SOZINHO

ISAAC BASHEVIS SINGER



Muitas vezes, no passado, desejei que o impossível acontecesse. E aconteceu. Mas embora meu desejo se realizasse, foi de um jeito tão confuso que parecia que os Poderes Ocultos estavam tentando me mostrar que eu não entendia minhas próprias necessidades. Foi isso o que ocorreu naquele verão em Miami Beach. Eu estava morando em um grande hotel, cheio de turistas sul-americanos que tinham vindo a Miami para relaxar, além de pessoas como eu que padeciam de febre de feno. Eu estava cheio daquela história toda: mergulhar no mar com aqueles hóspedes barulhentos; ouvir falarem espanhol o dia inteiro; comer refeições pesadas duas vezes por dia. Se eu lia um jornal ou um livro iídiche, os outros me olhavam com surpresa. Então, quando estava dando um passeio um dia, aconteceu de eu levantar a cabeça e dizer alto: “Queria estar sozinho nesse hotel”. Um diabo deve ter me ouvido, porque imediatamente começou a aprontar a armadilha.


Quando desci para o café-da-manhã no dia seguinte, encontrei o saguão do hotel em confusão. Hóspedes parados em pequenos grupos, as vozes mais altas que de costume. Malas empilhadas por toda parte. Atendentes correndo por todo lado empurrando carrinhos cheio de roupas. Perguntei a alguém qual era o problema. “Não ouviu o comunicado no sistema de alto-falante? Fecharam o hotel.” “Por quê?”, perguntei. “Foram à falência.” O homem se afastou, irritado com minha ignorância. Aquilo era uma charada: o hotel ia fechar! No entanto, pelo que eu sabia, estava fazendo um bom dinheiro. E como se pode de repente fechar um hotel com centenas de hóspedes? Mas eu tinha descoberto que na América é melhor não fazer muitas perguntas.

O ar-condicionado há havia sido desligado e o saguão estava mofado. Havia um longa fila de hóspedes no balcão do caixa para pagar as contas. Agitação por toda parte. As pessoas esmagavam seus cigarros no chão de mármore. Crianças arrancavam folhas e flores dos vasos de plantas tropicais. Alguns sul-americanos, que ainda ontem fingiam ser latinos puro-sangue, falavam agora em voz alta em alta em iídiche. Eu tinha muito pouca coisa para embalar, apenas uma mala. Peguei-a e fui em busca de outro hotel. Lá fora, o sol ardente me lembrou da história talmúdica em que Deus, na planície de Manre, tira o sol de seu rumo para que nenhum estranho incomode Abrãao. Eu estava um pouco tonto. Voltavam meus dias de solteiro, quando, despreocupado, eu costumava colocar todos os meus pertences numa mala, ir embora, para cinco minutos depois me encontrar em outro quarto. Passando por um pequeno hotel que parecia um pouco decaído, li a placa: “Preços fora de temporada: a partir de dois dólares por dia”. O que podia ser mais barato? Entrei. Não havia ar-condicionado. Atrás do balcão, uma moça corcunda de olhos negros penetrantes. Perguntei se podia ocupar um quarto.

“O hotel inteiro”, ela respondeu.*“Não tem ninguém aqui?”

“Ninguém.” A moça riu, mostrando uma fileira de dentes quebrados, com grandes falhas entre eles. Falava com sotaque espanhol.

Era de Cuba, em contou. Aluguei um quarto. A corcunda me conduziu até o elevador estreito, que me levou ao terceiro andar. Ali seguimos por um longo corredor escuro, fracamente iluminado por uma única lâmpada. Ela abriu a porta e me fez entrar no quarto, como um prisioneiro em sua cela. A janela, coberta por uma tela antimosquitos, dava para o oceano Atlântico. A tinta estava descascando das paredes e o tapete do chão estava gasto e sem cor. O banheiro cheirava a mofo, o armário a repelente de traças. Os lençóis, embora limpos, estavam úmidos. Desembalei minhas coisas e desci. Era tudo só para mim: a piscina, a praia, o mar. No pátio, havia um grupo de cadeiras de lona em mau estado. O sol batia à minha volta toda. O mar estava amarelo, as ondas baixas e preguiçosas, mal se mexendo, como se estivessem cansadas por causa do calor sufocante. Só de vez em quando, por obrigação, rolavam uns flocos de espuma. Na água, havia uma única gaivota, tentando resolver se pegava um peixe ou não. Ali, diante de mim, encharcada de sol, havia uma melancolia de verão. O que é estranho, porque melancolia sempre sugere outono. A humanidade, ao que parece, tinha perecido em alguma catástrofe e eu fui deixado, como Noé, mas numa arca vazia, sem filhos, sem esposa, sem nenhum animal. Podia ter nadado nu, mas vesti meu calção de banho. A água estava tão morna, o mar parecia uma banheira. Ramos soltos de algas flutuavam nas ondas. No primeiro hotel, a timidez havia me limitado: aqui era a solidão. Quem pode se divertir num mundo vazio? Eu podia nadar um pouco, mas quem me salvaria se alguma coisa desse errado? Os Poderes Ocultos tinham me brindado com um hotel vazio, mas podiam também, da mesma forma, me brindar com uma corrente submarina, um buraco fundo, um tubarão, uma serpente marinha. Quem brinca com o desconhecido tem de ter cuidado em dobro. Depois de algum tempo, sai da água e deitei em uma das cadeiras de lona murchas. Meu corpo estava branco, minha cabeça vazia, e apesar de eu proteger os olhos com óculos escuros, o sol brilhava através deles. O céu azul-claro estava sem nuvens. O ar cheirava a sal, peixe e mangas. Senti que não havia divisão entre o orgânico e o inorgânico. Tudo em volta, cada grão de areia, cada seixo, respirava, crescia, vibrava. Através dos canais celestes que, diz a Cabala, controlam o fluxo da Divina Misericórdia, vinham verdades impossíveis de captar num clima do norte. Eu tinha perdido toda ambição; estava preguiçoso; minhas poucas necessidades eram mesquinhas e materiais: um copo de limonada ou de suco de laranja. Na minha fantasia, uma mulher de olhos ardentes mudava-se para o hotel para passar algumas noites. Eu não tinha dito que queria um hotel só para mim. O diabo entendeu errado, ou fingiu que entendeu errado. Como todas as formas de vida, eu também queria frutificar, queria multiplicar, ou pelo menos praticar os atos para tanto. Estava pronto para esquecer qualquer exigência moral ou estética. Estava pronto para cobrir minha culpa com um lençol e ceder inteiramente, como um cego, ao sentido do toque. Ao mesmo tempo, a eterna questão martelava em minha cabeça: quem está por trás do mundo das aparências? É a Substância com seus Infinitos Atributos? É a Mônada de todas as Mônadas? É o Absoluto, a Vontade Cega, o Inconsciente? Algum tipo de ser superior tinha de estar escondido por trás de todas essas ilusões.

No mar, amarelo oleoso junto à praia, verde vítreo mais para o fundo, uma vela andava sobre a água como um corpo amortalhado. Curvada para a frente, parecia estar tentando chamar alguma coisa das profundezas. No céu, um pequeno avião arrastava um anúncio: RESTAURANTE MARGOLIES — KACHER, 7 PRATOS, $ 1,75. Então a Criação ainda não tinha voltado ao caos primordial. Ainda serviam sopa com kasha e kneidlach, knishes e derma recheado no restaurante Margolies. Nesse caso, talvez amanhã eu recebesse uma carta. Tinham prometido que minha correspondência me seria reencaminhada. Era meu único elo, em Miami, com mundo exterior. Fico sempre surpreso de alguém me escrever, dar-se ao trabalho de selar e postar um envelope. Procuro mensagens codificadas, mesmo no lado em branco do papel.

II.

Como o dia pode ser longo quando a gente está sozinho! Lá um livro e dois jornais, tomei uma xícara de café no bar, batalhei com as palavras cruzadas. Parei em uma loja que fazia leilão de tapetes orientais, entrei em outra onde vendem ações em Wall Street. É verdade, eu estava na avenida Collins, em Miami Beach, mas me sentia como um fantasma, apartado de tudo, entrei na biblioteca e fiz uma pergunta: a bibliotecária ficou assustada. Eu era como um homem que tinha morrido, cujo espaço já havia sido preenchido. Passei por muitos hotéis, cada um com sua decoração e atrações especiais. Os coqueiros coroados por leques de folhas meio murchas, os cocos pendurados como testículos pesados. Tudo parecia imóvel, até os carros novos e brilhantes deslizando no asfalto. Cada objeto prosseguia sua existência com aquela força sem esforço que é, talvez, a essência de todo ser.

Comprei uma revista, mas não consegui ler alem das primeiras linhas. Subi num ônibus, deixei-me levar sem rumo por estradas, ilhas com lagos, ruas ladeadas de mansões. Os moradores, construindo numa área desolada, tinham plantado arvores e plantas floridas de todas as partes do mundo: tinham aterrado as baías rasas ao longo da costa; tinha criado maravilhas arquitetônicas, elaborado complicados esquemas para o prazer. Um hedonismo planejado. Mas o tédio do desespero perdurava. Nenhuma musica ruidosa podia dispersá-lo, nenhuma ostentação eliminá-lo. Passamos por um cacto cujas laminas e espinhos empoeirados haviam produzido uma flor vermelha. Rodamos perto de um lago cercado por grupos de flamingos que arejavam as asas, e a água espelhava seus longos bicos e as penas rosadas. Uma assembléia de pássaros. Patos selvagens voavam em torno, grasnando. O pântano se recusava a ceder.

Olhei pelas janelas abertas do ônibus. Tudo o que eu via era novo, e no entanto parecia velho e gasto: avós com cabelo pintado e faces maquiadas, meninas de biquíni mal lhe cobrindo as vergonhas, rapazes bronzeados bebendo Coca-Cola em esquis aquáticos.

Um velho deitado no deque de um iate, aquecendo suas pernas reumáticas, o peito de pêlos brancos aberto ao sol. Sorrindo amarelo. Ao lado, a amante, a quem ele deixará a fortuna em testamento, mexendo nos dedos dos pés de unhas vermelhas, tão segura de seus encantos quanto que o sol nascerá amanhã. Na popa, um cachorro olhando, altivo, a trilha do iate, bocejando.

Levei um longo tempo para chegar ao fim da fila. Uma vez lá, entrei em outro ônibus. Rodamos perto de um píer onde estavam pesando o peixe recém-pescado. Suas cores estranhas, feridas sangrentas, olhos vidrados, bocas cheias de sangue coagulado e de dentes pontudos, tudo era prova de uma maldade mais funda que um abismo. Homens estripavam os peixes com uma alegria profana. O ônibus passou por uma fazenda de cobras, uma colônia de macacos. Vi casas roídas por cupins e uma lagoa de água salobra em que rastejavam e deslizavam os descendentes da serpente primordial. Papagaios gritavam com vozes estridentes. Às vezes, cheiros estranhos entravam pela janela do ônibus, fedores tão fortes que faziam minha cabeça latejar.

Graças a Deus o dia de verão é mais curto no sul do que no norte. A noite caiu de repente, sem nenhum crepúsculo. Sobre as lagunas e estradas pairava uma escuridão de selva, tão densa que a luz não conseguia penetrá-la. Carros de faróis acesos rodavam. A lua surgiu, excepcionalmente grande e vermelha, pendurada no céu como um globo de geógrafo mostrando um mapa que não era deste mundo. A noite tinha uma aura de milagre, de mudança cósmica. Uma esperança que nunca abandonei despertou em mim: estaria destinado a testemunhar uma revolução no sistema solar? Talvez a Lua estivesse para cair. Talvez a Terra, soltando-se de sua orbita em torno do Sol, fosse vagar por novas constelações.

O ônibus serpenteou por regiões desconhecidas ate voltar para a rua Lincoln, para as lojas de baixo, meio vazias no verão, mas que ainda mantinham em estoque tudo o que um turista rico possa desejar: estola de arminho, gola de chinchila, diamante de doze quilates, desenho original de Picasso. Vendedores-dândis, seguros na consciência de que alem do nirvana pulsa o carma, conversavam entre si em seus ambientes refrigerados. Eu não estava com fome, mesmo assim entrei num restaurante onde uma garçonete de cabeça recém-descolorida, com uma permanente recém-feita, me serviu uma refeição completa, tranquilamente e sem agitações. Dei-lhe meio dólar. Quando saí, estava com dor de estomago e com a cabeça pesada. O ar noturno, aquecido pelo sol, me sufocou. Num prédio próximo, um letreiro de néon piscava a temperatura: trinta e cinco graus e meio e quase a mesma umidade! Eu não precisava de um homem do tempo. Já brilhavam relâmpagos no céu claro, não ouvi trovão. Uma nuvem imensa estava baixando, densa como uma montanha, cheia de fogo e de água. Gotas de chuva esparsas caíram na minha careca. Os coqueiros pareciam petrificados, esperando o abate. Corri de volta para o meu hotel vazio, querendo chegar lá antes da chuva; além disso, esperava que houvesse alguma correspondência para mim. Mas mal percorri metade da distancia e a tempestade desabou. Uma rajada e fiquei encharcado como se por uma grande onda. Uma vara de fogo acendeu o céu e no mesmo momento ouvi troar o trovão, sinal de que o raio caíra perto de mim. Queria correr para dentro de algum lugar, mas cadeiras levadas pelo vento de varandas próximas saltavam na minha frente, impedindo o caminho. Placas de anuncio caíam. O topo de um coqueiro, cortado pelo vento, deslizou perto dos meus pés. Vi um segundo coqueiro enrolado em pano de saco, curvado pelo vento, pronto para cair de joelhos. Em minha confusão, continuei correndo. Afundei em poças tão fundas que quase me afoguei. Corri em frente com a leveza da meninice. O perigo me deixara ousado e eu gritava e cantava, berrando para a tormenta em seu próprio tom. Nessa altura, todo o trafego tinha parado, os carros tinham até sido abandonados. Mas continuei correndo, decidido a escapar daquela loucura ou então ser engolido por ela. Tinha de pegar minha carta de entrega especial, que ninguém escrevera e que nunca recebi.

Ainda não sei como reconheci meu hotel. Entrei no saguão e fiquei imóvel alguns momentos, pingando água no tapete. O espelho do lado oposto refletia minha imagem meio dissolvida como a figura de uma pintura cubista. Consegui chegar ao elevador e subi até o terceiro andar. A porta de meu quarto estava entreaberta: dentro, pernilongos, mariposas, libélulas e mosquitos esvoaçavam e zuniam, abrigando-se da tempestade. O vento havia rasgado a rede contra mosquitos e espalhado os papeis que eu tinha deixado em cima da mesa. Os tapetes estavam encharcados. Caminhei até a janela e olhei o mar. As ondas subiam como montanhas no meio do oceano, vagalhões monstruosos definitivamente prontos a varrer a costa e levar a terra flutuando. As águas rugiam como maldade e borrifavam espuma na escuridão da noite. As ondas latiam para o Criador como uma matilha de cães. Com toda a força que me restava, puxei a janela para baixo e fechei a veneziana. Me agachei para arrumar meus livros e manuscritos. Estava quente. O suor escorria pelo meu corpo, misturando-se aos fios da água da chuva. Tirei as roupas e elas ficaram caídas junto aos meus pés como conchas. Senti-me como uma criatura que acabou de sair de seu casulo.

III.

A tempestade ainda não tinha atingido seu ápice. O vento uivava, batendo e estrondeando como se tivesse martelos poderosos. O hotel parecia um barco flutuando no mar. Alguma coisa se soltou e caiu, o teto, um balcão, parte do alicerce. Barras de ferro se quebraram. O metal gemeu. As janelas se soltaram dos batentes. As venezianas sacudiam. A pesada veneziana da minha janela subiu com tal felicidade que parecia uma cortina. O quarto iluminou-se com o clarão de uma grande conflagração. Veio, então, um trovão tão forte que eu ri de medo. Uma figura branca se materializou no escuro. Meu coração parou, meu cérebro estremeceu em sua caixa. Eu sempre soube que mais cedo ou mais tarde algum deles iria se mostrar a mim corporalmente, cheio de horrores nunca ditos, porque ninguém que o viu jamais sobreviveu para contar a historia. Ali fiquei, em silencio, pronto para o fim.

E ouvi uma voz: “Desculpe, señor, por favor, estou com muito medo. Está dormindo?”. Era a corcunda cubana.

“Não, entre”, respondi.

“Eu tremo. Acho que morro de medo”, disse a mulher. “Um furacão desses não veio nunca. O señor é único no hotel. Por favor, desculpe incômodo.”

“Não está incomodando. Vou acender a luz, mas não estou vestido.”

“Não, não. Não precisa… Estou com medo de ficar sozinha. Por favor, deixe ficar aqui até tempestade passar.”

“Claro. Pode deitar se quiser. Vou sentar na poltrona.”

“Não, eu sento na poltrona. Onde está poltrona, señor? Não vejo.”

Levantei, encontrei a mulher no escuro e levei-a até a poltrona. Ela se arrastou atrás de mim, tremendo. Eu queria ir ao armário, pegar alguma roupa. Mas tropecei na cama e caí em cima dela. Me cobri depressa com o lençol para que a estranha não me visse nu quando o relâmpago brilhasse. Logo depois, caiu outro raio e vi que ela estava na cadeira, uma criatura deformada com uma camisola grande demais, com as costas corcundas, o cabelo despenteado, longos braços peludos e pernas tortas, como um macaco tubercular. Tinha os olhos arregalados, como um animal com medo.

“Não tinha medo”, eu disse. “A tempestade logo passa.”

“Sim, sim.”

Apoiei a cabeça no travesseiro e fiquei imóvel, com a estranha sensação de que o diabo gozador estava atendendo a meu ultimo pedido. Queria um hotel para mim, e o tinha. Havia sonhado com uma mulher chegando ao meu quarto, como Rute chegando para Boaz, e uma mulher havia chegado. Cada vez que o relâmpago brilhava, meus olhos encontravam os dela. Ela me encarava intensamente, em silêncio, como uma bruxa lançando um feitiço. Temi aquela mulher mais do que temia o furacão. Tinha estado em Havana uma vez lá e encontrei as forças das trevas ainda na posse de seus antigos poderes. Nem mesmo os mortos eram deixados em paz: seus ossos eram desenterrados. De noite, lá ouvi uivos de canibais e gritos de donzelas cujo sangue borrifava os altares dos idólatras. Ela vinha de lá. Quis pronunciar uma encantação contra o mau-olhado e rezar aos espíritos que têm a palavra final, para não deixar aquela bruxa me dominar. Alguma coisa dentro de mim gritou: Shaddai, destrua Satã. Enquanto isso, o trovão soou, os mares rugiram e irromperam com uma risada liquida. As paredes de meu quarto ficaram escarlates. No brilho infernal, a bruxa cubana estava agachada como um animal pronto a saltar sobre a presa: boca aberta mostrando dentes podres, pêlo cerrado, negro nos braços e nas pernas, pés cobertos de bolhas e pústulas. A camisola havia escorregado e seus peitos enrugados pendiam sem peso. Só faltava o focinho de porco e o rabo.

Devo ter dormido. Em meu sonho, entrei numa cidade de ruas estreitas, íngremes, de janelas trancadas, sob a luz suja de um eclipse, no silencio de um Sabá Negro. Procissões funerárias católicas seguiam umas depois das outras, incessantemente, com cruzes e caixões, alabarbas e tochas queimando. Não um, mas muitos corpos sendo levados para o cemitério, uma tribo inteira aniquilada. Havia incenso queimando. Vozes gementes gritavam uma canção de profunda tristeza. Repentinamente, os caixões mudaram e assumiram a forma de filactérios, pretos e brilhantes, com nós e corretas. Dividiram-se em muitos compartimentos: caixões para gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos, quíntuplos.

Abri os olhos. Alguém estava sentado em minha cama: a mulher cubana. Começou a falar arrastado em mau inglês.

“Não tenha medo. Não vou machucar. Sou ser humano, não bicho. Quebrei minhas costas. Não nasci deste jeito. Caí da mesa quando era criança. Minha mãe era pobre demais para me levar no médico. Meu pai, ele não prestava, sempre bebendo. Ele vai com mulher vagabunda, e minha mãe trabalha na fábrica de charuto. Ela tosse até acabar pulmão. Por que treme assim? Corcunda não pega. Não vai pegar de mim. Tenho alma igual todo mundo. Tem homem que me deseja. Até meu patrão. Ele confia em mim, me deixa aqui no hotel sozinha. Señor é judeu, não é? Ele é judeu também… da Turquia. Sabe falar… como me diz?… árabe. Ele casa com señora alemã, mas ela é nazista. Primeiro marido dela era nazista. Ela xinga o patrão, tenta envenenar. Ele processa ela, mas juiz fica do lado dela. Acho que ela comprou ele, ou deu alguma outra coisa para ele. O patrão, ele tem de pagar para ela… como que diz?… pensão.”

“Mas por que ele casou com ela?”, perguntei, só para dizer alguma coisa.

“Bom, ele ama ela. Ele é muito homem, sangue forte, entende? O señor já apaixonou?”

“Já.”

“Cadê aseñora? Casou com ela?”

“Não. Mataram.”

“Quem?”

“Os mesmos nazistas.”

“Uhm-hum… e oseñor ficou sozinho?”

“Não, tenho uma esposa.”

“Onde está esposa?”

“Em Nova York.”

“É fiel para ela, ahn?”

“Sou, sou fiel, sim.”

“Sempre?”

“Sempre.”

“Uma vez, para se divertir, tudo bem.”

“Não, minha cara, quero viver minha vida honestamente.”

“Que interessa o que señorfaz? Ninguém vê.”

“Deus vê.”

“Bom, se falar de Deus, vou embora. Mas o señor é mentiroso. Se eu não fosse aleijada, não falava de Deus. Ele castiga mentira assim, porco!”

Ela cuspiu em cima de mim, desceu da cama e bateu a porta ao sair. Me enxuguei imediatamente, mas sua saliva me queimou como se estivesse quente. Senti a testa inchando no escuro e a pele coçando com uma estranha sensação, como se houvesse sanguessugas me chupando o sangue. Entrei no banheiro para me lavar. Molhei uma toalha para fazer uma compressa e enrolei na testa. Tinha esquecido completamente o furacão. Tinha parado sem que eu notasse. Fui dormir e quando acordei era quase meio-dia. Estava com o nariz entupido, a garganta apertada, os joelhos doendo. Meu lábio inferior estava inchado e rachado numa grande poça. Os insetos que haviam entrado para se refugiar na noite anterior estavam pelas paredes, mortos. O céu tinha aquela cor cinza de outono e o mar plúmbeo mal se movia por causa do próprio peso. Consegui me vestir e descer. Por trás do balcão, estava a corcunda, pálida, magra, com os cabelos puxados para trás e um brilho nos olhos negros. Usava uma blusa antiquada, debruada de renda amarela. Lançou-me um olhar zombeteiro. “Vai ter que mudar”, disse. “O patrão telefona e diz para eu trancar o hotel.”

“Tem carta para mim?”

“Não tem carta.”

“Por favor, me dê a conta.”

“Não tem conta.”

A mulher cubana olhou torto para mim, uma bruxa que tinha falhado em seu feitiço, uma parceira silenciosa dos demônios que me cercavam e deus ardilosos truques.

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