QUANDO AS VIÚVAS AMAM

RONALD FIRBANK



A sra. Fanley deixou cair o Morning Post e afundou numa poltrona.

“Ah, megera! Megera!”, gemeu — depois levantou-se e se olhou num espelho.

Ela gostava muito de olhar para si mesma no meio de uma crise.

A sra. Fanley possuía somente doze expressões, e queria muito possuir mais uma. Tendo se acalmado um pouco ela apanhou o Morning Post e leu: “foi anunciado o casamento de Lord Portmann com Lady Berkley, viúva do falecido Lord Berkley”.

“Ah! Maldita!”, disse a sra. Fanley, secando os olhos com um lencinho de renda. Depois sentou-se novamente e tentou organizar os pensamentos. Fazia dezoito meses que havia enviuvado. Sentia-se quase obsoleta — é tão raro continuar viúva depois de dezoito meses, especialmente quando a pessoa é uma mulher inteligente! “Eu já devia estar casada há seis meses”, disse a sra. Fanley, tentando conter as lágrimas, “mas é tão difícil encontrar outro marido, com todas essas americanas por aí…”, soluçou. Em seguida, ouvindo o mordomo no vestíbulo, fez um esforço para se acalmar e começou a ajeitar as rosas de um vaso.

A sra. Fanley fazia barulhos patéticos na garganta e picava os dedos nos espinhos das rosas. “Nada me fará adotar a cor malva”, declarou. “Serei corajosa e viverei apenas para meu costureiro e meu jardim.”

Mas Lady Berkley não lhe saía da cabeça. Quem era Lady Berkley?, perguntou para si mesma. Antes de casar-se era simplesmente ninguém; as pessoas tinham inclusive comentado que o pai dela era dentista!

A sra. Fanley estremeceu.

Lady Berkley fora srta. Vera Smith até o dia de seu casamento com Lord Berkley. E agora passaria a ser Lady Portmann… “Aquela ladra”, lamentou-se a sra. Fanley, “roubou dois pares do reino!” Ela contava com Lord Portmann. E a que ponto sofrera por ele! Enfrentara dois ciclos completos do Anel, só porque sabia que Lord Portmann era aficionado de musica e certamente estaria presente. Covent Garden! Wagner! A sra. Fanley cerrou os olhos. E, para completar, aquela noite terrível depois das Valquírias, aquele calor todo e ela tentando parecer entusiástica, e as torturas de uma cinturinha de dezoito polegadas, havia desmaiado — e quase ficava ruborizada ao pensar nas coisas horrendas que dissera de Wagner enquanto voltava a si, e na expressão horrorizada no rosto de Lord Portmann.

Lord Portmann já se casara uma vez com uma americana que lhe deixara toda a sua fortuna — havia algo de muito segunda mão naquilo tudo —, um jovem viúvo e uma jovem viúva! Lord Portmann perdera a mulher exatamente no mesmo momento em que Lady Berkley perdera o marido; sem dúvida os haviam ficado noivos enquanto se consolavam mutuamente.

E a tragédia da coisa toda era que os dois iam passar o fim de semana em Fanley Court.

Entre sábado e segunda-feira a sra. Fanley receberia um bando de amigos.

Seus fins de semana eram um notório sucesso. Ela fazia um círculo de cadeiras de lona no gramado debaixo das limeiras do jardim e todo mundo dormia. Era uma coisa tão repousante, diziam os amigos, e se a pessoa não conseguia dormir era só comentar as novidades com o vizinho da cadeira, nem precisava abrir os olhos.

“Hoje é terça-feira”, disse a sra. Fanley, pensativa. “Tenho quatro dias. Ah! Se eu conseguisse afogá-la…” disse, furiosa. Seu aspecto era encantador, e o grande chapéu marrom combinava tanto com seu cabelo… A sra. Fanley fez uma pausa para admirar a própria imagem. “Minha querida viuvinha”, disse para seu reflexo. “O que virá por aí?”, e riu.


Sábado à tarde e a sra. Fanley observava por entre as pálpebras entrecerradas seus hóspedes adormecidos. Lady Berkley cochilava num sofá ao lado de Lord Portmann. “Que posição mais inadequada, francamente”, pensou a sra. Fanley; “e tenho certeza de que ela está mais gorda do que antes, espero que esteja, mesmo”, acrescentou, caridosa.

Lady Berkley não dormia; estava gastando o dinheiro de Lord Portmann na imaginação. Teria uma casa em Park Lane e um apartamento em Paris. Depois, faria com que ele comprasse todos os rubis da pobrezinha da sra. Hamilton quando eles fossem vendidos na Christie’s, no mês seguinte. Abriu um olho e contemplou Lord Portmann. “Tenho certeza de que ele atenderá…”, pensou, e começou a se abanar com um raminho de folhas.

“Acordada, querida Vera?”, perguntou a sra. Fanley, que a observava.

A sra. Berkley afastou os olhos de Lord Portmann: “Sim, Maule, e tive sonhos maravilhosos”.

“Estou esperando a mulher do vigário”, disse a sra. Fanley, piedosa. “Ela e o marido vêm tomar chá conosco.”

“Alguém falou em chá?”, disse a mulher robusta de vestido de musselina, despertando. “Estou faminta.”

“Ainda faltam dez minutos, Lady Amberly”, disse Lord Portmann.

Lady Amberly gemeu e se virou para o lado, adormecendo outra vez.

“Ela pensa que está na cama dela!”, cochichou Lady Berkley.

“Ela está sempre com fome”, disse Lord Portmann. “É a mulher que mais come em Londres…”

“Que horror”, disse uma voz sonolenta.

“A princesa vai cair da cadeira”, disse Lord Portmann.

Todos olharam.

“Não estou dormindo”, disse a princesa. “Estou matando moscas!”

Uma sombra se projetou sobre o gramado ensolarado e a mulher do vigário apareceu, seguida pelo marido de aspecto fatigado.

“Que bobagem da Maude, convidar essa gente da igreja hoje à tarde”, disse o príncipe Borris à irmã.

Mas a princesa tinha apanhado um inseto e não prestou atenção nele.

“Onde vai ser servido o chá?”, perguntou Lady Berkley.

“Nos rododentros”, disse a sra. Fanley com ar etéreo.

“Ah, mas e as vespas?”, disse Lady Amberly, despertando.

“Querida senhora Fanley, acho que não consigo sair daqui”, disse uma garota que havia passado a tarde comendo grama.

“Então vamos ficar onde estamos”, disse a sra. Fanley com um sorriso. Estava muito sedutora em seu chapéu de palha branco de abas largas decorado com pêssegos, e trazia um grande ramo de ranúnculos à cintura.

“Finalmente”, disse Lady Amberly quando os criados e o mordomo se aproximaram trazendo o chá. “Nunca mais senti tanta fome na vida”, continuou. “Nada como o sono para despertar o apetite!” Lady Amberly parecia encalorada e patriótica vestida de musselina vermelha, branca e azul; ao primeiro sinal de que o chá seria servido, levantou-se e alisou o cabelo, depois afundou de novo no sofá e fitou com ar faminto os pêssegos do chapéu da sra. Fanley.

Todos começaram a despertar. O príncipe Borris foi para o lado de Lady Berkley, que lia um romance Frances de capa muito ilustrada; ela largou o livro e passou a mostrar-se deliciosa. O príncipe Borris era solteiro.
“Nosso bazar é na próxima quinta-feira”, disse o vigário à sra. Fanley.

“Se a senhora tivesse alguma roupa de lã que não usa mais…”, disse a mulher do vigário.

“Sinto muito, não tenho, querida senhora Ayr, mas vou ver se consigo encontrar alguma coisa. Deixe que eu lhe sirva um pouco mais de chá.”
“E eles foram vistos em Paris”, disse o príncipe Borris a Lady Berkley. “Claro que ela achava que o marido estava na Escócia, e ele achava que ela estava na casa da mãe dela. O divorcio sai no mês que vem.”

“Coitadinha da Clara!”, murmurou Lady Berkley.

A mulher do vigário parecia escandalizada e fitou a xícara, mas logo em seguida afastou de novo o olhar pois havia uma pintura indecente no pires. Ela estava com calor e pouco à vontade. “Acho que já vamos indo”, disse à sra. Fanley.
“Adeusinho, então, querida senhora Ayr. Vou fazer o possível para encontrar alguma luva de lã ou outra coisa qualquer para o bazar. Mas será que lã, em julho, não é muito quente para a classe trabalhadora?…”

“Agasalho nunca é demais”, disse a sra. Ayr, olhos fixos na musselina transparente de Lady Berkley.

“Que gente agradável!”, disse a sra. Van Cotton, uma americanazinha robusta de roupa amarela e dourada. Ela era levemente evocativa de um teto de restaurante. Seu retrato estava exposto na Academia e o publico costumava tomá-lo por um pôr do sol. Todo mundo estava solitário com ela porque sua única filha resolvera ser cantora de ópera e cantava a Ainda no Covent Garden. “Acabou comigo”, dizia a sra. Van Cotton a quem quisesse ouvi-la…

A sra. Fanley parecia entediada; as coisas não estavam saindo como ela planejara. “Quero lhe mostrar meu bote novo”, disse a Lord Portmann. “Podemos fazer um passeio de meia hora no rio antes do jantar. Quem quer ir conosco?”, perguntou a todos.

“Está muito quente”, disse Lady Amberly, “e além disso, querida, vou tomar um pouco mais de chá.”

Lady Berkley e o príncipe Borris mexericavam deitados de costas e olhando para o alto por entre as árvores. A princesa caçava moscas e ouvia a sra. Van Cotton falar-lhe, como de hábito, sobre a filha. Viera para a Inglaterra só para arrumar casamento para ela, “e agora”, dizia a sra. Van Cotton tragicamente, “estou achando que ela vai se casar com um tenor”.
A garota de branco estava ocupadíssima comendo grama…

“Minha querida criança”, disse a sra. Fanley; “se você continuar comendo o meu gramado, vai morrer.”

“Ah, eu adoro grama! Querida senhora Fanley, é uma coisa tão repousante e campestre, depois da poeira de Londres…”
“Comme vous voudrez”, disse a sra. Fanley, abrindo a sombrinha.
Lord Portmann se levantou e olhou para Lady Berkley, mas ela estava conversando com o príncipe.

“Você vem, Ned?”, falou a sra. Fanley.

Os dois foram andando devagar na direção do rio, que brilhava ao sol da tarde.

“Ainda não são seis horas”, disse a sra. Fanley. “Podemos remar durante uma hora.”

Ela entrou no hotel e ele saiu remando pelo rio.

“Ainda não tive ocasião de felicitá-lo”, disse ela, depois de uma pausa.

Lord Portmann parecia constrangido.

“Quando é o casamento?”, ela perguntou.

“Em novembro, acho.”

“Ah, que rápido.” A sra. Fanley estava deslumbrante debaixo de seu amplo chapéu sombreado e sua grande sombrinha de renda. Mirava um grupo de nenúfares amarelos e parecia semi-adormecida.

Lord Portmann começou a ficar sem graça, afinal fora praticamente noivo de Maude Fanley e agora…

A sra. Fanley riu de repente. “Menino bobo”, disse.

“O que você disse, querida Maude?”

“Você vai poder obturar os dentes de graça!” disse, rindo.

“Não estou entendendo”, disse Lord Portmann.

“Seu futuro sogro é dentista”, disse a sra. Fanley com doçura.

Lord Portmann mordeu o lábio. “Devo dizer”, começou irritado, “que acho inadequado…”

“Meu querido menino”, ela interrompeu, “você se esquece de que faz cinco anos que conheço você!”

“Uma vida”, disse ele, irônico. “Pedi você em casamento antes de você se casar com Fanley”, continuou depois de uma pausa, “e você não me quis.”

“Eu era romântica, como toda garota!”, suspirou a sra. Fanley.

“Você nunca teria se casado comido…”, ele continuou. “E aí…”

A sra. Fanley sentiu-se incomodada; francamente, Ned Portmann era um tanto obtuso. Desde que o marido morrera, ela fizera tudo o que estava a seu alcance para induzi-lo a fazer uma proposta de casamento. Com esforço, verteu uma lágrima.

Lord Portmann jogou-se a seus pés, quase virando o bote. “Queridíssima Maude, sempre amei você”, disse.


Lady Berkley e o príncipe Borris passeavam pelo roseiral enquanto Lady Berkley fazia o príncipe colher todas as flores mais espinhentas que conseguia encontrar. “Preciso me vestir para o jantar”, disse por fim.

“Ah! Só mais quinze minutos”, ele implorou.

Os dois se sentaram numa encosta relvada e Lady Berkley começou a despedaçar suas rosas, refletindo, muito concentrada.

“Quando você volta para a Polônia?”, perguntou ao príncipe.

“Depende… em novembro, talvez.”

“Ah! Quer dizer que não estará em Londres para o meu casamento” disse Lady Berkley, sentida; depois de uma pausa, acrescentou: “Que país lindo deve ser a Polônia… sempre tive vontade de visitar a Polônia… de viver lá…”

O príncipe olhou para ela e compreendeu. “Veremos, cara senhora, de que modo se resolve esse assunto”, disse.


“Quero falar com você, Ned”, disse Lady Berkley a Lord Portmann depois do jantar.

Lord Portmann estivera conversando com a sra. Fanley, que estava um encanto de branco e prata.

“Quero que você me leve para dar uma volta no jardim”, disse a ele assim que os dois ficaram a sós. “Tenho uma coisa para lhe falar.”

Lord Portmann foi atrás dela e ela começou em seguida. “Tenho certeza de que cometemos um engano. Quero que você entenda, Ned, que não sou a mulher séria que você pensa que eu sou! Eu morreria, se tentasse me interessar pela política inglesa. Quero que você seja um amor e me deixe partir.” Ela falou depressa e nervosamente, com o olhar fixo diante de si, de modo que não pôde ver a expressão deliciada que invadiu o rosto de Lord Portmann.

“Minha querida Vera, claro que isto é uma grande surpresa para mim”, declarou. “Mas se é isso que você deseja…”

“Eu tinha certeza de que você seria um amor”, ela disse. “E agora vou cantar o dueto de Sansão e Dalila com o príncipe.”


“Estamos todos esperando por você”, disse a sra. Fanley a Lady Berkley quando ela entrou no salão de música.

“Sinto muito, querida”, disse Lady Berkley. “Onde está o príncipe?”

“Está procurando a partitura. Vamos cantar alguma coisa que o príncipe e a princesa compuseram. Lady Amberly tocará flauta”, disse a sra. Fanley. “Acho que ela já pode começar.”

“Tão em cima do jantar, querida? Acho melhor não”, disse Lady Amberly. “Querida senhora Fanley, aceite minhas congratulações”, prosseguiu ela. “Seu chef é um artista.”

“Vamos começar”, disse Lady Berkley.

“Nada da Aida, espero”, disse a sra. Van Cotton, nervosa.

“Ne vous inquietez pás, chére Madame”, disse o príncipe. Todos começaram a falar ao mesmo tempo.

“Não, nada clássico”, disse a garota pálida. “Alguma coisa de The Cingalee.”

A sra. Fanley conduziu Lord Portmann até um canto. “E então?”, perguntou.

“Estou livre”, ele disse.

A sra. Fanley corou — um feito, para uma viúva.

“Você se casa comigo, Maude?”, sussurrou Lord Portmann.

“Vou pensar”, ela disse; depois, arrependendo-se de sua crueldade, cedeu. “Caso”, disse graciosamente, “se o casamento for na igreja de são Jorge, na praça Hanover. Nunca vou me sentir casada se não for lá.”

“Querida”, ele disse, “eu amo você e esse seu vestido é encantador.”

A sra. Fanley pareceu satisfeita. “Meu enxoval será lindo e vamos passar a lua-de-mel em Paris. Vai ser tranqüilo e repousante para nós, depois dessa horrenda saison londrina…”

Lord Portmann se animou. “Isso, Paris!”, disse.

Lady Berkley visivelmente resolvera seus próprios assuntos, pois estava radiante.

“Mas não sinto o menor ciúme”, disse a sra. Fanley para si mesma. “O príncipe é estrangeiro… Pode ser”, acrescentou, “que nem príncipe ele seja. Quem é que vai saber?”

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