NOVELA DE DECAMERÃO

O sultão da Babilônia põe uma filha em viagem, para ela se casar com o rei de Garbo. Através de numerosas peripécias, no decorrer de quatro anos, a moça cai nas mãos de nove homens diferentes, em lugares diversos. Finalmente, restituída ao pai, ainda como pucela, vai a moça para junto do rei de Garbo, como tencionara antes, para ser sua esposa.

— Muito difícil se torna, amáveis mulheres, reconhecer aquilo que nos convém. Grande número de vezes se viu que muitos homens, achando que poderiam viver sem ansiedades e com segurança, desde que conquistassem riquezas, não somente imploraram tais riquezas a Deus, mas também, sem medir fadiga, nem recear perigos, procuraram, com grande afinco, conquistá-las. Esses homens, depois de satisfazer as suas aspirações, encontraram quem os matasse. Os que os mataram, por nada mais o fizeram do que por via de cobiça para com enormes heranças, e também por via da inveja com que, antes de se enriquecerem, amaram a vida que aqueles homens viviam. Outros homens, de baixa condição social, subiram à altura dos reinos, através de mil batalhas perigosas, e por meio do sangue tanto dos seus irmãos, como dos seus amigos. Acreditaram que nos reinos se encontrava a suprema felicidade, sem as infinitas preocupações e sem os intermináveis receios de que a própria vida anda sempre cheia. Mas ficaram sabendo, não sem sacrifício de morte deles mesmos, que, em pleno ouro, nas mesas reais, era veneno o que se bebia. Muita gente existiu, que desejou, ardorosamente, a força física, a beleza do corpo e vários outros predicados de ordem material. E não percebeu, antes, que havia desejado mal, por lhe poderem ser essas coisas causa de morte, ou, então, de vida dolorosa. A fim de que eu não tenha de falar, esmiuçadamente, de todas as ambições humanas, afirmo que não existe ambição alguma que, com pleno entendimento, possa ser escolhida pelos vivos, deveríamos dispor-nos a só tomar e possuir aquilo que nos fosse dado por Aquele que é o único que sabe o de que nós precisamos, e que no-lo pode proporcionar. Entretanto, os homens pecam desejando várias coisas, ao passo que vocês, graciosas mulheres, pecam infinitamente desejando uma só, isto é, desejando ser bonitas; não lhes bastando as belezas que a Natureza lhes concedeu, vocês procuram, com artes maravilhosas, acrescentar-lhes outras. Por isto, agrada-me contar-lhes quão infelizmente bela foi uma sarracena, à qual, em talvez quatro anos, aconteceu contrair novas núpcias por nove vezes.

Já se passou muito tempo, desde quando, na Babilônia, existiu um sultão cujo nome era Beminedab. Nos seus dias, muitas coisas aconteceram de acordo com a sua vontade. Tinha o sultão, entre os seus outros muitos filhos, masculinos e femininos, uma filha chamada Alatiel; a julgar pelo que diziam todos os que a contemplavam, era a mais linda mulher que se pudesse encontrar, naquela época, no mundo. O sultão havia infligido importante derrota a uma grande multidão de árabes que se lançara sobre ele; e nisso fora maravilhosamente ajudado pelo rei do Garbo. Tendo este rei pedido, como se fora graça especial, o sultão deu-lhe aquela filha por esposa. Embarcou-a num navio bem armado e bem equipado; deu-lhe companhia ilustre e numerosa, de homens e de mulheres; muitos objetos, nobres e ricos, foram também postos a bordo; e, enviando tudo ao rei, o sultão entregou a filha aos cuidados de Deus.
   
Os marinheiros observaram que o vento era favorável; armaram as velas e partiram do porto de Alexandria. Por vários dias, o navio navegou com plena felicidade. Depois de passada a Sardenha, admitiram os marinheiros que o fim da viagem não deveria tardar. Aí, porém, num só dia, diversos ventos sopraram; cada um destes ventos se fez desmesuradamente impetuoso; e todos eles esforçaram por tal forma o navio, a cujo bordo se achava a mulher e os marinheiros, que várias vezes os navegadores se deram por perdidos. Contudo, como homens valorosos, puseram em ação toda a arte e toda a força, com o que conseguiram fazer permanecer o navio à tona, durante dois dias, combatendo contra mar grosso e indomável. Surgia, já, da tempestade, a terceira noite; mas a tempestade, ao invés de cessar, parecia aumentar cada vez mais. Não sabiam os marinheiros onde se encontravam; e não conseguiam, por meio da navegação estimada, e menos ainda pelo reconhecimento dos pontos visuais de referência, compreender a próprio posição. O céu estava escuríssimo de nuvens; a noite era densa de trevas.
   
Estando nas alturas de Maiorca, perceberam que o navio se desmantelava; em consequência, ninguém viu modo algum de salvar-se; cada qual passou a ter em mente a própria pessoa, e não a dos outros; atirou-se, então, ao mar, um pequeno barco de remos; a este barco se transferiram os patrões, que não confiavam mais em que a descosida nave oferecesse qualquer segurança; atrás dos patrões, uns após outros, todos os homens que se encontrava no navio desceram àquele mesmo barco, apesar de os que haviam descido primeiro tentarem impedir que isso ocorresse — e o tentassem de punhal na mão. Por esta forma, julgando fugir da morte, todos a ela se arremessaram. O pequeno barco a remos não podia conter tanta gente; havia, ademais, a desvantagem do tempo adverso. O barco, pois, naufragou; e todos morreram.
   
O navio grande, embora desmantelado e já quase inundado, foi sustentado à tona por um vento impetuoso; a seu bordo não permaneceram mais do que a mulher, filha de Beminedab e as suas aias. Estas criaturas, seja devido à tempestade, seja em consequência do medo, estenderam-se, vencidas, quase mortas, pela coberta. O navio correu velozmente, e foi bater numa praia da ilha de Maiorca; foi tamanha a violência do arremesso, que a nave se enfiou quase toda pela areia adentro, à distância de uma pedrada, da enseada. Ali o navio permaneceu, durante a noite, combatido pelo mar, porém sem mais poder ser movido pelo vento. Quando se fez dia claro, e quando a tempestade amainou um pouco, a mulher, que estava quase como morta, ergueu a cabeça; e, fraca como se encontrava, começou a chamar ora uma, ora outra pessoa do seu grupo de familiares; mas inutilmente chamou; as pessoas chamadas estavam muito longe. Não ouvido resposta de quem quer que fosse, e não vendo vivalma, muito admirada se sentiu aquela mulher; e começou a ter um medo enorme. Endireitou-se como melhor pode; viu que jaziam por ali, ao léu, as mulheres e todas as aias que tinham encetado a viagem em sua companhia. Depois de longamente chamar umas e outras, poucas encontrou que ainda se mostravam capazes de ouvir. A maioria, seja por grande angústia do estômago, seja por pavor, estava como se fosse já morta. A necessidade de conselho, porém, se fazia imperiosa para a filha do sultão; ela viu-se inteiramente só; não conhecia o lugar; não sabia onde se achava; por isso, estimulou tanto as mulheres que ainda se encontravam vivas, que fez com que elas se erguessem. As mulheres verificaram que não sabiam para onde os homens tinham ido. Viram o navio encalhado na areia a inundado de água; e todas juntas começaram a chorar. A hora nona já estava para soar, e ainda nenhuma pessoa havia passado pela enseada, nem de qualquer outra parte havia avistado o navio, para lhe poder prestar, por piedade, algum auxilio.
   
À hora nona, voltando, por acaso, de um ponto qualquer, por lá passou um gentil-homem, cujo nome era Pericão de Visalgo, em companhia de vários dos seus familiares, todos a cavalo. Este gentil-homem, ao ver o navio, logo imaginou do que se tratava. Ordenou, pois, a um dos seus familiares, que procurasse ir para dentro do barco, a fim de verificar o que tinha acontecido, e de voltar para lhe prestar informações. O familiar, embora com muita dificuldade, conseguiu entrar no barco; lá encontrou a nobre moça, com a pouca companhia que lhe sobrara. Ela estava como eu aninhada, de medo, por baixo do bico da proa da embarcação. Perceberam, porém, que não entendidas por ele, e que também elas não o entendiam a ele. Procuraram, pois, explicar, por meio de atos, a sua desventura. O familiar examinou tudo, da melhor maneira que pode; e foi contar a Pericão o que havia no interior do navio. Pericão ordenou que se retirassem de lá, imediatamente, as mulheres e as coisas mais valiosas que pudessem ser transportadas; com tudo isso, rumou para o seu castelo. Ali, reconfortou as damas, com refeições e com repouso. Observando o rico enxoval, compreendeu que a mulher que encontrava devia ser grande e nobre dama; e isto logo lhe foi confirmado pelas honras que viu as outras prestarem somente a ela.
   
Embora a filha do sultão estivesse pálida, e muito mal apresentada quanto à pessoa, devido ao cansaço e aos maus tratos do mar bravio, ainda assim os seus lineamentos fisionômicos se afiguravam belíssimos a Pericão. Em consequência, Pericão deliberou, de si para consigo, que, se ela não tivesse marido, ele a desejaria para esposa; se não conseguisse tê-la por esposa, apreciaria obter-lhe a amizade. Pericão era homem de aspecto severo e de grande corpulência. Durante alguns dias, ele fez com que a mulher fosse magnificamente servida; assim, ela recompos-se toda. E vendo-a linda, além de toda a expectativa, ele ficou profundamente pesaroso pelo fato de não conseguir entendê-la, e também ela de não o entender. Por essa forma, ele não poderia vir a saber quem ela era. Não obstante, apaixonado pela sua beleza — e apaixonado fora de todo propósito — Pericão tratou, com atos agradáveis e atenciosos, de induzi-la a satisfazer, sem constrangimento, os seus propósitos. Mas tudo em vão. Ela recusava-se, de modo absoluto, a entrar nas intimidades dele; e, por isto, ainda mais se inflamava o ardor do cavaleiro.
   
A mulher percebeu o que ocorria; como já ali se encontrava havia vários dias, observara que, pelos costumes, devia estar entre cristãos; assim, pouco lhe teria importado dar-se a conhecer, ainda que o houvesse sabido antes. Notou, entretanto, que, com o correr do tempo, lhe seria conveniente, por força ou por amor, acabar satisfazendo os anseios amorosos de Pericão. Nestas condições, propôs, a si mesma, com elevação de espírito, sobrepujar a infelicidade de sua Sorte. Às suas companheiras e às suas aias, de que não lhe haviam restado mais do que três, ordenou que não revelassem, a pessoa alguma, a própria identidade, salvo se estivessem em lugar onde fosse manifesto que obteriam ajuda para a sua reconquista da liberdade. Além disto, exortou-as a observar as boas normas da castidade, e afirmou estar decidida a fazer com que nenhum homem, a não ser aquele que viesse a ser seu marido, auferisse, dela, o gozo do amor. As três mulheres muito a louvaram por tudo isto, e disseram que prestariam obediência às suas determinações.
   
Pericão exacerbava os próprios anseios amorosos, de dia para dia. E tanto mais se exacerbava quanto mais próxima se encontrava e mais negada ele a via a pessoa desejada. Notando que as atenções prodigalizadas de nada lhe valiam, pôs em ação engenho e artimanhas, reservando a aplicação da força para o fim. Uma ou outra vez, observou que a mulher gostava de vinho, exatamente como criatura que não está habituada a beber, por força da religião que proibia o seu uso. Com o vinho, pois, que atua na qualidade de ministro de Vênus, Pericão admitiu que poderia fazê-la ceder. Dando mostras de não se incomodar com aquilo de que ela se fazia esquiva, ordenou que, certa noite, se realizassem festividades solenes, com uma ceia opulenta, à qual a mulher compareceu. No decorrer da ceia, em que muitas coisas agradáveis se serviram, Pericão determinou, ao servidor que estava encarregado de a atender, que lhe proporcionasse vários vinhos, a fim de que ela os misturasse ao bebê-los. O servidor cumpriu esta ordem, à risca. E à mulher, que contra isto não podia precaver-se, sentiu-se arrastada pela agradabilidade do paladar de cada vinho; e tomou mais vinho do que seria aconselhável para a conservação da sua honestidade. A mulher tornou-se alegre; esqueceu-se de toda adversidade passada; e, vendo algumas mulheres dançar à maneira de Maiorca, achou que deveria bailar à maneira de Alexandria.
   
Quando Pericão contemplou este espetáculo, afigurou-se-lhe que estava muito perto daquilo que desejava; insistiu para que a ceia se prolongasse, mantendo-se sempre rica de iguarias e de vinhos; assim, a festa entrou pela noite adentro. Por fim, já quando os convidados se haviam retirado, Pericão penetrou em sua própria alcova, exclusivamente acompanhado pela referida mulher. Esta, mais exaltada pelo vinho, do que temperada pela honestidade, quase como se Pericão fosse não um homem e sim apenas uma das suas servidoras, despiu-se diante dele, sem qualquer constrangimento de vergonha; e entrou na cama. Pericão não perdeu tempo; seguiu-a de imediato. Apagou o lume e entrou habilmente por baixo das cobertas, do outro lado da cama. Envolveu-a com os próprios braços, sem que ela oferecesse qualquer resistência; e começou a ter prazeres de amor na companhia dela. Depois que ela provou tais prazeres — não tendo sabido nunca, antes disso, com o que é que os homens agridem — arrependeu-se de não haver acedido às solicitações anteriores de Pericão. Sem esperar que ele a convidasse para outras noites tão doces como aquela, muitas vezes, ela mesma se convidou, mas não com palavras, porquanto não sabia falar idioma que o homem entendesse, e sim por meio de fatos.
   
A Fortuna, porém, não se deu por satisfeita com a circunstância de a reduzir, de prometida esposa de rei, que era, a amante de simples castelão, que passava a ser. E, naquele grande prazer, dele e dela, interpôs uma amizade muito mais cruel. Pericão, com efeito, tinha um irmão, da idade de vinte e cinco anos; era belo e fresco como uma rosa; chamava-se Marato. Este moço viu aquela mulher, cuja figura muitíssimo lhe agradou; e pareceu-lhe, pelo que lhe era dado compreender através dos atos dela, que ele também lhe caíra nas graças. Imaginando que aquilo que ele desejava não lhe era vedado a não ser pela guarda que Pericão montava junto á pessoa da mulher; entrou a pensar um pensamento impiedoso; e ao pensamento se seguiu, sem tardança, o ato criminal.
   
Encontrava-se, então, por acaso, no porto da cidade, um navio já carregado de mercadorias, pronto para se fazer de vela com destino a Clarença, na România; deste navio, os patrões eram dois jovens genoveses; a vela já estava desferrada, para que, assim que soprasse bom vento, se pudesse partir. Com esses dois moços Marato se entendeu, assentando-se a maneira pela qual ele seria recebido, em companhia da mulher, na noite seguinte.
   
Tudo ficou combinado. A noite caiu. O que se deveria efetuar já estava disposto. Então, Marato dirigiu-se ao castelo de Pericão, que, de nada suspeitando, contra nada se punha em guarda, relativamente ao seu irmão. Dirigiu-se para lá em segredo, na companhia de uns poucos amigos da máxima confiança, cujo auxilio solicitara para executar o que planejara. No castelo, ocultou-se de conformidade com a ordem pré-estabelecida. Depois de haver transcorrido parte da noite, Marato abriu o castelo aos seus companheiros; e todos foram para o aposento onde Pericão e a mulher dormiam. Abriram o aposento. Mataram Pericão, que não se despertou; ameaçaram de morte a mulher, triste e chorosa, se ela produzisse algum barulho; e agarraram-na. Com boa parte das coisas mais preciosas de Pericão, todos se retiraram para a praia, sem ser percebidos por ninguém. Ali, sem a menor perda de tempo, Marato e a mulher subiram para bordo do navio; e os seus companheiros regressaram aos respectivos lugares.
   
Soprando vento bom e fresco, os marinheiros armaram a vela para a viagem.
   
A mulher lamentou enormemente, seja a sua primeira desventura, seja este seu segundo episódio de malfadada sorte. Marato, porém, com os recursos que Deus lhe deu, começou por tal forma a consolá-la, que ela, esquecendo-se de si mesma na companhia dele, se esqueceu completamente também de Pericão.
   
Já se lhe afigurava estar bem, quando a sorte lhe preparou nova tristeza, como se não houvesse dado por satisfeita com as amarguras anteriores. Sendo ela mulher belíssima de formas, como várias vezes dissemos, e possuindo maneiras muito agradáveis, os dois jovens dono do navio se apaixonaram tanto, pela filha do sultão, que por ela esqueceram todas as outras coisas; passaram a nada mais fazer que não fosse servi-la e agradá-la, embora procurando sempre evitar que Marato percebesse a verdadeira causa disso.
   
Um dos dois moços genoveses bem que notou o que ocorria com o outro — e o mesmo aconteceu com este em relação àquele. Sobre isso, estabeleceram um entendimento secreto; combinaram ir juntos à aquisição daquele amor em comum, mais ou menos como se o amor pudesse tolerar semelhante hipótese, à maneira do que se faz com as mercadorias e com os lucros. A mulher era vigiada muito de perto por Marato; e isto impelia que eles, os dois moços, levassem a efeito as próprias intenções. Um dia, singrava o navio com vela panda e veloz. Marato encontrava-se à popa, olhando para o mar. De coisa alguma suspeitava, da parte dos dois moços, e, por isso, não se mantinha em guarda em relação a eles. Assim, agindo de mútuo acordo, os dois patrões correram, rápidos, para perto de Marato, agarraram-no por trás; e atiraram-no ao mar. Mais de uma milha de distância o navio percorreu, antes que qualquer pessoa de fato notasse o que acontecera, isto é, que Marato caíra ao mar.
   
Ao saber disso, e não vendo maneira alguma de o salvar, a mulher começou nova série de lamentações a bordo. Os dois moços correram, incontinenti, a confortá-la; seja com palavras doces, seja com promessas de grande vulto, embora disso bem pouco ela conseguisse compreender, eles esforçaram-se por aquietá-la; não perceberam que não era propriamente o homem perdido, mas principalmente a sua repetida desventura, o de que ela se lamentava. De longos e suaves sermões se fez uso, até que pareceu, aos dois moços, que ela se havia tranquilizado. Então, entraram a discutir entre si, para saberem qual dos dois deveria, por primeiro, levar a mulher consigo para a cama. Como cada qual queria ser o primeiro, e como não era possível encontrar a maneira de se harmonizarem os arroubos, os dois começaram a exaltar-se. Fizeram, de inicio, uso de palavras violentas; travaram, depois, dura luta corporal; por fim, inflamando-se de ira, os dois tomaram dos respectivos cutelos e se arremessaram furiosamente um contra o outro. Os que se encontravam a bordo do navio não conseguiram separá-los. Vários golpes eles vibraram um no outro, e vários um do outro recebeu. Em certa altura, um deles tombou morto, na coberta do navio. O outro, embora atingido gravemente em diversas regiões da própria pessoa, permaneceu em vida.
   
Isto desagradou profundamente à mulher. Ela via-se ali, sozinha, sem poder socorrer-se da ajuda ou do conselho de quem quer que fosse. Receou muito, e com camadas de razão, que se desencadeasse contra ela a fúria dos parentes e dos amigos dos dois patrões. Contudo, os rogos do sobrevivente ferido e a circunstância de o barco chegar logo a Clarença a livraram do perigo da morte. Em Clarença, ela desceu com o ferido à terra-firme, passando a morar com ele num hotel.
   
Com enorme rapidez, correu, pela cidade, a fama da grande beleza da filha do sultão; tal fama chegou aos ouvidos do Príncipe da Moréia, que, no momento, se encontrava em Clarença. O príncipe quis vê-la; ela afigurou-se-lhe ainda mais bela do que dela dizia a vasta reputação; ele apaixonou-se subitamente pela mulher; e apaixonou-se por tal forma que, afinal, já nem sequer podia pensar em outra coisa. Conseguindo saber de que maneira ela havia chegado à cidade, imaginou que seria lícito tratar de possuí-la. Procurou pôr em execução os seus propósitos. Os parentes do ferido, ao terem notícia de tais propósitos, não esperaram coisa alguma; enviaram a mulher ao príncipe. O nobre senhor apreciou extraordinariamente esta circunstância; e a mulher também a considerou valiosa, uma vez que, através dela, se pode considerar salva de um perigo enorme. O príncipe contemplou-a; viu que, além da beleza, ela se exornava de costumes reais; não podendo, de forma alguma, saber quem ela era, achou que deveria considerá-la mulher de grande nobreza; e, por isso, o seu amor por ela se redobrou. Tendo-a junto de si, e prestando-lhe grandes honras, não a tratava como amante, e sim como se ela fora sua própria esposa. A mulher nutria algum respeito para com os próprios sofrimentos passados; agora, parecia-lhe estar tudo muito bem; sentiu-se reconfortada; fez-se alegre; sua beleza refloresceu; e pareceu que a România inteira não tivesse outro assunto para comentar, afora essa beleza.
   
Por esta razão, o Duque de Atenas, jovem belo de rosto e bem conformado de físico, amigo e parente do príncipe, manifestou desejo de vê-la. Fingindo ir em visita ao príncipe, como por vezes costumava fazer, viajou para Clarença, com brilhante e honrosa comitiva. Ali, foi recebido com todas as homenagens e com grande festa. Dias após, conversando juntos, o duque e o príncipe, sobre a beleza da referida mulher, o primeiro perguntou, ao segundo, se ela era tão maravilhosa como a fama dava a entender. Ao que o príncipe respondeu:
   
— Muito mais; disto, entretanto, sejam testemunhas, não as minhas palavras, e sim os seus próprios olhos.
   
Por solicitação do duque, foram, juntos, aonde ela se encontrava. A mulher fora informada, com antecedência, da visita; recebeu-os, pois, com maneiras elevadas e semblante amável. Os dois fizeram com que ela se sentasse no meio deles; mas não se pode auferir prazer da conversação, porque ela quase nada entendia do idioma que eles usavam. Tanto o duque como o príncipe a contemplavam como visão de maravilha; e mais ainda a contemplava assim o duque, que mal conseguia crer que ela fosse criatura mortal. Imaginou que, olhando-a, daria satisfação ao seu prazer de contemplar uma linda mulher; mas não percebeu que, na realidade, contemplando-a, ia bebendo, com os olhos, o veneno do amor. Assim, enleou-se, e acabou enamorando-se ardentemente daquela mulher. Depois, em companhia do príncipe, o duque retirou-se da presença dela; mais tarde, teve tempo de pensar por sua própria conta. Achou que o príncipe era homem mais feliz do que todos os outros, por ter mulher maravilhosa à sua disposição. Após muito meditar, e por várias formas o fazer, o que acabou por pesar mais do que a sua honestidade foi o seu amor. deliberou que, acontecesse o que acontecesse, privaria o príncipe de tamanha felicidade, a fim de fazer-lhe a si mesmo feliz. Convenceu-se de que era preciso adiantar-se; pôs de lado toda razão e todo critério de justiça; predispôs o espírito à prática de enganos. E, um dia, de acordo com uma determinação perversa por ele tomada, entrou em combinação com um camareiro secretíssimo do príncipe. o camareiro chamava-se Curiaci. Em segredo, com a cumplicidade deste servidor de confiança do príncipe, mandou que se preparassem todos os seus cavalos e todas as suas coisas, como se fora para partir dali.
   
Na noite seguinte, juntou-se a um companheiro; os dois, armados, foram conduzidos, silenciosamente, por Curiaci, ao dormitório do príncipe. Viram que, no aposento, a mulher dormia; e que o príncipe, devido ao calor, estava todo nu, a uma janela que dava para o mar, a fim de aproveitar o refrigério de uma brisa que soprava das bandas marinhas. O duque havia informado o seu companheiro, com antecipação, sobre aquilo que deveria fazer; quanto a si próprio, atravessou, quietamente, a sala, indo até à janela. Ali, com um punhal, golpeou o príncipe, por trás, à altura dos rins, fazendo com que a ponta da arma reaparecesse do outro lado do corpo. A seguir, sem perda de tempo, agarrou-o e atirou-o para o lado de fora. O palácio fora construído no mar, em cima das águas; e seu piso estava muito alto. A janela pela qual o príncipe olhava naquela noite, dava para certas coisas que o ímpeto das vagas fizera ruir. Raramente aquelas casas eram visitadas por alguém. Assim, aconteceu, como o duque previra, que a queda do corpo do príncipe não foi, nem poderia ser, percebida por quem quer que fosse. O companheiro do duque estava com um laço à mão. E, vendo o duque levar a termo a parte que lhe cabia, fingiu brincar amistosamente com o camareiro Curiaci; em determinado momento, atirou o laço ao pescoço deste servidor e traidor do príncipe; e o fez por tal forma, que Curiacci não produziu rumor algum. Quando o duque voltou da janela, para perto de seu companheiro, os dois, combinando forças, estrangularam o camareiro. O corpo deste foi atirado para fora, como o havia sido o do príncipe.
   
O duque e seu companheiro se certificaram, de modo absoluto, de que não haviam sido notados, nem pela mulher, que dormia, nem por qualquer outra pessoa. Então, o duque tomou de um lume e levou-o para junto da cama; em silêncio, descobriu o corpo todo da mulher, que continuava em sono profundo. Contemplando-a por inteiro, louvou-lhe a beleza; se, vestida, ela já era do seu agrado, nua se lhe afigurava encantadora além de todo termo de comparação. Sentiu-se, pois, tomado de impetuoso desejo; e, sem ser perturbado pelo recente assassínio por ele mesmo posto em prática poucos momentos antes, deitou-se ao lado dela. Estava com as mãos ainda cheias de sangue. A mulher despertou-se a meio, mas continuou tomada de sono; julgando que era o príncipe quem estava ali, deixou-se ficar. Depois que se entreteve com ela, disse auferindo enormíssimo prazer, ele saiu do leito. Mandou que vários dos seus homens entrassem na alcova. Ordenou que agarrassem a mulher, de modo que ela não pudesse fazer barulho algum; e, por uma porta falsa, por onde entrara, mandou que a levassem de lá. Puseram-na a dorso do cavalo, numa atmosfera em que reinou tanto silêncio quanto possível. A seguir, o duque, em companhia de todos os seus, se pôs a caminho, regressando a Atenas. Como, porém, ele era casado, não rumou propriamente para Atenas, e sim para um belíssimo lugar, que possuía, e que ficava um pouco fora da cidade, sobre o mar. Ali, alojou a mulher, que se mostrava, no momento, extremamente pesarosa. O duque determinou que ela ali se conservasse, em sigilo; mas dispôs que lhe prestassem todas as honras, e que a servissem com tudo quanto ela houvesse por bem ser servida.
   
Na manhã seguinte, os cortesãos do príncipe esperaram, até à hora nona, que ele saísse de seus aposentos. Entretanto, não ouvindo rumor algum, empurraram as portas das salas, pois encontraram todas apenas cerradas. Não deram com pessoa alguma. Admitiram que, às escondidas, o príncipe houvesse partido para algum lugar, a fim de lá permanecer uns dias, à vontade, com aquela esplêndida mulher. Por isto, ninguém se preocupou mais com a sua ausência.
   
Estavam as coisas nesta situação. No dia seguinte, aconteceu que um louco, passando pelas ruínas onde haviam tombado os corpos do príncipe e de Curiaci, viu a ponta do laço; pelo laço, puxou o cadáver de Curiaci para fora; e começou a andar, arrastando-o atrás de si. Não sem surpresa, o cadáver foi reconhecido por muita gente; esta gente tratou de fazer com que o louco a levasse para o ponto onde havia encontrado aquele corpo. Ali, com grande dor da cidade inteira, foi achado o corpo do príncipe, que depois se sepultou com todas as honras. Os notáveis da cidade procederam a investigação, para identificar os  perpetradores de tão estúpido delito. Verificaram que o Duque de Atenas ali foi não mais se achava — e que havia partido furtivamente; concluíram, por aí, que deveria ser ele o autor dos crimes, no propósito de raptar e levar consigo a mulher. Imediatamente, os cortesãos substituíram o príncipe morto por outro príncipe, irmão do falecido; e o incitaram à vingança.
   
O novo príncipe certificou-se de que todas as coisas tinham transcorrido como foram presumidas. Chamou, pois, a si, amigos, parentes, mercenários e servidores de diversos pontos do país. Congregou, assim, um exército grande, poderoso e aguerrido; e ergueu-se para mover guerra ao Duque de Atenas. Ao saber disto, também o duque envidou esforços a fim de se aparelhar para a sua defesa. Em seu auxilio, muitos senhores acorreram. Entres estes, figuraram, enviados pelo imperador de Constantinopla, os moços Constanço, seu filho, e Manovello, seu sobrinho, ambos à testa de gente muito bem armada. Todos foram recebidos, pelo duque, com grandes honras; e, com honras maiores ainda, o foram pela verdadeira duquesa, porquanto esta era irmã de Constanço.
   
Precipitando-se as coisas cada vez mais, no sentido da deflagração da guerra, a cada dia que se passava, a duquesa, a seu tempo, chamou para os seus aposentos os dois enviados de Constantinopla. Ali, com muitas lágrimas e palavras bastantes, narrou-lhes a história toda, expondo a causa real daquela guerra. Apontou o ludíbrio de que estava sendo vítima, da parte do duque e da amante deste, que o duque ainda pensa que conservava em segredo. Queixou-se amargamente disto. E suplicou-lhes que tratassem, da melhor maneira que lhes fosse possível, tanto da honra do duque, como do consolo dela própria. Os dois moços sabiam de como aquilo tudo tinha acontecido. Assim, sem fazer mais perguntas, confortaram a duquesa com as palavras mais amigas que encontraram; animaram-na com boas esperanças; e, informados, por ela, quanto ao lugar em que a amante do duque se ocultava, despediram-se. Tendo ouvido dizer, muitas e muitas vezes, que aquela amante era mulher de maravilhosa beleza, manifestaram o desejo de vê-la; e rogaram, ao duque, que a mostrasse.
   
O duque mal se recordava do que havia acontecido ao príncipe, por ter mostrado aquela mulher a ele mesmo, duque. E prometeu mostrá-la. Para apresentá-la, mandou servir um almoço magnífico, no belíssimo jardim que havia no lugar em que aquela mulher se ocultava. No dia seguinte, pela manhã, para lá se dirigiu o duque, na companhia dos dois moços e de mais uns poucos amigos. Constanço, sentando-se ao lado da mulher, começou a examiná-la, cheio de maravilha; afirmou, de si para consigo, que jamais vira criatura tão bela; e reconheceu que, por certo, se deveria escusar o duque, como se escusaria qualquer outra pessoa que, para tomar posse de tão estupenda mulher, praticasse ato de traição, ou não importa que outro ato desonesto. Contemplando-a vezes e vezes seguidas, e louvando-a cada vez mais, aconteceu a ele, Constanço, o que havia acontecido ao duque. Dali, Constanço se retirou profundamente enamorado; abandonou todo pensamento que com a guerra se relacionasse; e pôs-se a meditar sobre como lhe seria possível tolher aquela maravilha de mulher das mãos do duque. Ocultou, todavia, habilmente, o seu amor, aos olhos de todos.
   
Contudo, enquanto Constanço ardia neste fogo de amor, chegou o dia em que era preciso marchar contra o príncipe que já se aproximava das terras do duque. Por esta razão, o duque, Constanço e todos os outros saíram de Atenas, de acordo com uma ordem pré-determinada. As forças foram postar-se na linha de certas fronteiras, a fim de que o príncipe não pudesse avançar para muito perto de Atenas. Ali estiveram as hostes vários dias. Constanço andou com o espírito e o ânimo voltados para aquela mulher. Imaginou que, agora, quando o duque não mais se encontrava ao lado dela, poderia, com facilidade, satisfazer as suas aspirações e os seus prazeres. E, para ter motivo de regressar a Atenas, mostrou-se fortemente adoentado. Com permissão do duque, transferiu toda a sua autoridade a Manovello; e partiu de regresso a Atenas. Lá se encontrou com a duquesa, sua irmã. Dias após, conversou com ela, sobre a desfeita que ela sofria, da parte do duque, pelo fato de o duque, seu marido, prosseguir mantendo a amante. Disse-lhe que, quando o quisesse, ele bem que poderia ajudá-la, mandando retirar a amante do lugar onde se encontrava e remetendo-a para longe. A duquesa imaginou que Constanço fazia semelhante coisa por amor a ela, sua Irmã, e não por entusiasmo para com aquela mulher, que aspirava a possuir. Por isto, a duquesa respondeu ao irmão que gostaria que tal coisa se fizesse, desde que tudo fosse feito de tal forma que o duque nunca soubesse haver ela consentido no rapto. Constanço prometeu que assim seria. Então, a duquesa consentiu em que ele agisse como melhor entendesse.
   
Em sigilo, Constanço mandou que se armasse uma barca esguia; certa noite, mandou que essa barca fosse levada para perto do jardim da residência daquela mulher. Deu instruções, a todos os que se achavam a bordo da barca, sobre o que cada um deveria fazer. A seguir, com outros companheiros, rumou para o palácio onde a mulher vivia. Constanço foi bem recebido por todos os que se achavam a serviço da mulher; e também a mulher o recebeu com alegria. A mulher encaminhou-se para o jardim, acompanhada pelos próprios servidores domésticos, pelo nobre Constanço e pelos amigos deste. Fingindo desejar falar com a mulher, a sós, da parte do duque, Constanço dirigiu-se, com ela, para perto de uma porta que se abria para o mar. A porta já se havia sido aberta por um dos companheiros de Constanço. Ali, ele chamou a barca, com o sinal combinado; deixou que a mulher fosse rapidamente agarrada e levada para bordo. Depois, voltando-se para a criadagem dela, disse:
   
— Quem não quiser morrer, que não se mova, nem diga palavra; eu não quero roubar, ao duque, a mulher que ele possui; o que desejo é retirar a vergonha que ele impõe à minha irmã.
   
Ninguém ousou responder.
   
Constanço, embarcando com os seus e com a mulher, aproximou-se da amante do duque, que chorava; e ordenou que se desse com os remos na água e se partisse. O barco, mais do que singrar, voou; e, quase ao raiar do dia seguinte, chegou a Egina. Ali, todos desceram para a terra-firme. Repousando, Constanço entreteve-se amorosamente com a mulher que chorava as vicissitudes a que se via atirada, devido à sua desventurada beleza. Depois, regressaram todos à barca, e, dentro de poucos dias, chegaram a Quios. Ali, aprouve a Constanço que a mulher se acolhesse a lugar seguro; temia ele que o imperador de Constantinopla, seu pai, o repreendesse, e também que a mulher por ele roubada lhe fosse arrancada das mãos. Em Quios, a linda mulher chorou a sua triste sina durante vários dias. Mas também nessa ilha, reconfortada, como foi, frequentemente, por Constanço, começou, como fizera todas as outras vezes, a tomar gosto para com aquilo que a sorte se lhe havia preparado.
   
Enquanto estas coisas corriam por esta forma, Osbeque, então rei dos turcos, que se encontrava em guerra contra o imperador de Constantinopla, surgiu, nesta época, por acaso, em Ismirna. Ali ficou sabendo como Constanço permanecia em Quios, sem cautela alguma, todo entregue a uma vida de lascívias, com a bela mulher que havia raptado. O rei armou, então, alguns pequenos barcos; certa noite, rumou, com eles, para Quios, onde desembarcou, com sua gente, em terra-firme. Muita gente, do lado de Constanço, foi surpreendida ainda na cama, antes de perceber o que acontecera, tentaram pegar em armas, foram mortos; a terra toda foi devastada; as coisas saqueadas e os prisioneiros capturados foram remetidos para bordo dos barcos; e tudo rumou de regresso a Ismirna.
   
Osbeque era homem moço. Ao chegar a Ismirna, e ao examinar a presa, deparou com a bela mulher; soube que se tratava daquela que fora apanhada enquanto dormia, na cama, em companhia de Constanço. Mostrou-se extremamente satisfeito por vê-la ali. Sem a menor perda de tempo, fê-la sua esposa; celebrou as núpcias; e com ela dormiu no mesmo leito, durante vários meses.
   
Antes que estas coisas ocorressem, o imperador de Constantinopla havia concluído um tratado com Basano, rei da Capadócia, a fim de que esse descesse contra Osbeque, com suas forças, por um lado, enquanto ele, imperador, o assaltaria pela outra banda. O imperador ainda não havia equipado a tropa de Basano com todo o equipamento que este solicitava, por julgar pouco conveniente fazer o que ele pedia.
   
Ao ouvir tais coisas, Osbeque reuniu o próprio exército e, antes que ele ficasse imprensado entre os dois senhores extremamente poderosos, marchou contra o rei de Capadócia. Deixou, em Ismirna, a sua bela mulher, sob a guarda de um familiar amigo, reconhecidamente fiel. Combateu contra o rei de Capadócia, ao enfrentá-lo, algum tempo depois. Osbeque morreu na batalha; seu exército, depois de derrotado, foi disperto. Assim, Basano, vitorioso, começou a marchar desobstruidamente na direção de Ismirna. Enquanto marchava, toda a gente, pelo caminho, lhe prestava obediência, como ocorre a quem é vencedor.
   
O familiar de Osbeque, que se chamava Antíoco, e sob cuja guarda a bela mulher ficara, era homem de idade bem madura; ainda assim, vendo-a tão linda, deixou de ser fiel ao seu amigo e senhor; enamorou-se dela. Sabia o idioma que a filha do sultão falava. E isto agradou muito à moça, porquanto ela, durante vários anos, vivera como se fosse surda e muda; não entendera pessoa alguma, nem por pessoa alguma fora entendida. Instigado pelo amor, Antíoco começou a usar de grande familiaridade com ela, logo ao cabo de uns poucos dias. Não muito depois, sem a menor contemplação para com o seu senhor, que se encontrava de armas na mão e em plena guerra, os dois tornaram a familiaridade não somente amistosa, mas também amorosa. Passaram a obter, um do outro, prazeres maravilhosos, sob os lençóis. Certo dia, Antíoco e a moça ouviram a notícia de que Osbeque fora vencido e morto. A notícia acrescentava que Basano esta procedendo à pilhagem de todas as coisas. O velho e a moça resolveram não esperar por Basano em Ismirna. Tomaram consigo muitas e muitas coisas de Osbeque, que ali se achavam; e, juntos, às ocultas, partiram a caminho de Rodes. Nessa ilha, dentro de pouco tempo, Antíoco adoeceu muito gravemente. Por acaso, apareceu, em casa de Antíoco, um mercador cipriota, muito amado por ele, e, de fato, seu grande amigo. Antíoco, notando que a morte se aproximava, pensou em deixar, a esse amigo, os seus bens e a sua querida amante. Quando se viu bem perto do fim, chamou o amigo e a amante, e disse-lhes:
   
— Percebo, sem dúvida nenhuma, que minhas forças se vão. Isto me magoa muito, porque nunca me foi tão agradável viver como nestes últimos tempos. É verdade que morro satisfeito com uma coisa: mesmo tendo de morrer, vejo-me morrer nos braços das duas pessoas que amo muito mais do que quaisquer outras que existem no mundo; isto é, nas suas mãos, meu caro amigo, e nas desta mulher, que amei mais do que a mim mesmo, depois que a conheci. Não há dúvida que muito me pesa ver que, após a minha morte, ela por aqui fica, na qualidade de forasteira, sem auxilio e sem conselho. Mas muito mais me pesaria esse fato, se eu aqui não tivesse você. Estou certo de que você cuidará dela, por amor a mim, como se de mim mesmo cuidasse. Peço-lhe, pois, com o máximo de minhas forças, que os meus bens e ela lhe sejam objeto de atenção, fazendo você, de uma e de outra coisa, o que melhor julgar que possa servir de consolo à minha alma. A você, querida moça, peço que, depois de minha morte, não se esqueça de mim; assim, poderei, do lado de lá da vida, vangloriar-me de ser, do lado de cá, amado pela mulher mais bela que a Natureza já formou. Se destas coisas vocês me derem inteira esperança, não há dúvida que me irei desta vida confortado.
   
Tanto o amigo mercador, como a mulher, choravam, ao ouvir estas palavras. Depois que Antíoco concluiu, o amigo e a moça o confortaram, prometendo-lhe, pela fé de cada qual, fazer o que ele pedia que se fizesse, se acontecesse vir ele a falecer. Antíoco pouco durou; morreu e foi por eles sepulto com todas as honras.
   
Poucos dias após, o mercador cipriota liquidou os seus negócios em Rodes. Desejou regressar a Chipre, numa escuna de catalães, que no porto se encontrava. Perguntou, à moça, o que é que ela preferia fazer, embora fosse conveniente, para ele, voltar a Chipre. A mulher respondeu que de bom grado partiria com ele; esperava que, por amor de Antíoco, seria por ele tratada e respeitada como irmã. O mercador esclareceu que com qualquer coisa se contentava, desde que lhe desse prazer, a ela. A fim de que a pudesse defender de toda injúria que viesse a ocorrer, disse, a todos, que a mulher era sua esposa. Afinal, embarcaram. Foi-lhes dada uma saleta, à popa. Com o propósito de evitar que os fatos desmentissem as palavras, ele com ela passou a dormir numa cama relativamente pequena. Em consequência disto, aconteceu aquilo que nenhum dos dois tivera em mente, ao partir de Rodes. O que aconteceu, sob o estimulo da escuridão noturna, da comodidade da situação e do calor do leito (cujas forças não são pequenas), foi que os dois se esqueceram da amizade e do amor do falecido Antíoco. Os dois se sentiram atraídos um pelo outro, por apetite quase igual; começaram a cutucar-se; e, antes de chegar a Bafa, para onde o cipriota se dirigia, já haviam experimentado as delícias do novo parentesco. Em chegando a Bafa, a moça continuou a viver com o mercador.
   
Ocorreu, por simples acaso, que apareceu, em Bafa, por um motivo qualquer, um gentil-homem, que se chamava Antígono. A idade dele era grande; mas o ânimo era ainda maior; e a riqueza, pequena. Imiscuíra-se excessivamente nos negócios do rei de Chipre; e a Fortuna fora-lhe adversa. Este gentil-homem passou, de uma feita, pela casa onde a linda mulher morava; o mercador cipriota havia partido, com suas mercadorias, para a Armênia; e Antígono viu a mulher assomada a uma janela da casa. Como a mulher era belíssima, o ancião começou a fitá-la; e tratou, de si para consigo, de recordar-se de que já a vira outra vez; mas não conseguiu lembrar-se onde. A linda moça, que por longo tempo se vira transformada em brinquedo da Sorte, achou que se aproximava a época em que os seus males deveriam encontrar o fim. Ao ver Antígono, logo se recordou de o haver encontrado em Alexandria, ao serviço de seu próprio pai, em muito boa posição social. Nova esperança de súbito se inflamou, no ânimo da moça; sempre seria possível regressar ao estado de realeza em que se encontrava quando partira, desde que não lhe faltasse o conselho daquele homem. Assim, pois, que o seu mercador se ausentou, ela mandou chamar Antígono. Ele compareceu. Com demonstração de pundonor, ela perguntou-lhe se ele era Antígono, de Famagusta, como ela julgava que fosse. Antígono respondeu que sim; e, além disso, acrescentou:
   
— Senhora: parece-me que a estou reconhecendo; mas de forma alguma consigo recordar-me onde a vi antes. Por isto, peço-lhe que, se não for de seu desagrado, me ajude a memória quanto à sua identidade.
   
A mulher, passando a saber que ele era, mesmo, quem ela supusera, atirou-se-lhe ao pescoço, e começou a chorar; depois de alguns momentos, perguntou-lhe, a ele, que se sentia completamente estupefato, se não se recordava de a haver visto em Alexandria. Ao ouvir esta pergunta, Antígono reconheceu, incontinenti, a moça; ela era Alastiel, filha do sultão, que se acreditava que houvesse morrido no mar; e quis fazer-lhe a devida reverência; ela, porém, não o permitiu; e pediu-lhe que se sentasse alguns momentos ao seu lado. Antígono sentou-se. Com toda reverência, por toda a terra do Egito, se tinha por certo que ela perecera afogada no mar, vários anos passados. Ao que a mulher continuou:
   
— Bem desejaria eu que assim fosse, ao invés de ter eu tido a vida que tive; e acredito que meu pai também pensará dessa forma, se algum dia o souber.
   
Depois de dizer isto, recomeçou a chorar com arte maravilhosa; e, por esta razão. Antígono lhe disse:
   
— Senhora: não se desconsole antes que se torne necessário. Se lhe agrada, conte-me as suas peripécias; diga-me que espécie de vida foi a sua. Por acaso, tudo poderá ser levado avante por tal forma, que recebamos, com a ajuda de Deus, boa compensação.
   
— Antígono — disse a linda mulher — afigurou-se-me, assim que o vi, ver meu pai; foi por aquele amor, por aquela ternura que nutro por ele, que resolvi revelar-me, embora pudesse prosseguir ocultando-me. De bem poucas pessoas posso dizer que, ao vê-la, me senti tão contente como de fato me senti, ao ter você diante dos meus olhos. Assim, aquilo que, no decorrer da minha má Fortuna, sempre ocultei, vou tratar de revelar-lhe, como se você fosse meu pai. Se você achar, depois de tudo ouvir, que poderá, por alguma forma, fazer-me voltar à antiga situação, suplico-lhe que o faça; se não achar, imploro-o para que nunca diga, a ninguém, que me viu, nem que alguma coisa sobre mim ouviu.
   
Dito isto, e sempre chorando, contou-lhe o que lhe acontecera, desde o dia em que o seu navio encalhou em Maiorca, até àquele ponto em que agora se achava. De piedade, Antíoco começou a chorar; mas, depois de pensar um pouco, disse:
   
— Senhora: uma vez que se manteve oculta a sua identidade, através de todos os seus infortúnios, não há dúvida que eu a tornarei mais cara do que nunca a sei pai, e, depois, ao rei de Garbo, para que este a receba como esposa.
   
Depois de perguntar, a ela, como acharia melhor agir, expôs, em boa ordem, o que deveria ser feito. E, para que nova peripécia não interferisse, por delonga, Antígono regressou a Famagusta; apresentou-se ao rei, ao qual disse:
   
— Senhor meu: se vos agrada, podeis, ao mesmo tempo, conquistar grande e nova honra, para vós, e praticar, para mim, que sou pobre por vossa glória, grande e útil serviço, sem qualquer custo de vossa parte.
   
O rei perguntou como. Antígono, então, disse:
   
— Chegou a Bafa a bela e jovem filha do sultão, de quem dizia a fama que há muito tempo se tinha afogado no mar. Para conservar a sua honestidade, ela sofreu enormes privações, por longo tempo; no momento, encontra-se um estado de extrema pobreza; deseja regressar para junto de seu pai. Se vos aprouvesse remetê-la á casa paterna, sob minha guarda, isto faria grande honra a vós, e grande bem a mim. E penso que tal serviço nunca se apagaria da memória do sultão.
   
O rei, impelido por sentimento de genuína honradez, respondeu, sem hesitar, que lhe agradaria fazer o que lhe estava sendo sugerido. Mandou que fossem buscar a moça e a levassem para Famagusta, onde foi recebida, por ele e pela rainha, com festas magníficas e com honrarias excepcionais. Interrogada, depois, pelo rei e pela rainha, a propósito da vida que estivera vivendo, ela, de acordo com as instruções dadas por Antígono, a tudo respondeu e tudo contou. Poucos dias após, a pedido da moça, o rei a enviou ao sultão, acompanhada de brilhante e honrosa comitiva composta de homens e mulheres, tudo sob a direção geral de Antígono.
   
Ninguém pergunte se ela foi recebida com festa pelo sultão, seu pai. O mesmo se diga quanto a Antígono e a toda a comitiva.
   
Depois que a moça repousou o suficiente, o sultão quis saber, dos lábios dela, como foi que aconteceu ela continuar viva. Perguntou-lhe, igualmente, onde estivera, sem nunca lhe comunicar coisa alguma quanto à situação em que se encontrava. A moça, que conservava muito bem, na memória, as instruções dadas por Antígono, junto do pai assim começou a falar:
   
— Meu pai: aquilo aconteceu, talvez, no vigésimo dia depois da minha partida; em consequência de violenta tempestade, o nosso navio, desconjuntado, foi bater em certas praias, lá pelo Poente, perto de um lugar chamado Aguamorta. O episódio ocorreu à noite. Não sei, nem jamais soube, o que aconteceu com os homens que se encontravam a bordo. O de que me recordo é que, quando repontou o dia, eu, que estava quase morta, ressurgi para a vida. O navio já havia sido avistado pelos habitantes locais; estes habitantes da região acorreram todos, prontos para roubar. Eu e duas das minhas damas fomos desde logo largas numa praia. Sem perda de tempo, fomos agarradas pelos moços, os quais trataram de fugir, uns com umas, outros com outras. O que com elas aconteceu, nunca eu o soube. A mim, sei que dois moços me agarraram; que me puxaram pelas tranças; que eu me pus a chorar cada vez mais copiosamente. Aconteceu que estes moços que me arrastavam passaram por um estrada, a fim de entrar num bosque enorme. Por esta estrada passavam, no momento, quatro homens a cavalo. Assim que os me arrastavam viram estes homens, ali mesmo me abandonaram, pondo-se a fugir. Os quatro homens que, pela fisionomia, me pareceram de grande autoridade, perceberam o que se passava. Correram para onde eu me encontrava; e muita coisa me perguntaram; eu respondi muita coisa; mas nem eu fui compreendida por eles, nem eu os compreendi. Os quatro homens, depois de longo tempo conciliábulo, me puseram em cima de um dos cavalos, e me levaram a um convento de mulheres, de acordo com suas leis religiosas. Ali, talvez por efeito do que os homens disseram, fui generosissimamente recebida e sempre muito homenageada. Daí por diante, e com grande devoção, servi, juntamente com elas, a determinado símbolo ao qual as mulheres daquele país querem muito bem. Entretanto, depois de permanecer entre elas por algum tempo, e de aprender algumas coisas da língua delas, elas me perguntaram quem eu era e de onde procedera. Eu bem sabia de onde procedia; contudo, temi que, se dissesse a verdade, seria expulsa de entre elas, na qualidade de inimiga de sua religião; respondi, pois, que era filha de um grande gentil-homem de Chipre, que me havia enviado a Creta, para que eu ali me casasse. Por má sorte, acrescentei, fôramos todos perseguidos no mar, sendo desmantelado o nosso barco. Muitas vezes, em muitas coisas, por temer imposição pior, observei os costumes das minhas companheiras. Sendo-me perguntado, pela mais importante das mulheres do convento, que as outras chamavam “abadessa”, se me agradaria regressar a Chipre, respondi que nada eu desejava com mais ardor. Ela, porém, preocupada com a minha honra, nunca se resolveu a me confiar a qualquer pessoa que viajasse a caminho de Chipre. Aconteceu que, há coisa de uns dois meses, apareceram, por lá, certos homens bondosos, de França, com as respectivas esposas; entre estas pessoas, havia um ou outra parenta da abadessa. Vindo ela a saber que aqueles homens se dirigiam a Jerusalém, a fim de visitar a sepultura onde foi sepulto Aquele que julgam ser seu Deus, e que foi morto pelos judeus, recomendou-me a esses homens, pedindo-lhes para que me entregassem a meu pai, em Chipre. Este rei me recebeu com grandes honras, e de tal ordem, que nunca me seria possível descrevê-las. Depois, mandou-me para cá, para junto do senhor. Se alguma coisa resta a dizer, que a conte Antígono, que muitas vezes ouviu esta narrativa de tudo quanto me aconteceu.
   
Então, Antígono, voltando-se para o sultão, disse:
   
— Meu senhor: como sua filha me narrou várias vezes, e como aqueles gentis-homens, com os quais ela me apareceu, me contaram, foi assim que as coisas se passaram. Somente, ela deixou por dizer uma parte; creio que, como não fica bem a ela fazer referência ao caso, por isso se calou a tal respeito. É o que aqueles gentis-homens e aquelas nobres damas, com as quais elas desceu em Bafa, me disseram da vida honesta que sua filha viveu na companhia daquelas religiosas; falaram-me todos da sua virtude, dos seus louváveis costumes, por entre as lágrimas e o pranto que tanto os homens como as mulheres choraram quando, entregando-se a mim, se despediram dela. Se eu desejasse referir tudo o que contaram, não só não me bastaria o dia de hoje, mas também a noite sucessiva não chegaria. Contudo, desejo apenas dizer o que baste para que o Senhor compreenda que, ao que as palavras deles patentearam, e, ainda, ao que eu pude verificar, o Senhor pode gloriar-se de possuir a filha mais bela, mais honesta e mais virtuosa de quantas filhas possuem os homens que hoje existem e que tragam coroa à cabeça.
   
Por tais coisas, o sultão promoveu uma festa maravilhosa; várias vezes pediu a Deus que lhe concedesse a graça de poder agradecer, com benefícios, a todos quantos houvessem prestado homenagens e honras à sua filha; mais ainda, esclareceu, gostaria de agradecer ao rei de Chipre. Ao rei de Chipre, mandou, por meio de cartas, e também por meio de embaixadores especiais, os mais profusos agradecimentos, pelo muito que fizera em favor da filha.
   
Depois disto, o sultão quis que aquilo que havia sido começado fosse levado a efeito; por outras palavras: quis que a filha passasse a ser esposa do rei do Garbo. Explicou tudo a este rei; escreveu-lhe dizendo que, se tivesse prazer em tê-la por esposa, mandasse buscá-la. Devido a isto, o rei do Garbo promoveu grandes festas; mandou buscar, com todas as honras, a filha do sultão; recebeu-a com grande alegria. E ela, que, com outros oito homens, talvez dez mil vezes dormira, deitou-se ao lado do rei do Garbo, como se fora pucela; fê-lo crer que assim realmente era; e com ele amenamente viveu muitos anos. Por isso se passou a dizer: “boca fechada não perde sabor; ao contrário, renova-se, como faz a lua”.


BOCCACCIO

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