CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O QUARTO DUPLO

UM QUARTO que parece um devaneio, um quarto verdadeiramente "espiritual", onde a atmosfera estagnada é de leve tingida de róseo e de azul.

Nele a alma toma um banho de preguiça, aromatizado pelo arrependimento e pelo desejo. É algo crepuscular, azulado e tenuemente cor-de-rosa; um sonho de volúpia durante um eclipse.

Os móveis tem formas alongadas, desfalecidas, enlanguescidas. Dão a impressão de estar sonhando; dir-se-iam dotados de uma vida sonambúlica, assim como o vegetal e o mineral. Falam os estofos uma língua muda, como as flores, como os céus, como os poentes.

Nas paredes, nenhuma abominação artística. Relativamente ao sonho puro, à impressão não analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Aqui, há em tudo a suficiente claridade e a deliciosa obscuridade da harmonia.

Um aroma infinitestinal, da mais requintada escolha, ao qual se mistura leve toque de umidade, flutua nesta atmosfera, onde o espírito dorminante é embalado por sensações cálidas de estufa.

Chove copiosamente a musselina diante das janelas e do leito; derrama-se em cascatas nevadas. No leito jaz um Ídolo, a soberania dos sonhos. Mas como veio ter aqui? Quem a trouxe? que mágico poder a instalou neste trono de fantasias e de volúpia? Que importa! Ei-la! Reconheço-a.

São aqueles os olhos cuja flama atravessa o crepúsculo; aqueles sutis e terríveis mirantes, que eu reconheço na sua espantosa malícia! Eles atraem, subjugam, devoram o olhar do incauto que os contempla. Estudei-as muitas vezes, a essas estrelas negras que impõem curiosidade e admiração.

A que demônio benévolo devo eu o estar assim cercado de mistério, de silêncio, de paz e de perfumes? Ó beatitude! aquilo a que em geral chamamos a vida, nada tem de comum, mesmo na mais feliz das suas expansões, com esta vida suprema que eu agora conheço e que saboreio minuto a minuto, segundo a segundo!

Não! já não há minutos, já não há segundos! O tempo desapareceu; é a Eternidade que reina, uma eternidade feita de delícias!

Mas um golpe terrível, pesado, ressoou à porta, e, como nos sonhos infernais, pareceu-me receber uma picaretada no estômago.

E depois entrou um Espectro. É um meirinho que vem torturar em nome da lei; uma infante concubina que vem chorar miséria e acrescentar às dores da minha vida as atividades da sua; ou o contínuo de um diretor de jornal que reclama a continuação do manuscrito.

O quarto paradisíaco, o Ídolo, a soberana dos sonhos, a Sílfide, como dizia o grande René, toda essa magia desapareceu ao golpe brutal vibrado pelo Espectro.

Horror! Bem me lembro! bem me lembro! Sim, esta pocilga, esta morada do eterno tédio, é bem a minha. Eis aqui os móveis estúpidos, poentos, esbeiçados; a lareira sem chama e sem brasa, manchada de escarno; as tristes janelas onde a chuva abriu sulcos na poeira; os manuscritos riscados ou incompletos; o calendário onde o lápis assinalou as datas sinistras!

E àquele perfume de outro mundo, de que eu me embriagava com sensibilidade aprimorada - ai! -, sucedeu um fétido cheiro de tabaco, mesclado a um vago e nauseante odor a mofo. Respira-se aqui, agora, o bafo da desolação.

Neste mundo estreito, mas tão cheio de tédio, um único objeto conhecido me sorri: a garrafinha de láudanos; velha e terrível amiga; como todas as amigas - ai! -, fecunda em carícias e traições.

Oh, sim! ressurgiu o Tempo; o Tempo agora reina como soberano; e com o horrendo velho retornou todo o seu cortejo demoníaco de Lembranças, de Pesares, de Espasmos, de Terrores, de Angústias, de Pesadelos, de Cóleras e de Neuroses.

Eu vos asseguro que os segundos, agora, são fortes e solenemente assinalados, e cada um deles, jorrando do pêndulo, diz: - "Eu sou a Vida, a insuportável, a implacável Vida!"

Em toda a vida humana humana só há um Segundo que tem a missão de anunciar uma boa-nova, a boa-nova que a todos causa inexplicável medo.

Sim! reina o Tempo; reassumiu a sua brutal ditadura. E acossa-me, como se eu fosse um boi, com o seu ferrão: - "Eia, burrico! Sua, escravo! Vive, condenado!"

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