FUGA

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



As atitudes inefáveis,
os inexpremíveis delíquios,
êxtases, espasmos, beatitudes
não são possíveis no Brasil.

O poeta vai enchendo a mala,
põe camisas, punhos, loções,
um exemplar da Imitação
e parte para outros rumos.


A vaia amarela dos papagaios
rompe o silêncio da despedida.
- Se eu tivesse cinco mil pernas
(diz ele) fugia com todas elas.


Povo feio, moreno, bruto,
não respeita meu fraque preto.
Na Europa reina a geometria
e todo mundo anda - como eu - de luto.


Estou de luto por Anatole
France, o de Thaïs, jóia soberba.
Não há cocaína, não há morfina
igual a essa divina
papa-fina.


Vou perder-me nas mil orgias
do pensamento greco-latino.
Museus! estátuas! catedrais!
O Brasil só tem canibais.


Dito isso fechou-se em copas.
Joga-lhe um mico uma banana,
por um tico não vai ao fundo.


Enquanto os bárbaros sem barbas
sob o Cruzeiro do Sul
se entregam perdidamente
sem anatólios nem capitólios
aos deboches americanos.

Comentários