TRECHOS DE LEITURAS DIÁRIAS - 24/04/2017

- Temos de nos esconder.
Onde? O chalé incendiado e seu jardim descuidado ficavam bem ao lado das margens do Tridente. Havia alguns salgueiros crescendo ao longo do rio, e grupos de caniços nos baixios lamacentos atrás deles, mas a maior parte do terreno ao redor era dolorosamente aberta. Eu sabia que nunca deveríamos ter saído da floresta, pensou ela. Mas tinham tanta fome, e o jardim era uma tentação tão grande. O pão e o queijo que tinham roubado de Harrenhal acabara seis dias antes, quando eles se encontravam no meio da floresta.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Torta Quente partiu, e Arya largou as cenouras e puxou a espada roubada por sobre o ombro. Tinha prendido a bainha nas costas; a espada fora forjada para um adulto, e batia no chão quando ela a usava na cintura. Além disso é pesada demais, pensou, sentindo falta da Agulha, como acontecia sempre que pegava naquela coisa desajeitada. Mas era uma espada, e podia matar com ela, isso bastava.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Tom e Torta Quente reataram a canção do outro lado do riacho, com o pato já preso ao cinto de Limo, por baixo de seu manto amarelo. De algum modo, a canção fez com que os quilômetros parecessem mais curtos. Não demorou realmente muito tempo até a estalagem aparecer à frente deles, erguendo-se da margem do rio até onde o Tridente fazia uma grande curva para o norte. Arya observou-a com suspeita ao se aproximar, de olhos semicerrados. Não parecia um covil de fora da lei, tinha de admitir; aparentava um local amigável, até mesmo acolhedor, com seu andar superior caiado e o telhado de ardósia e a fumaça que saía em preguiçosas espirais da chaminé. Estábulos e outros edifícios secundários rodeavam-na, e havia um vinhedo nos fundos, e macieiras e um pequeno jardim. A estalagem até tinha seu próprio ancoradouro, que se projetava pelo rio, e...

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Sabia que eles eram fora da lei, pensou Arya, escutando. A mão desceu para baixo da mesa e tocou o cabo do punhal, para se assegurar de que ainda estava lá. Se tentarem nos roubar, vão se arrepender.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Arya fez o mesmo. Depois de passar dias bebendo de riachos e poças e, depois, do lamacento Tridente, a cerveja tinha um sabor tão bom quanto os golinhos de vinho que o pai costumava deixá-la beber. Começava a vir da cozinha um cheiro que lhe enchia de água a boca, mas seus pensamentos ainda estavam todos naquele barco. Manejá-lo será mais difícil do que roubá-lo. Se esperarmos até estarem todos dormindo...
O criado voltou a aparecer com grandes pães redondos. Arya partiu um pedaço, esfomeada, e atirou-se nele. Mas era difícil de mastigar, estava espesso e grumoso, e queimado embaixo.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Arya afastou-se da mesa e pôs-se em pé.
- Vocês não são homens do rei coisa nenhuma, são assaltantes!
- Se algum dia tivesse encontrado verdadeiros assaltantes, saberia que eles nunca pagam, nem mesmo em papel. Não é para nós que levamos seus cavalos, filha, é para o bem do reino, para que possamos nos deslocar mais depressa e travar as batalhas que precisavam ser travadas. As batalhas do rei. Negaria isso ao rei?

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

A única resposta de Arya foi estender a mão para a espada, mas antes de tê-la meio desembainhada, Limo agarrou seu pulso.
- Não vamos ter mais nada disso. - Torceu-lhe o braço até que sua mão se abriu. Os dedos dele eram duros, cheios de calos, e terrivelmente fortes. Outra vez!, pensou Arya. Está acontecendo outra vez, como na aldeia, com Chiswyck, Raff e a Montanha que Cavalga. Iam roubar sua espada e voltar a transformá-la num rato. A mão livre fechou-se em volta de sua caneca e brandiu-a contra o rosto do Limo. A cerveja saltou por cima da borda e derramou-se para dentro dos olhos dele, e ela ouviu o nariz do homem quebrar e viu o sangue jorrar. Quando ele soltou um urro, levou as mãos aos rosto, e ela viu-se livre.
- Fujam! - gritou, saltando.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Mas agora Robb voltara do oeste, retornava em triunfo. Ele vai me perdoar, disse Catelyn a si mesma. Ele tem de me perdoar, é meu filho, e Arya e Sansa são tanto do sangue dele como do meu. Ele vai me libertar destes quartos e então saberei o que aconteceu.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Robb encontrava-se de pé sobre o estrado. Já não é um garoto, compreendeu com uma súbita angústia. Tem agora dezesseis anos, é um homem-feito. Olhe para ele. A guerra derreteu toda a suavidade de seu rosto e deixou-o duro e magro. Tinha feito a barba, mas os cabelos ruivos caíam, sem corte, sobre seus ombros. As chuvas recentes tinham enferrujado sua cota de malha e deixado manchas marrons no branco do manto e do sobretudo. Ou talvez as manchas fossem sangue. Na cabeça, trazia a coroa de espadas que tinham fabricado para ele em bronze e ferro. Agora usa-a com mais conforto. Usa-a como um rei.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

- Já chega, Karstark - trovejou Grande-Jon, cruzando-lhe o peito com seus enormes braços. - Foi uma loucura de mãe. As mulheres são assim.
- Uma loucura de mãe? - Lorde Karstark virou-se ameaçadoramente para Lorde Umber. - Eu chamo isso de traição.
- Basta. - Durante apenas um instante, Robb soou mais como Brandon do que como pai. Nenhum homem chama a senhora de Winterfell de traidora ao alcance de meus ouvidos, Lorde Rickard. - Quando se virou para Catelyn, sua voz suavizou-se. - Se pudesse voltar a acorrentar o Regicida com a força do desejo, faria isso. A senhora o libertou sem o meu conhecimento ou consentimento... mas sei que fez por amor. Por Arya e Sansa, e por pesar por Bran e Rickon. Já aprendi que o amor nem sempre é sensato. Pode nos levar a grandes loucuras, mas seguimos nosso coração... até onde quer que nos leve. Não seguimos, mãe?

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Mas antes de poder pensar em interrogar Robb, deu por si rodeada por um círculo de amigos. A Senhora Mormont pegou sua mão e disse:
- Senhora, se Cersei Lannister tivesse em seu poder duas de minhas filhas, eu teria feito o mesmo.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

A donzela avançou por último, e de um modo muito tímido. Robb pegou a mão dela.
- Mãe - disse -, tenho a grande honra de lhe apresentar a Senhora Jeyne Westerling, filha mais velha de Lorde Gawen, e minha... ah... e a senhora minha esposa.
O primeiro pensamento que passou pela cabeça de Catelyn foi: Não, não pode ser, você é só uma criança.
O segundo foi: E, além disso, está prometido a outra.
O terceiro foi: Pela misericórdia da Mãe, Robb, o que você fez? Pegou-me de jeito, como uma lebre numa armadilha. Aparentemente já o perdoei. Uma admiração triste misturou-se com o aborrecimento; a situação fora encenada com uma astúcia digna de um mestre pantomimeiro... ou de um rei. Catelyn não viu outra alternativa exceto pagar as mãos de Jeyne Westerling.
- Tenho uma nova filha - disse, de um modo mais duro do que pretendera. Beijou ambas as faces da garota aterrorizada. - Seja bem-vinda ao nosso salão e lar.
- Obrigada, senhora. Serei uma esposa boa e fiel para Robb, juro. E uma rainha tão sábia quanto for capaz.
Rainha. Sim, esta garotinha bonita é uma rainha, tenho de me lembrar disso. Ela era bonita, inegavelmente, com seus caracóis castanhos e rosto em forma de coração, e aquele sorriso tímido. Esbelta, mas com bons quadris, notou Catelyn. Pelo menos, não deverá encontrar problemas para ter filhos.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

- Devo mandar Vento Cinzento farejar todos os meus cavaleiros? Pode haver outros cujo cheiro não lhe agrade.
- Qualquer homem que não agrade ao Vento Cinzento é um homem que você não quer ter por perto. Esses lobos são mais do que lobos, Robb. Tem de saber que é assim. Julgo que os deuses talvez os tenham mandado até nós. Os deuses de seu pai, os velhos deuses do norte. Cinco crias de lobo, Robb, cinco, para as cinco crianças Stark.
- Seis - disse Robb. - Também havia um lobo para Jon. Fui eu que os encontrei, lembra? Sei quantos havia e de onde vieram. Costumava pensar o mesmo que você, que os lobos eram os nossos guardiães, os nossos protetores, até que...

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Catelyn recordou a corte do Rei Renly, como a vira em Pontamarga. Um milhar de rosas douradas flutuando ao vento, o sorriso recatado e as palavras suaves da Rainha Margaery, o irmão, o Cavaleiro das Flores, com o linho ensaguentado em volta da cabeça. Se tinha de cair nos braços de uma mulher, meu filho, por que não foi nos de Margaery Tyrell? A riqueza e o poderio de Jardim de Cima podiam ter feito toda a diferença nas batalhas que estavam para vir. E talvez Vento Cinzento também tivesse gostado do cheiro dela.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN


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