BOCCACCIO (1313-1375)


Eu revelaria, pela devida forma, os seus nomes, se justa causa não mo impedisse de o fazer. A causa é esta: não quero que, pelas coisas que se seguem, e que foram por elas contadas, ou ouvidas, alguma delas deva, em tempo futuro, envergonhar-se. Hoje, as leis sobre o prazer são restritas; naquela época, pelas razoes acima apontadas, essas leis eram extremamente tolerantes, seja para a idade delas, seja para idades muito mais madura; não desejo, também, proporcionar motivo para que os invejosos, prontos a morder toda vida digna de louvor, diminuam, por qualquer aspecto, com falatórios escusos, a honestidade das dignas mulheres. Assim, para que se possa compreender, sem confusão, aquilo que cada uma disse, pretendo designá-las, mais adiante, por nomes supostos, porém adequados, no todo ou em parte, às qualidades de cada qual.

Delas, a primeira, a que mais idade tinha, chamaremos Pampinéia; a segunda, Fiammetta; Filomena, a terceira; a quarta, Emília; depois, por Laurinha designaremos a quinta; a sexta, por Neifile; e a última, não se razão, chamaremos Elisa.

Reunidas, não por entendimento prévio, e sim por acaso, numa das dependências da igreja, elas se sentaram quase em circulo. Depois de vários suspiros, e de terminada a recitação dos padre-nossos, puseram-se a conversar entre si, sobre as condições do tempo e sobre outras coisas mais. Após algum intervalo, vendo que as outras se calavam, Pampinéia assim começou a falar:

— Minhas queridas mulheres: vocês podem ter ouvido dizer, muitas vezes, como eu, que a pessoa que faz uso honesto do seu direito a ninguém prejudica. Direito natural, de todo aquele que nasce, é o de ajudar a própria vida; de conservá-la e de defendê-la, na medida do possível. Reconhece-se isto. Tanto é verdade que, algumas vezes, já aconteceu que, para preservar a vida, muitos homens se mataram sem qualquer culpa. Reconhecem isto as leis, em cuja observância reside o viver honrado de todo mortal. Com maior justiça, e sem ofensa para quem quer que seja, nos cabe, a nós, como a quaisquer outras pessoas honestas, o direito de tomar as providências que pudermos, a bem da conversação da nossa vida. Sempre que bem medito sobre os nossos modos desta manhã, e também sobre os de outras manhãs já passadas — sempre que penso em quantas e quais são as nossas trocas de idéias — percebo, como vocês igualmente poderão perceber, que cada uma de nós duvida de si mesma. Disto, não me admiro. Entretanto, admiro-me, e muito — (convencida como estou de que cada uma de nós tem sentimentos de mulher) — de não recebermos, para nós, qualquer compensação por aquilo que cada uma de nós teme, e com razão. Nós ficamos aqui — ao que parece — como se quiséssemos, ou desejássemos, ser testemunhas do número de corpos mortos que se levam à sepultura, ou de que os frades daqui de dentro (cujo número ficou reduzido a quase nada) cantam o seu ofício nas horas devidas. Ou, então, mo se aspirássemos a mostrar, através das nossas roupas, a quem quer que nos apareça, as condições e a quantidade das nossas misérias. Se sairmos daqui, veremos, por toda parte, corpos mortos, ou enfermos, no ato de serem transportados; ou então nos defrontaremos com os que, pelos seus desmandos, já foram condenados ao exílio pela autoridade das leis públicas; tais indivíduos, como que escanercendo das leis, por saberem que os seus executores estão mortos, ou doentes, andam pela nossa região, pondo em prática os seus impulsos mais desagradáveis, ou, ainda, nos encontraremos com a ralé da nossa cidade; transtornados pelo nosso sangue, os elementos dessa ralé se dão a si mesmos a denominação de coveiros; cavalgam e correm por toda parte, para nossa angústia; e censuram-nos os nossos sofrimentos por meio de canções desonestas. Nenhuma outra notícia ouvimos, a não ser Fulanos e fulanos morreram, e Sicranos e sicranos estão para morrer. Por toda parte ouviríamos prantos, se existissem os que chorassem. Se regresso ao meu lar, apavoro-me de nele não encontrar nenhuma outra pessoa da minha numerosa família, afora a minha aia. (Não sei se com vocês acontece o mesmo que comigo ocorre). Ainda agora, sinto arrepiarem-se quase todos os meus cabelos. Seja por onde for que eu vá, ou me demore, em casa, parece-me ver a sombra dos que morreram, as sombras assustam-me, não com os rostos que eu conheci, e sim com outros semblantes, horríveis, que não sei de onde procedem. Por estes motivos, afigura-se incômodo o ficar por aqui; fora daqui, ou mesmo em casa. E tanto mais incômodo se me afigura, quanto mais se parece que nenhuma pessoa, dentre as que possuam alguma coragem e tenham para onde ir, como nós temos, haja ficado por aqui, além de nós mesmas. Ouvi dizer e fiquei sabendo, mais de uma vez, que tais pessoas (se é que algumas existem), sem reconhecer qualquer distinção entre os atos honestos e os que não o sejam, porque só se orientam pelas solicitações do próprio apetite, fazem, tanto quando estão sós quando se encontram acompanhadas, de dia e de noite, apenas as coisas que mais deleites lhe proporcionam. Não somente as pessoas livres, mas também as reclusas em conventos, dão a entender que isso lhes convém, e só causa desdouro às outras. Portanto, infringem as leis da obediência e entregam-se aos enlevos carnais. Assim procedendo, elas admitem que conquistam condições para sobreviver. Tornam-se lascivas e dissolutas. Se assim é (e que é assim claramente se vê), que é que fazemos nós aqui? Que é que sonhamos? Por que é que somos mais preguiçosas e lentas do que todos os outros cidadãos restantes, na defesa da nossa saúde? Será que nós nos consideramos menos queridas do que todas as outras? Ou será que nós julgamos que a nossa vida está ligada ao nosso corpo com cadeias mais robustas do que a dos outros ao corpo deles, e que, assim, não precisamos nos preocupar com coisa alguma, ainda que alguma coisa tenha força a destruir. Nós erramos. Estamos enganadas. Que estupidez a nossa, se acreditam que assim é! Sempre que desejamos recordar quantos e quais foram as moças e os jovens derrubados por esta cruel pestilência, encontraremos excelentes argumentos a nosso favor. Por isto, e para que nós, por nojo ou negligência, não caiamos naquilo que, de uma forma ou de outra, se quisermos, poderemos escapar, considero ótima a idéia de sairmos desta terra, assim mesmo como nos encontramos, e assim como muitas outras, antes de nós, fizeram, ou estão fazendo. Não sei se parece à vocês o que a mim se afigura. Fugindo dos exemplos desonestos dos outros, como se foge da morte, iremos instalar-nos honestamente nos nossos lugares, nos arredores da cidade, onde, para cada uma de nós, há abundância do que possa ser indispensável. Ali teremos aquela festa, aquela alegria, aquele prazer que pudermos conseguir, sem ultrapassar, em ato algum, os limites da razão. Lá se ouvem os pássaros a cantar; vêem-se verdejar as colinas e as planícies; contemplam-se os campos, cheios de cereais, ondulando exatamente como o mar ondula; existem árvores de mil formas; descortina-se o céu mais abertamente; o céu, embora ainda enfurecido, nem por isso nos nega as suas belezas eternas; essas belezas são muito mais dignas de contemplação do que os muros vazios da nossa cidade. Ademais, lá o ar é muito mais fresco; das coisas necessárias à vida, nestes tempos, lá existe maior quantidade; e é menor o número dos aborrecimentos. Porque, muito embora também lá moram os trabalhadores do campo, como aqui morrem os habitantes da cidade, tanto menor é o desprazer, lá, quanto mais raros são, do que na cidade, as casas e os seus moradores. De outro lado, não abandonaremos por aqui, se bem o vejo, pessoa alguma. Ao contrário. Bem podemos dizer, em verdade, que fomos até nós as abandonadas. Porque os nossos, ou morrendo, ou fugindo à morte, nos deixaram sós, e em tamanha aflição, como se não fossemos deles. Nenhuma censura pode caber ao ato de seguir este meu conselho. Se não o seguirmos, poderão advir-nos dor, aborrecimento e talvez a morte. Por isso, quando bem parecer a vocês, cada qual tomará a sua aia; faremos com que nos sigam as coisas mais indispensáveis. Iremos hoje a este lugar, amanhã, àquele; gozaremos a alegria e a festa que este tempo nos puder proporcionar; penso que será de bom aviso ter o que fazer. Permaneceremos nesse estado o bastante para vermos (se antes não formos alcançadas pela morte) qual o fim que o céu reservará a estas circunstâncias. Recordo-lhes que o ato de nos retirarmos honestamente desta cidade não nos desdoura mais do que, a grande parte das outras mulheres, o de permanecerem desonestamente.

As outras mulheres do grupo, depois de ouvirem Pampinéia, não somente lhe louvaram o conselho dado, mas também esclareceram que, desejosas de seguir este conselho, já haviam começado a tratar, entre si, mais pormenorizadamente, da maneira de o fazer; era quase como se, erguendo-se da posição de sentadas, uma a uma, tivessem todas de sair imediatamente a caminho. Filomena, porém, que era extremamente discreta, disse:

— Moças: embora haja sido otimamente dito o que Pampinéia pensa, nem por isso se trata de a gente sair correndo, como parece que vocês querem fazer. Lembro-lhe que nós somos todas mulheres. Não existe mulher alguma tão ingênua, a ponto de não saber bem como as mulheres, quando juntas, são pouco ajuizadas, e mal sabem governar-se sem o concurso de qualquer homem. Nós somos volúveis, briguentas, desconfiadas, pusilânimes e medrosas; por isto se não tivermos outra orientação; além da nossa, duvido muito que o nosso grupo deixe de se dissolver logo, com menos honra para nós do que fora justo. Consequentemente, é de bom aviso providenciar, antes de dar começo a seja lá o que for.

Disse, então, Elisa:

— Em verdade, os homens são a cabeça das mulheres; sem a ordem deles, raras vezes alguma obra chega a fim digno de louvor. Como poderemos, porém, ter esses homens? Cada uma de nós sabe que, dos seus, a maior parte está morta. Os outros, que continuam vivos, uns por aqui, outros por lá, em diversos grupos, vão fugindo, sem que saibamos para onde, àquilo de que nós também procuramos fugir. De resto, não seria recomendável estar suplicando a estranhos. Assim, pois, se quisermos correr em busca da nossa salvação, será conveniente que encontremos o modo de nos preparar por tal forma, que não haja tédio, nem surja escândalo, no lugar para o qual dirigirmos, por falta de outro, e também para nossa repouso.

O DECAMERÃO 
Primeira Jornada: Pampinéia

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