PERSÉFONE

E eu cantarei 
a desdita de Proserpina 
Numa sepultura e casada 
com o senhor das trevas
OSCAR WILDE (1854-1900)
“O JARDIM DE EROS”


Deméter (Ceres) é uma das deusas da antiga Grécia de que pouco se fala. Era a deusa dos cereais, em especial das colheitas, e era responsável pela fertilidade do mundo.

A filha de Deméter e Zeus (Júpiter) foi dado o nome de Perséfone (Proserpina) e ao crescer tornou-se numa bela donzela que gostava de colher flores — apesar de ela suplantar em beleza todas as flores. Os gregos consideravam-na como a perfeição em forma de rapariga e ela é por vezes chamada simplesmente de Kore, que significa donzela. Um dia, estava ela a apanhar flores, uns dizem em Creta, ou nos campos da Sicília, perto de Enna, quando o cavalo preto de Hades (Plutão), o deus do mundo dos mortos, irrompeu do chão puxando o carro no qual se podia ver o próprio Hades de pé. Ele tinha decidido que Perséfone havia de ser a sua rainha e, sem dizer uma palavra, puxou-a para dentro do carro e, sem dizer uma palavra, puxou-a para dentro do carro e apressou os cavalos para que descessem de novo para as profundezas da terra, para o mundo dos mortos. Alguns dizem que Hades tinha sido ferido pelas flechas do malévolo Eros (Cupido) filho da dourada Afrodite (Vênus), procurando colocar todos os deuses do Olimpo sob o controlo da mãe e dele próprio.


Ninguém podia dizer a Démeter onde tinha desaparecido a filha — ninguém, quer dizer, não havia quem estivesse preparado para lhe dizer Zeus que vê tudo, sabia bem o que tinha acontecido, mas, apesar de Perséfone ser sua filha, não fez nada para a ajudar. É que Zeus não queria ofender o irmão, que já estava suficientemente zangado com ele. Hades ficou sempre ressentido da divisão do mundo entre os três irmãos: Zeus, Posídon e ele próprio. Depois de Crono (Saturno) ser destronado, Posídon (Neptuno) ficou com o reino dos mares e Zeus era o senhor de todo mundo, enquanto que Hades tinha de viver debaixo da terra e os súditos eram os mortos. Se Zeus fizesse um decreto exigindo que Perséfone fosse devolvida à sua desolada mãe, o ressentimento de Hades poderia tornar-se numa fúria incontrolável.

As viagens errantes de Deméter


Deméter percorreu o mundo em busca da ilha desaparecida. Enquanto fazia as suas buscas, ela descorava os seus deveres de deusa das colheitas e da fertilidade. Os cereais faltavam. O povo começava a ter fome. Deixou de haver nascimentos em todo o mundo, quer fossem aves ou peixes, insetos, animais ou seres humanos. Cada vez eram menos as pessoas que iam aos templos para adorar os deuses e eram cada vez menos os animais sacrificados aos deuses. Talvez tivesse sido a diminuição do número de sacrifícios que finalmente forçou Zeus a ajudar Deméter, tal como o sofrimento dos seres humanos que imploravam pela ajuda dos deuses do Olimpo. Mas antes de Zeus estar pronto para dizer a Deméter que a filha era agora a rainha do mundo dos mortos, antes das colheitas terem cessado completamente, antes dos gritos do povo pelos deuses se tornar tão alto que alguém tinha de ouvi-lo, Deméter achou o caminho para o reino do Rei Céleo, no Eléusis. Tinha acabado de nascer o príncipe Demofonte e ela foi admitida como ama. Ninguém reconheceu a mulher que chorava pela filha desaparecida como a grande deusa Deméter. Todas as noites, secretamente, ela ia tocar na pele do bebê com abrósia, a comida dos deuses, e depois colocava-o por uns instantes no meio do fogo. Quando ela o retirava, ele encontrava-se incólume. Um dia, uma serva assustada contou à rainha que a ama andava a torturar o bebê. Na noite seguinte, a rainha precipitou-se para a cozinha e encontrou a ama pondo calmamente o bebê no fogo. A pobre mãe desatou aos gritos e puxou-a para fora, mas as chamas não o tinham ferido. Ele parecia até brilhar de boa saúde. Deméter suspirou pela estupidez dos seres humanos. Revelou então ser uma deusa e explicou que se a tivessem deixado em paz, teria dado ao bebê o dom da imortalidade nas chamas.


O regresso de Perséfone

Deméter continuou a sua caminhada errante, em busca da filha. Agora já não havia cereais e todos os seres sofriam com a deusa. Começou a parecer que todo o mundo ia morrer. Finalmente Zeus decidiu que o sofrimento de Deméter tinha de terminar e que a filha tinha de regressar, ou todos os vivos da Terra pereceriam e os deuses não receberiam mais sacrifícios de doces odores. Relutantemente, enviou o mensageiro dos deuses, Hermes (Mercúrio), contar a Deméter como a terra se tinha aberto e os cavalos pretos e o carro de Hades tinham emergido, como o deus o tinha conduzido pelo campo, como ele se afastara do seu assento e pusera o seu enorme braço à volta da cintura da donzela e a puxara para ele. Os cavalos tinham voltado a mergulhar nas trevas, o carro, Hades e Perséfone tudo desapareceu na terra, que tornou a fechar-se atrás deles. Foi por esta razão que Deméter não encontrou quaisquer vestígios da filha sobre a terra.

Hermes prometeu a Deméter que a filha regressaria para dar brilho ao mundo dos vivos, para sentir o Sol e desfrutar do ar fresco, se Deméter concordasse em voltar a olhar pelas cearas e permitisse que nascesse vida nova sobre a Terra. E ele acrescentou, como reflexão posterior, que Perséfone podia, evidentemente, ser livre, desde que não tivesse comido nada do mundo dos mortos.

Hermes é um deus impostor e talvez ele já soubesse perfeitamente que Perséfone tinha comido dos alimentos do mundo dos mortos. Afinal, tinham passado semanas e meses desde que ela tinha desaparecido, e até mesmo os deuses necessitam comer de vez em quando. Séculos mais tarde, nas histórias medievais, encontra-se muitas vezes o aviso de que se alguém for raptado pelas fadas, não deverá comer nem beber nada, por mais requintada que seja a festa e por mais fome e sede que se tenha, pois só o fato de provar impedira os seres humanos de alguma vez poderem regressarem ao mundo dos mortais. Perséfone não comeu muito — apenas uns grãos de romã — mas isso seria suficiente para mantê-la no mundo dos mortos do tio e noivo, Hades.

Zeus confrontava-se com um problema. Por um lado, tinha de devolver Perséfone à mãe, ou o resto do mundo chegaria ao fim por não haver colheitas, nem as mães terem voltado a dar à luz. Por outro lado, precisava de apaziguar o irmão Hades, que já se achava que todos os outros deuses tinham prazeres que ele jamais poderia desfrutar. Zeus decretou então que Perséfone podia voltar para a mãe, a fim de que os cereais pudessem ser de novo colhidos, para que os bebês voltassem a nascer e continuasse a haver pessoas no mundo para oferecer os sacrifícios aos deuses. Mas Perséfone teria de regressar todos os anos ao reino de Hades, por tantos meses quanto os grãos de romã que ela tinha comido.


Rapto e renovação

Recordar-me onde estava 
Proserpina e a fazer o que 
naquele momento em que a mãe 
a perdeu, e ela perdeu a Primavera.
DANTE ALIGHIERI (1265-1321) A DIVINA COMÉDIA
“PURGATÓRIO”, CANTO XXVIII


A quantidade de grãos de romã varia nas várias narrativas da história de Perséfone. Por vezes são três, ou quatro, ou até seis. Isto reflete o clima da região onde a história está a ser contada, e do tamanho da estação de crescimento nesse local, e isto por que a história de Perséfone é um mito que explica a existência das estações do ano e como os cereais brotam do solo, após um período em cada ano, em que nada parece crescer. Nas regiões do norte, o mito de Perséfone é uma explicação para o Inverno. Quando ela desce ao reino de Hades, chega o Inverno, e quando ela regressa, com ela volta a Primavera. A história de Perséfone é normalmente entendida como explicando as estações do Inverno e da Primavera, mas nos climas mais quentes, é no Verão abrasador que nada se desenvolve. Nestas zonas, o mito conta a quem o ouve sobre o fim da estação quente e o regresso dos meses frescos, durante os quais tudo renasce. Onde o Inverno gelado ou o Verão abrasador são curtos, diz-se que Perséfone comeu apenas muitos poucos grãos de romã, onde os meses rigorosos são longos, diz-se que ela comeu mais sementes.

Este é, portanto, um mito etiológico, um desses mitos que dão uma resposta a uma questão que deixou perplexa a ciência da época — qual a razão para existirem estações do ano, e porque é que há épocas do ano em que nada cresce? Perséfone é uma parente afastada da deusa Inanna, que também descia ao mundo dos mortos e regressava. Inanna era uma deusa de vontade forte que sabia muito bem cuidar dela. Perséfone, em contrapartida, era como que uma vítima, que precisava ser salva pela mãe, mas que não sabia como ajudar a filha a não ser ameaçando todo o mundo de extinção, deixando de cumprir as suas obrigações de deusa dos cereais e da fertilidade. 

Seria assim tão simples? Perséfone foi realmente uma vítima de rapto, tal como tantos poetas e pintores a representavam? Nalguns mitos menos conhecidos, Perséfone parece estar bastante feliz por ser a rainha do mundo dos mortos e disposta a defendê-lo de invasores. Quando dois heróis mortos, Teseu e o amigo Pirítoo beberam demais e se desafiaram um ao outro para descerem ao mundo dos mortos e trazer de volta Perséfone como troféu, ela decidiu armar-lhes uma cilada, com uma mesa posta com boa comida e vinho tentador, e dois tronos dourados. Teseu e Pirítoo não tinham seguramente aprendido da história de Perséfone e dos grãos de romã, visto que se sentarem nos assentos dourados e trataram de saborear a comida e a bebida. De repente, sentiram que estavam presos aos assentos. Teseu foi finalmente salvo por Héracles (Hércules), quando este desceu ao reino de Hades em busca do cão das três cabeças Cérbero. Héracles arrancou-o do trono, mas grande parte da pele ficou lá. Nem Hades nem Perséfone puderam fazer fosse o que fosse para evitar que Héracles, filho de Zeus, pegasse em Cérbero ou em Teseu, mas, pelo menos, a rainha de Hades teve a satisfação de manter Pirítoo preso à cadeira dourada para sempre.

Talvez por isso Perséfone não fosse assim uma noiva tão sem vontade. A arte européia ilustrou-a como a vítima, apanhada de surpresa, arrastada para um reino de trevas cheio de horrores; mas também é possível que ela tenha ido para amar o seu novo marido, o seu novo reino de morte e os seus novos poderes. No entanto, em cada nova estação de crescimento, ela volta à mãe, mas talvez não tenha pena de descer de novo para o seu reino, para o seu marido e para as suas trevas. Afinal, é da escuridão que a nova vida brota na Primavera, do escuro do solo que os bolbos lançam os seus rebentos verdes e do útero escondido que os bebês abrem caminho. A história de Perséfone é normalmente contada do ponto de vista da mãe desesperada, Deméter, mas que diria Perséfone?

OS MISTÉRIOS DE ELEUSÍNIOS


Os mistérios de Eleusínios são um dos segredos melhor guardados da Grécia antiga. Deméter (Ceres) encontrou bondade quando os seus passos errantes a levaram até Elêusis, onde foi contratada como ama do príncipe, e quando recuperou a filha, e em agradecimento ao povo de Elêuis, que lhe tinha dado comida e refúgio, disse-lhes como pretendia ser venerada. Ninguém sabe ao certo tudo o que acontecia nos rituais Eleusínios, mas eram baseados na história da descida de Perséfone (Proserpina) ao mundo dos mortos e no seu retorno anual ao mundo dos vivos. Os mistérios ofereciam a promessa de uma nova vida o que é muito mais apelativo que o reino escuro de Hades (Plutão) onde os mortos simplesmente resistiam e existiam, ou mesmo sofriam pelos pecados que tinham cometido durante a sua existência. Esta vida prometida depois da morte não estava ao alcance de todos, mas somente dos que eram iniciados nos mistérios. Durante séculos, os mistérios continuaram a ser celebrados e durante todo esse tempo ninguém fez mais que sugestões sobre o que realmente acontecia.

Comentários