CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O GAIATO

ERA A EXPLOSÃO do ano-novo: caos de lama e de neve, sulcado por má carruagens, resplandecente de brinquedos e guloseimas, pulutante de cobiças e desesperos, delírio oficial de uma grande cidade, feito para transtornar o cérebro do mais forte solitário.

No meio dessa ruidosa confusão, um asno trotava rápido, acossado por um brutamontes munido de um chicote.

No momento em que o asno ia a dobrar a esquina de um passeio, um belo cavalheiro enluvado, rigidamente engravatado, e aprisionado numa roupa muito nova, inclinou-se, cerimonioso, ante o humilde animal, e disse-lhe, tirando o chapéu:

- Feliz ano-novo!

Depois, voltou-se para alguns vagos companheiros com um ar de fatuidade, como para lhes pedir que com os seus aplausos lhe aumentassem o contentamento.

O burro não viu esse belo truão, e continuou a correr, diligente, aonde o chamava o seu dever.

Por mim, senti-me de repente assaltado de incomensurável ódio àquele magnífico imbecil, que me pareceu concentrar em si todo o espírito da França.


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