sol de qualquer clima, a Morte te aprecia
As fátuas contorções, bizarra Humanidade,
E às vezes, como tu, em perfumada orgia,
Mistura o seu sarcasmo à tua insanidade!"

Comentários