NOVELA DE DECAMERÃO

A Marquesa de Monferrato, com um banquete de galinhas e com algumas palavrinhas amáveis, reprime o amor louco do rei de França.

— Agrada-me a circunstancia de havermos entrado a demonstrar, com as novelas, a força que as respostas justas e prontas possuem. Agrada-me, igualmente, salientar como é grande, nos homens, o impulso no sentido de procurar amar mulher de linhagem mais ilustre do que a sua. Da mesma forma, nas mulheres, constitui acautelamento indispensável o saberem impedir que o coração se tome de amores para com homens de expressão social maior do que a própria.

Por tudo isto, veio-me ao espírito, minhas lindas mulheres, a oportunidade de mostrar-lhes, na novela que agora me cabe demonstrar, como foi que, com obras e com palavras, uma nobre mulher evitou de se apaixonar por homem de categoria mais elevada do que a dela; ao mesmo tempo, ela afastou esse homem da circunstancia de se perder de amores por mulher de estirpe inferior à dele.
   
O Marquês de Monferrato era homem de grande valor; fizera-se gonfaloneiro da Igreja; fora para além-mar, numa travessia efetuada a Mao armada, pelos cristãos. Do seu valor se falou na corte do Rei Filipe, o Vesgo , quando este soberano se preparava para a mencionada travessia. Por um cavaleiro, foi dito, certa vez, que não havia, sob as estrelas, casal mais feliz do que o composto pelo referido marquês e sua mulher. Assim como, entre os cavaleiros, o marquês se fizera famoso, pela posse de todas as virtudes, assim também sua esposa, entre todas as esposas do mundo, se pusera em relevo, por sua beleza e sua dignidade.
   
O que se disse entrou por tal forma no espírito do rei de França, que este, sem nunca ter visto a marquesa, começou, de súbito, a amá-la fervorosamente. Manifestou, pois, a sua decisão, que foi a de, numa viagem que estava para empreender, só viajar por mar a partir de Gênova. Assim, iria a Gênova a terra-firme. E encontraria, por esta forma, razão plausível de visitar a marquesa. Aliás, o réu nutria o propósito de, se o marquês não se encontrasse ao lado da esposa, pôr em prática determinados seus desejos.
   
De acordo com este desígnio, o rei mandou que tudo se executasse. Ordenou que todos os homens fossem à frente, precedendo-o de muito; e ele, com pequena comitiva, composta de alguns guerreiros e de alguns gentis-homens, se pôs a caminho. Aproximou-se das terras do marquês. Entretanto, um dia ante de entrar nelas, mandou dizer, à mulher, que o esperasse, no dia seguinte, para o jantar.
   
A mulher, precavida e astuta, respondeu, com visível satisfação, que isso constituía para ela, graça mais elevada do que qualquer outra, e que o soberano de França seria benvindo. Logo depois, fez-se pensativa; sentiu-se preocupada com aquilo que poderia significar o fato de um rei tão poderoso a visitar durante a ausência de seu marido. Não se iludiu com a possibilidade de a fama da sua beleza o haver atraído desinteressadamente. Ainda assim, como mulher digna, dispôs-se a prestar-lhe as honras devidas. Mandou chamar vários dos homens que haviam permanecido em suas terras; e, com o concurso do conselho discreto da parte deles, determinou que tudo o que fosse oportuno se pusesse em ordem.
   
Decidiu que se reunissem, sem perda de tempo, todas as galinhas que existissem na região; e mandou que os seus cozinheiros preparassem, apenas com tais galinhas, e só com galinhas, os pratos para o banquete real.
   
O rei chegou, no dia marcado, sendo recebido pela marquesa com grande festa e muitas homenagens. O soberano, contemplando a ilustre dama, achou que ela era ainda mais linda, mais digna e mais educada do que o que havia imaginado, com base nas palavras do cavaleiro que sobre ela o informara, em sua corte. Sentiu-se extremamente maravilhado, e louvou-a com entusiasmo. Tanto mais ele se enlevou, com o desejo de a possuir, quanto mais achou que ela era dona de beleza muito maior do que a que havia suposto.
   
Depois de algum repouso, auferido em salas ricamente decoradas de tudo quanto se indicava para receber um rei tão opulento, soou a hora do jantar. O rei e a marquesa sentaram-se a uma das mesas. Os outros, de acordo com as respectivas categorias, foram dispostos em outras mesas. O rei viu-se servido de muitos pratos, todos magníficos, bem como de vinhos ótimos e preciosos. Além do prazer da mesa, sentia enorme encanto ao contemplar, de espaço a espaço, a belíssima senhora marquesa.
   
Contudo, mesmo passando de um prato maravilhoso a outro, o rei começou a sentir-se um tanto intrigado pelo fato de as iguarias, sendo embora diversas umas das outras, nunca serem confeccionadas com outra coisa se não com galinhas. Sabia o rei que o lugar em que se encontrava devia ser abundante em caça. Sabia, igualmente, que, tendo mandado, com alguma antecipação, o aviso de sua chegada, tempo devera ter havido, e de sobra, para caçar. Não obstante, e mesmo apesar de se admirar daquela circunstancia, não quis induzi-la a conversar a não ser sobre as suas galinhas. E, pois, com fisionomia sorridente, dirigindo-se a ela, disse:
   
— Senhora: será que, nesta região, nascem apenas galinhas, sem galo algum?
   
A marquesa entendeu muitíssimo bem a pergunta. Pareceu-lhe que, de acordo com o seu desejo, Deus Nosso Senhor a houvesse enviado, na ocasião oportuna, para que ela pudesse demonstrar as suas intenções ao rei perguntador. Por isto, voltando-se para o soberano, respondeu, toda segura de si:
   
— Majestade, não. Ao contrário. As mulheres daqui, embora difiram um pouco das outras, quanto às vestes e às honrarias, são todas feitas exatamente como em qualquer outra parte.
   
O rei, ao ouvir estas palavras, compreendeu bem a causa determinante daquele banquete de galinhas; compreendeu, igualmente, o virtuoso sentido oculto nas palavras por ela proferidas. Percebeu que, com semelhante mulher, inutilmente se desperdiçariam palavras; além do mais, contra ela, nenhuma força poderia ser aplicada.
   
Assim como ele, impensadamente, se pusera a arder de desejos por ela, assim também, com sabedoria e prudência, se viu levado, a bem da sua própria honra, a extinguir o fogo amoroso tão mal concebido. Sem provocar mais a marquesa, por temor de suas hábeis respostas, o rei continuou a jantar, completamente alheio a toda esperança. Terminado o banquete, quis fazer com que, através de uma partida imediata, se acobertasse a desonesta intenção da sua visita. Agradeceu, pois, à marquesa, pelas honras recebidas da parte dela. Ela desejou que Deus o acompanhasse. E ele rumou para Gênova.


BOCCACCIO

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