NOVELA DE DECAMERÃO

Um monge, caído em pecado merecedor de gravíssima punição, livra-se da pena repreendendo, ao seu abade, culpa idêntica.

— Amáveis mulheres: se bem compreendi a intenção de vocês todas, nós aqui estamos para nos agradar uns aos outros, narrando episódios. Considero, por isto, salvo melhor juízo, que é lícito, a cada um de nós (como a Rainha, faz pouco tempo, bem o esclareceu), contar a novela que julga mais própria para nos deleitar. Acabo de ouvir que Giannotto di Civigni salvou a alma de Abraão, por meio de bons conselhos. E que Melquisedeque defendeu as suas riquezas contra as armadilhas preparadas por Saladino; e defendeu-as por meio do comedimento e da sabedoria. Sem esperar pela solicitação de vocês, pretendo contar, brevemente, a esperteza com que um monge livrou o próprio corpo de gravíssima penalidade.

Existiu, em Lunigiana, localidade não muito distante desta, um mosteiro que já foi, outrora, mais rico, de santidade e de monges, do que hoje o é. Nesse mosteiro havia, entre outros, um monge ainda jovem, cujo vigor nem o frio, nem os jejuns, nem as vigílias, conseguiram macerar. De uma feita, lá pelo meio-dia, quando todos os outros monges dormiam a sesta, o jovem monge, por mero acaso, se pôs a passear, sozinho, pelas vizinhanças de sua igreja. Situava-se o templo em lugar muito solitário.
   
Aconteceu, ao monge, ver uma jovem muito bonita. Talvez fosse filha de algum dos trabalhadores da região. A moça andava colhendo certas ervas, pelos campos. Mal o monge acabou de a contemplar, e já se sentiu acometido pela concupiscência carnal. Por isto, aproximou-se mais da moça. Travou conversa com ela. E tanto ele pulou, de uma palavra a outra, que acabou estabelecendo um acordo com ela. Devido ao acordo, levou-a para a sua cela, sem que pessoa alguma desse por isso. Impelido por excessivo desejo, ele brincou com ela, fazendo-o, porém, com menos cautela do que a conveniente.
   
Aconteceu que o abade do mosteiro, saindo de sua cama, onde estivera a dormir, e passando, pé ante pé, em frente à sala do mencionado monge, ouviu a barulheira que ele e a moça estavam fazendo, juntos, lá dentro. A fim de identificar, com mais precisão, as vozes, o abade aproximou-se bem da porta da cela; aproximou-se quietamente, com o propósito de ouvir. Percebeu, sem sombra de dúvida, que, dentro da cela, se encontrava uma mulher. E sentiu a tentação de ordenar que a porta se abrisse. Depois, entretanto, pensou que seria melhor proceder por outra forma, naquele caso. Voltou para o seu quarto. E esperou que o monge saísse da cela.
   
O monge, embora ocupado com aquela jovem, e embora disso auferisse prazer enorme, não deixou de suspeitar de alguma coisa; parecera-lhe, em certa altura, ouvir um arrastar de pés, pela ala dos dormitórios; por isso, lançou a vista através de um pequeno orifício; e viu, com a mais perfeita clareza, que o abade lá estava ouvindo o que se passava em sua companhia. Sabendo o monge que, por tudo isto, grave penalidade se seguiria contra ele próprio, mostrou-se sinceramente contrariado. Entretanto, sem dar mostras da contrariedade à moça que se achava em sua cela, revolveu, em seu espírito, muitas e muitas coisas, na esperança de encontrar algo que o ajudasse a sair-se bem daquela entalada. Ocorreu-lhe, por fim, uma nova malícia, que se adequava à finalidade por ele desejada. Depois, fazendo como se já houvesse ficado o bastante em companhia da moça, disse-lhe:
   
— Desejo procurar a maneira pela qual você possa sair daqui de dentro, sem ser vista; por isso, fique aqui mesmo, tranquilamente, até que eu volte.
   
Saiu da cela. Fechou-lhe a porta com chave. E dirigiu-se diretamente ao quarto do abade. Apresentando-lhe a chave, de acordo com o costume a que todo monge prestava obediência quando saía do mosteiro, disse, com fisionomia serena e amiga:
   
— Senhor abade: esta manhã, não me foi possível mandar trazer, ao mosteiro, toda a lenha que consegui preparar; por isto, com sua licença, quero ir ao bosque, a fim de ordenar que a tragam.
   
O abade, no propósito de se informar plenamente quanto ao erro praticado por este monge, mostrou-se satisfeito com o seu procedimento. De bom grado recebeu a chave, dando, ao monge, licença para que ele fosse ao bosque. Convenceu-se, como se vê, de que monge nada percebera quanto ao fato de ele, abade, o haver estado escutando à porta de sua própria cela.
   
Assim que o monge se retirou, o abade tratou de pensar no que seria preferível fazer em primeiro lugar: se abrir-lhe a cela, em presença de todos os monge do mosteiro, a fim de que ninguém encontrasse motivo de queixa contra ele, quando, em sua autoridade de abade, punisse o monge pecador, ou se ouvir, primeiro, da própria moça, a sós, como era que o fato se havia desenrolado. Pensando, porém, que a jovem bem podia ser esposa ou filha de homem que ele não gostaria de submeter a semelhante vergonha, resolveu que seria melhor tratar, em primeiro lugar, de ver quem era aquela criatura, para depois tomar partido. Quietamente, encaminhou-se para a cela do monge; abriu-lhe a porta; entre; e tornou a fechá-la por dentro, naturalmente. A jovem, vendo o abade entrar, sentiu-se desnorteada. Envergonhada e espavorida, pôs-se a chorar. O senhor abade contemplou-a longamente; vendo-a tão linda e tão apetitosa, sentiu, de súbito, embora já fosse um pouco idoso, os estímulos da carne. Eram estímulos não menos ardentes do que os que haviam sido sentidos pelo jovem monge. E, de si para consigo, começou a dizer:
   
— Afinal, por qual razão devo eu deixar de gozar um prazer, quando posso gozá-lo, se, de outro lado, os aborrecimentos e os tédios se encontram sempre prontos para serem por mim provados, quer eu os queira, quer não? Esta que aqui está é uma bela moça; acha-se nesta cela, sem que pessoa alguma, no mundo, o saiba. Se eu posso induzi-la a proporcionar-me os prazeres que almejo, nenhuma razão há para que eu não a induza. Quem é que virá a saber? Ninguém, jamais, o saberá! Pecado oculto é pecado meio perdoado. Uma ocorrência destas talvez não se verifique nunca mais. Acredito que seja de boa norma colher o bem que Deus Nosso Senhor manda à gente.
   
Assim dizendo, e tendo mudado completamente de propósito em relação àquele para o qual ali fora ter, aproximou-se mais da moça. Com voz mansa, começou a confortá-la e a suplicá-la, para que não chorasse. Passando de uma palavra a outra, chegou ao ponto em que pôde manifestar-lhe, à moça, o seu desejo. A jovem, que não era feita de ferro, nem de diamante, curvou-se muito cômoda e amavelmente aos prazeres do abade. O sacerdote abraçou-a; beijou-a vezes e vezes seguidas; lançou-se, com ela, na cama do monge. Talvez por dedicar grande consideração, seja ao enorme peso da própria dignidade, seja à idade tenra da moça — ou, então, receando fazer-lhe mal, por pesar excessivamente — o abade, ao invés de se colocar sobre o peito da moça, colocou a moça sobre o seu próprio peito. E, por longo espaço de tempo, se entreteve com ela.
   
O monge, que fingira ir ao bosque, mas que, na realidade, se ocultara na ala dos dormitórios, viu o abade entrar em sua cela. Assim, inteiramente tranqüilizado, deduziu que o seu plano tinha surgido efeito; quando notou que o abade fechou a porta por dentro, teve, desse efeito, certeza absoluta. Saindo de onde se encontrava escondido, quietamente se foi para um orifício pelo qual ouviu e viu o que o abade fez e disse.
   
Afigurando-se, ao abade, que ele já se havia demorado o suficiente em companhia da moça, deixou-a encerrada na cela, e regressou ao seu quarto. Depois de algum tempo, ouvindo chegar o monge, e julgando que ele estivesse regressando do bosque, resolveu repreendê-lo e mandar que o encarcerassem; com isto, pretendia ficar sozinho na posse da presa conquistada. Mandou, pois, chamar o monge à sua presença; com fisionomia carrancuda e palavras graves, repreendeu-o, ordenando que fosse levado ao cárcere. O monge, sem hesitar um instante, respondeu:
   
— Senhor abade: eu ainda não estou, na Ordem de São Bento, o tempo suficiente para aprender todas as particularidades da sua disciplina. O senhor ainda não me havia mostrado que os monges devem fazer-se mortificar pelas mulheres, como devem fazê-lo pelos jejuns e pelas vigílias; agora, porém, que acaba de me mostrar, prometo-lhe, se me perdoar por esta vez, não pecar jamais por essa forma; ao contrário, farei sempre como vi o senhor fazer.
   
O abade, que era homem astuto, reconheceu prontamente que o monge conseguira não somente saber a seu respeito muito mais do que o suposto, mas também ver tudo o que ele fizera. Em conseqüência, o abade sentiu pela sua própria culpa; e envergonhou-se de aplicar, ao monge, a pena que ele, exatamente como o seu subordinado, havia merecido. Perdoou-o, impondo-lhe silêncio a respeito do que havia visto. A seguir, os dois conduziram a moça para fora do mosteiro; e depois, ao que se deve presumir, muitas vezes para ali a fizeram voltar.


BOCCACCIO

Comentários