UMA BONECA AO RELENTO

IVAN LESSA




Meu marido adoeceu gravemente logo após termos contraído núpcias em março de 1970. Nosso velho amigo, o dr. Rangel, após tratamento com antibióticos, recomendou uma temporada de repouso em São Lourenço. Meu casamento com Evaldo fora uma extensão natural da longa amizade reinante entre nossas duas famílias e o desdobramento da relação que eu e Evaldo mantínhamos quase que desde crianças. Havíamos brincado de prenda e berlinda, trocamos nosso primeiro beijo antes que ele completasse dezesseis anos e eu doze, vimos o sol se pôr sobre a serra de Góias. Enquanto eu me aprimorava em prendas domésticas, Evaldo varava noites preparando-se para o exame na Faculdade de Economia. Após o cineminha, ele me falava de seus sonhos para o futuro e eu o ouvia fascinada e temerosa de sequer sugerir que minha maior ambição era compartilhar com ele as horas, dias e anos que, aqui na Terra, cabem a Homem e Mulher.
Assim que ele foi nomeado para promissor cargo no Banco Central - não posso negar que nossos sobrenomes mais os relacionamentos do dr. Rangel não tenham contribuído para a auspiciosa ocasião - ouvi, entre incrédula e louca de felicidade, as palavras que, então, fizeram de mim a mulher mais feliz no mundo. Sim! Sim! Sim! Mil vezes sim! Claro que eu aceitava ser sua esposa. Para o melhor e para o pior, não importa o que acontecesse. Recebemos cartão congratulatório do então presidente Médici, Cristina, minha melhor amiga, ajudou-me na decoração de nosso apartamento em Brasília. Lembro-me como se fosse hoje dos primeiros meses de nossa felicidade comum. Cada dia uma nova descoberta, as semanas se sucedendo numa procissão de alegrias. A felicidade dura pouco, diz o povo, e logo descobri a verdade dessas palavras. Evaldo adoeceu e nossos recursos financeiros eram escassos. Meu instinto de mulher disse-me que ele jamais aceitaria de mim algo mais que não amor e compreensão. Era orgulhoso como todos os homens. Somado a isso, papai e mamãe não dispunham de fundos a que eu pudesse recorrer. Casal honesto e trabalhador, viviam ambos do salário auferido por meu progenitor em sua posição na Agência Nacional, cargo obtido na época distante do dr. Getúlio. Até hoje guardo uma foto de papai apertando a mão do saudoso presidente quando este ainda governava a Nação lá do Palácio do Catete.

Cega de dor fui obrigada a recorrer aos préstimos do sr. Lobato, um cavalheiro de menor importância dentro da vasta estrutura do Banco Central mas que, devido aos seus modos insinuantes e natureza servil, caíra nas boas graças de meu amado cônjuge. Expliquei-lhe - haviam se esgotado minhas alternativas - a delicada situação. Ele se ofereceu para resolver o caso mediante uma simples promissória devidamente avalizada pelo senhor meu pai. Qual a mulher que, em meu lugar, não faria o mesmo? Assinei tudo que pediu e fiquei de obter o devido aval de papai. Não há dor que não venha sozinha. Quando vem é em borbotões. Papai morreu antes que eu pudesse expor diante de seus olhos cansados meu dilema e implorar-lhe sua colaboração. Enterrei-o na segunda, falsifiquei sua assinatura na terça. Na quinta, o dinheiro do sr. Lobato saiu. No Planalto, abriu-se meu vale de tristezas.

São Lourenço surtiu o efeito preconizado pelo dr. Rangel. Evaldo, talvez devido à sua moléstia, jamais chegou a indagar em maior profundidade sobre a quantia que permitiu nosso relax. O tempo, que a tudo cicatriza, passou e, meses depois, Evaldo, são e lépido, reassumiu seu cargo, cumpriu a trajetória de sucessos que todos que o conheciam previam. Eu, silente e exultante, assisti de camarote a tudo isso. Mal sabia o preço que deveria pagar...

Em 1972, com o general Geisel no poder, Evaldo ocupava posto da maior proeminência. Com ele, qual sanguessuga vil, subira também o sr. Lobato. Prontamente, ao fim do mês, eu saldava minha dívida de amor e dedicação. Uma mulher, uma verdadeira mulher, faz tudo por seu marido. Nossa vida era um paraíso. Mas não há, todavia, paraíso sem a sua serpente e, um belo dia, sorrateiramente, o sr. Lobato procurou-me para informar que sua posição no Banco Central periclitava, segundo ele, por mero capricho de meu marido, que ameaçava despedi-lo por questões que fugiam à minha compreensão. Deu-me o ultimato: ou eu intercedia a seu favor ou ele revelaria tudo. Meu castelo de sonhos ameaçava desabar. Confiei meu segredo de mulher e esposa ao dr. Rangel, que, na época, beirava os setenta anos. Como somos tolas, nós mulheres! Pensei que o dr. Rangel fosse o tio que me faltara, o irmão que me pai nunca tivera. Destino meu o de alimentar quimeras. Fui uma transformação surpreendente. Sim, ele me auxiliaria contanto que eu satisfazesse certos desejos longamente contidos em seu peito viril. Queria possuir-me de qualquer maneira. Disse-me, com a maior naturalidade, que, uma vez despida, ele iria me dar um banho de língua, que ia ter muito dedo e sacanagem. Ruborizada de vergonha, em total desespero, concordei com tudo. Baixei os olhos e vi o volume crescer em suas calças. Expondo-me, ordenou: Tocar flauta! Flauta toquei. Hediondas melodias dissonantes! Ao final, deu-me dois tapas na cara e mandou-me, essas suas palavras, Enfiar-me noutra caceta! Bestas-feras! Em nada eu me enfiara, Deus é minha testemunha. Desesperada, procurei Cristina e relatei-lhe os fatos. Ela prometeu-me  bendito vínculo que nos liga a nós, mulheres!  interceder junto ao sr. Lobato. Mal sabia eu que este demônio já havia escrito para o meu esposo anexando xerox do maldito documento que destruiria minha vida e a de meus filhos! (Não os mencionei na esperança de poupar-lhes algo de minha humilhação.) Cristina e o sr. Lobato entenderam-se às mil maravilhas. Mais tarde, confidenciou-me, para meu espanto, tudo que se passara entre os dois no motel onde, no corpo de Cristina, meu destino fora traçado. O sr. Lobato era um verdadeiro tarado. Fez coisas do arco-da-velha com Cris, que, nova surpresa, confessou-me ter amado cada segundo de toda aquela pouca-vergonha. Se eu ainda levava na boca o gosto amargo de uma flauta maldita, ela, Cris, trazia em cada poro e orifício o veneno que só os homens sabem destilar. Senti-me contaminada. Contemplei a possibilidade do suicídio, telefonei para uma prima envolvida com elementos subversivos. Minha degradação não conhecia limites. Reuni minhas forças e, qual brava guerreira, tudo confessei diante de Evaldo. Triste sina a da mulher! Sua única preocupação era o escândalo, sua posição no Banco Central. Eu não sabia onde esconder-me.

Por uma ironia do destino, o sr. Lobato, cativado por Cris, devolveu, por mensageiro especial, minha promissória, os documentos que selaram minha sorte. O regozijo de Evaldo afrontou-me como os desejos imundos do dr. Rangel. Passada a crise, Evaldo estava disposto a me perdoar. Seu mundo, até há pouco caído, erguera-se novamente. Sua posição diante do novo governo que vinha aí, o do general Figueiredo, estava garantida. Seríamos novamente felizes. Não há mal que não venha para o bem. Depois da tempestade...

Mas não! Não para mim! Tenho um resquício de amor-próprio e vergonha na cara. Reuni minhas forças e deixei tudo: marido, situação social, filhos! Eu conhecia algo de inglês, de datilografia e estenografia, poderia recomeçar distante de toda aquela imundície. Fiz minhas malas. Serenamente fiz minhas malas. Abandonei Evaldo, Cris, o sr. Lobato, o dr. Rangel e todo aquele mundo de falsidades. Peguei o primeiro avião para o Rio. Eu não quero mais amar. Eu não quero mais sofrer desilusão. Eu fechei a porta do meu coração. Eu sou Nora, outrora de Goiás, hoje do Rio. A luta apenas se inicia.

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