PROMETEU, PANDORA E LICÁON

Prometeu e Epimeteu era dois dos filhos do Titã Japeto. A mãe era Climene, uma ninfa do mar. Na Grécia, o nome Prometeu significa “expectativa agradável” e Prometeu era de facto alguém que planeava o futuro. Epimeteu significa "olhar para o passado", mas apesar de Epimeteu ter sido bom a olhar para trás para tudo o que já tinha acontecido, isso não o ajudou na sua época de contrariedades. Na verdade, nenhum destes Titãs conseguiu viver uma vida feliz, fosse qual fosse a direção para onde olhasse.

Após Zeus (Júpiter) e os irmãos e irmãs terem destronado os rebeldes Titãs, os deuses do Olímpo queriam que os seres humanos oferecessem o sacrifício dos seus animais. O povo fazia os sacrifícios considerando os festivais sagrados como uma oportunidade para ingerir grandes quantidades de carne. Os humanos e os deuses procuravam ambos ficar com as melhores partes dos animais sacrificados, a carne e não os ossos. Prometeu foi escolhido para cortar um animal para sacrifício de modo a que Zeus pudesse escolher a metade que mais lhe agradasse, e para decidir, não só essa vez, mas para sempre, quais as porções destinadas ao deus e as que seriam entregues ao povo faminto.

Prometeu sempre quis ajudar a humanidade e talvez tenha pensado que era injusto que os deuses ficassem com toda a carne quando não tinham tido qualquer trabalho. Cortou por isso as carcaças com todo o cuidado e amontoou a carne comestível por baixo da pele, colocando o estômago por cima, pelo que todo o monte tinha um aspecto pouco apetitoso. Fez um outro nome com os ossos cobertos com uma espessa camada da gordura do animal, pelo que a porção parecia pronta para ser cozinhada para uma festa.

Ninguém sabe se Zeus foi enganado pela trapaça de Prometeu ou se ele apenas fingiu pensar que o nome dos ossos e gordura era a melhor escolha do sacrifício. Prometeu era inteligente, mas talvez tenha sido Zeus dessa ver a ver mais além, prevendo uma oportunidade de se vingar do Titã e de toda a humanidade. Seja qual for a verdade, a partir daquele momento, mais nenhum animal foi sacrificado em honra de um deus e apenas ossos e gorduras passaram a arder no altar. Os deuses tem de se contentar com o cheiro doce da gordura quente enquanto os humanos se banqueteiam com a carne.

Quando todas as centelhas se extinguiram em todas as lareiras de toda a terra, eu dei o fogo ao homem e as suas obrigações sacerdotais. A minha recompensa foi a rocha e o abutre.
HENRY WADSWORTH LONGFELLOW (1807-1882), “AVES DE PASSAGEM”

O Roubo do Fogo

Zeus honrou a sua palavra. Ele não podia fazer nada para alterar a sua própria decisão de que a divisão da carcaça feita por Prometeu fixaria as regras para todos os sacrifícios futuros. O rei dos deuses, porém, podia vingar-se tanto dos seres humanos como do Titã que era tão amigo deles, fazendo um novo regulamento. Nenhum ser humano estaria agora autorizado a usar o fogo, o que significava não se poderem aquecer com o lume, não poderem trabalhar os metais na forja e, o mais importante de tudo, não podiam cozer os alimentos. Se aos deuses era negada a possibilidade de cozinhar carne nos seus altares, aos mortais seria negada a possibilidade de terem alimentos cozinhados nas suas mesas.

Prometeu trepou ao Monte Olímpo em segredo e roubou o fogo dos deuses. Alguns dizem que Atena (Minerva) o terá ajudado, visto ela proteger sempre a inteligência e a habilidade. Ele manteve o fogo numa cana oca ou talvez num pé de funcho enquanto descia para o mundo dos mortais. Viajou então por todos os locais onde viviam seres humanos, por quintas, palácios, campos onde os rebanhos tremiam de frio, pelas cozinhas onde os cozinheiros se queixavam. Ele espalhou por todo o lado a dádiva do fogo e não tardou a haver tantos fogos em tantas lareiras que os deuses foram incapazes de os apagar.

Pandora


Eva Prima Pandora (Eva, a Primeira Pandora), de Jean Cousin, o Pai. (ca.1490-ca.1560)

Zeus estava furioso, mas decidiu não usar o raio para se vingar. Em vez disso, resolveu pregar uma partida aos Titãs e a humanidade. Era, porém, cauteloso ao tentar enganar o inteligente Prometeu, embora estivesse muito confiante de que o irmão, pelo menos, poderia ser facilmente enganado por Epitemeu, o que olhava para o passado e não era o mais esperto dos Titãs. Zeus pediu a Hefesto (Vulcano), o deus ferreiro, que fizesse uma bela mulher de barro e que a baptizasse de Pandora (um nome que significa "cheia de todos os dons"). Zeus colocou nos braços de Pandora uma grande caixa que estava fechada e selada e disse ao filho Hermes (Mercúrio) que a entregasse a Epitemeu como noiva, um presente dos deuses.

Prometeu avistou o irmão para ser muito cauteloso com todos os presentes que viessem de Zeus, que não tinha nenhuma razão para ser amistoso. Epitemeu, porém, ao ver como Pandora era bela, decidiu casar com ela. Hermes disse-lhe para ela nunca abrir a caixa e, durante dias e semanas ela tentou não pensar no assunto, mas cada dia que passava se sentia mais curiosa acerca do que estaria dentro. Devia ser alguma coisa muito preciosa, pensava ela, e era injusto por parte dos deuses terem-lhe dado algo e proibi-la de ter esse prazer. Finalmente, ela quebrou os selos e abriu a caixa. De dentro dela saíram todas as doenças, infortúnios e desastres que afligem a humanidade. Pandora tentou fechar a caixa, mas cada vez saíam mais desgraças que cobriram a Terra. A única coisa que ela conseguiu manter lá dentro foi a Esperança.

Uma outra versão da historia de Pandora tenta desculpar o comportamento dos deuses. Se, de facto, a Esperança estava no fundo da caixa, por certo o resto do conteúdo era igualmente encantador. Nesta versão, a caixa estava de facto a abarrotar de coisas boas, as dádivas dos deuses do Olimpo e todas elas, a exceção da Esperança, foram por nós perdidas devido a curiosidade de uma louca.

Esta historia acerca de como o mal chegou ao mundo (ou como o bem se perdeu) devido a loucura de uma mulher é uma reminiscência da história bíblica da tentação de Eva para comer a maçã, o que trouxe a morte ao mundo juntamente com outras calamidades. Alguns teólogos argumentaram que o mito de Pandora é uma imagem fraca da verdade bíblica. Críticos especializados em mitos frequentemente classificam todas as histórias que culpam as mulheres pela introdução do mal no mundo como fruto de uma sociedade patriarcal. Quando os homens detêm o poder, quem melhor que as mulheres para arcar com a culpa do que é mau?


O Castigo de Prometeu


PROMTEU ACORRENTADO, de Nicolas Sebastian Adam (1705-1778)

A humanidade tinha agora sido punida com o conteúdo da caixa de Pandora e o alvo seguinte da vingança de Zeus era Prometeu. O Titã não só tinha desobedecido a Zeus, roubado o fogo para o dar aos homens, como guardava um perigoso segredo. Ele tinha ouvido uma profecia que a deusa Tétis daria à luz um filho que destronaria o pai. Zeus sabia parte da profecia, mas não o nome da deusa. Era atormentado por dúvidas. Muitas das deusas e ninfas tinham sido suas amantes, e talvez uma delas estivesse já grávida do filho que havia de o destronar. Ou seria que a profecia tinha referido uma nova deusa? Ou teria mencionado a sua mulher, Hera (Juno), pelo que tinha também de se manter afastado dela? Prometeu recusou-se a divulgar o nome da deusa, e Zeus decidiu que haveria de lhe tirar o segredo pela tortura. Prometeu foi lançado e aprisionado em Tartaro, onde tantos da família de Zeus tinham sofrido no passado. Prometeu continuou a não falar, pelo que Zeus o trouxe de volta e o acorrentou ao lado do Monte Cáucaso. Todos os dias uma ave enorme voava até a rocha e picava-lhe o fígado, e a sua carne sarava todas as noites. Uns diziam que a ave era um abutre, outros afirmavam que Zeus enviava a sua ave real, a águia, para torturar o Titã.

Prometeu não pôde morrer, nem conseguiu quebrar as correntes e libertar-se. Ele sabia que só seria libertado se outro imortal descesse ao inferno, ao reino da morte, de Hades, de livre vontade. A vida dos humanos foi e veio e lá continuava ele pendurado, ardendo e sangrando ao Sol durante o dia e gelando de noite, até que Héracles (Hércules) encontrou o caminho para o Monte Cáucaso e alvejou a águia. Heracles estava a meio do cumprimento das tarefas que constituíam os seus 12 trabalhos e ele apenas tinha, acidentalmente, alvejado o seu amigo, o sensato Centauro Quíron com uma seta envenenada, deixando uma ferida que não foi possível curar. Quiron estava ansioso por morrer e por ir para o mundo dos mortos em lugar de Prometeu. O Titã podia ter recusado a sua oferta e manter-se em silencio para aumentar o sofrimento de Zeus, mas teve pena da dor sem fim a que o Centauro estava sujeito. "Tétis" - gemeu ele - "é o nome da deusa cujo filho destituirá o pai."

De imediato as correntes que o amarravam se soltaram, e Prometeu ficou livre. Voltou então a ser recebido no Olimpo com a condição de toda a sua inteligência ser posta ao serviço dos deuses e não contra eles. Zeus arranjou rapidamente um casamento entre Tétis e um homem mortal, assegurando-se de que qualquer filho que ela tivesse apenas ultrapassava o seu pai mortal e não punha em perigo o trono do rei dos deuses.


O Banquete de Licáon

Licáon Transforma-se em Lobo, de Bernard Picart (1673-1733)

Logo que os deuses ganharam a guerra com os Titãs, começaram os problemas para as pessoas da Terra. Alguns dizem que os primeiros seres humanos foram criados por Prometeu, e que essa é a razão de serem tão desrespeitosos para com os deuses. Na parte norte da Grécia, na Arcádia, o tirano Licáon recusou-se a adorar os deuses e troçou das pessoas por acreditarem neles. Zeus disfarçou-se de mortal e viajou até à Arcádia para descobrir por si até que ponto Licáon podia ser mau. Quando o rei dos deuses contou aos camponeses e ao povo das cidades que não era um homem mortal mas um deus, eles acreditaram nele e começaram a adorá-lo como ele merecia. Mas Licáon não tinha ouvido o viajante e começou a troçar da credulidade do povo, tendo mesmo chegado a afirmar que iria testar esse charlatão com um teste que não podia falhar.

“Todos sabem que os deuses são imortais” — declarou Licáon. “Só tenho de matar este tipo e todos vocês verão como foram parvos.”

Isto foi dito, evidentemente, sem que Zeus pudesse ouvir, pois planejava penetrar no seu quarto de hospede durante a noite, apanhá-lo de surpresa e apunhalá-lo até à morte.

Esta não era a parte pior do seu plano, já que ele queria que o seu hóspede poluísse a boca e o estomago comendo alimentos proibidos, e o próprio Licáon pretendia festejar com a mesma comida, mergulhar no mal, encenando o mais aberrante dos atos desafiando os deuses.


Ele tinha um preso nas suas masmorras, um refém cuja vida devia ter sido dedicada a ele, mas Licáon não tinha preocupações com o tratamento devido aos reféns. Em vez disso, abriu-lhe a garganta e retalhou o seu corpo, usando umas partes para assar e outras foram cortadas para guisar. Licáon cozinhou a refeição com as próprias mãos e colocou os pratos na mesa com pão acabado de cozer e vinho. Alguns dizem que Licáon matou um bebê e o serviu ao hóspede, em algumas narrativas diz-se que o bêbe era o seu próprio filho. Zeus, indignado, repeliu de imediato a carne para longe da mesa e arremessou o seu raio contra as paredes do palácio. Caíram os tectos, tombaram as paredes, e o palácio foi devorado pelas chamas. Licáon foi suficientemente lesto para escapar ao fogo, mas a vingança de Zeus prosseguiu enquanto ele fugia pelos campos. Enquanto corria, tentava gritar por socorro, mas em vez de saírem palavras humanas, começou a rosnar e a uivar. As suas roupas rasgaram-se e caíram-lhe do corpo ao mesmo tempo que este mudava de forma. Ele já não conseguia correr como um homem e viu-se a deslocar-se a quatro patas, com os braços transformados em patas finas, brotando da sua pele pêlos fortes, as orelhas prolongando-se num focinho. Zeus tinha transformado Licáon num lobo. Contudo, mesmo como lobo, ele continuava a ser o mesmo Licáon sedento de sangue. Continuou a atacar as ovelhas e as cabras da Arcádia, a sua boca babando e os seus olhos iluminados pelo desejo de matar.

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