JORGE DE LIMA (1895-1953)

O inesperado ser começou a desenrolar as suas faixas em que estava escrita a história da criação passada e futura.

Retirou a sua imensa cabeça de dentro da torre, sob o estrondo das muralhas desabadas com o seu gesto.

A estreita porta abriu-se reverente para ele passar.

O pátio interior espraiou-se como um lago, e as colunas eternas que sustentavam as abóbadas substituíram os seus braços e as suas pernas.

Entretanto, ele continuava incluso na eternidade. Nos blocos retangulares de suas órbitas estavam encerradas inúmeras gerações.

Era tão velho que morava dentro da morte.

Era tão jovem que inscrevera no seu peito de pedra o nome de várias mulheres.

Dentro dos aquedutos que irrigavam os jardins suspensos em suas frentes haviam navegado muitos povos experientes.

Acharam a sua carne tão áspera como a sua solidão.

Tendo selecionado algumas presenças, pôde expulsar várias rainhas tombadas em seu pórtico. Caíra de qualquer dinastia: o hálito quente do deserto ainda corria sobre os seus lábios gretados.

O inesperado ser tinha taras humanas; mas a sua rota se dirigia às Três Pessoas Eternas e Unas no mesmo Deus que o recobrira com esta aparência.

Senhor, o meu corpo é genérico; e por que me crucificam?

Falava e pensava a sós como um louco.

A abundância de faces que se sucediam ininterruptamente em sua cabeça criou a lenda de que ele era mágico; mas seu rosto permanecia absolutamente infantil; o rosto dos outros homens é que se movia com premeditada desigualdade; muitos de seus companheiros se fantasiaram de anões para desapontá-lo; inúmeros se metamorfosearam em deuses secundários, em coisas estanques, em manequins, em pássaros empalhados.

Pretenderam descobrir a sua tumba, e não conseguiram: ele às vezes se declarava morto, porque a morte era apenas uma continuação.

Contudo, desenterraram milhares de retratos de sua vida continua com todos os defuntos que cruzaram a sua órbita: ele se reviu e chorou diante dos documentos de sua consagração.

Através dos desfiladeiros solitários e largos, vagou com os seus pensamentos frontais.

Várias sepulturas de reis tinham sido efetivamente executadas.

Quantos se enterraram prematuramente em companhia de demônios sórdidos?

Quantas efígies de soberanos estavam desfiguradas pelo orgulho?

Quantos tronos se encontravam povoadas de insetos?

Era preciso dar sombra à água: ele estendeu as mãos.

À justante do rio todos se dessedentaram.

Era preciso escavar a verdade: ele rompeu os dedos na rocha até encontrá-la.

Era preciso descer à terra: ele navegou pelo mar até os cais em que fuzilavam homens tidos como estrangeiros.

Era preciso ir à eternidade: ele já se encontrava nela.

Que nome mais antigo que o seu e da musa saída de si?

O horror ao espaço e à fragmentação obrigou-o a encher a planície de colunas com as insígnias de seus amigos e de operários que com ele trabalhavam.

Olhai atentamente os espelhos, que os vereis lá dentro.

E se vedes guerras, são sempre cenas bélicas contra gritos vigilantes ou sonâmbulos.

Entretanto, aparecem outros temas mais determinados: são as faces do Pai sob os mais vários signos; mas todas estas faces são uma, sob distribuição tripartite.

O inesperado ser luta pelos seus irmãos acossados e ama a magnitude do perigo.

As suas flechas já atravessam os corações superpostos de um pelotão de demônios.

E se nessa luta ele se declara morto, é que a morte lhe dá maior panorama da vida.

Ego dormivi, et soporatus sum: et exsurrexi, quia Dominus suscepit me.

Ilumina oculos meos, ne unquam obdormian in morte: nequando dicat inimicus meus: Prevalui adversus eum.

Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

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