ORÁCULOS

A palavra oráculos significa tanto o que os deuses dizem como onde é dito. Um oráculo na mitologia grega pode ser uma profecia, ou um lugar sagrado onde as pessoas vão para pedir conselho aos deuses. Tais profecias deram forma a muitas das histórias dos mitos gregos, visto que tanto os deuses como os homens queriam saber o futuro. Quando um oráculo previa um desastre, deuses e homens tomavam medidas para evitar esse futuro indesejável. Os oráculos eram quase infalíveis e, aos que tentavam afastar as suas palavras proféticas, muito frequentemente acontecia-lhes o que procuravam evitar. Édipo e os pais, por exemplo, procederam de modo a que, aparentemente, o oráculo não fosse concretizado, mas essas ações conduziram exatamente ao destino previsto pelo oráculo Zeus (Júpiter) teve mais sucesso a evitar aqueles oráculos que profetizavam que o filho iria destronar, mas a que custos! No caso de Métis, comeu a parceira sexual para evitar que lhe desse um filho, e no caso de Tétis não satisfez o seu desejo por ela e casou-a com outra pessoa. A forma usada por Zeus para evitar a profecia no que respeita a Tétis foi inteligente, contudo, o oráculo não deixou de se cumprir quando o filho dela destronou o pai mortal, o sucesso do deus ao contraria a profecia de Métis é muito mais invulgar. Este é um exemplo raro de um oráculo que não se cumpriu. Em geral, embora os oráculos fossem afirmados em nome de muitos dos deuses gregos, o que eles realmente estipulavam eram as ordens de Parcas, e estas eram forças antigas que reinavam mesmo sobre os deuses.

Os oráculos não eram apenas comuns dos mitos, mas um fato da vida na Grécia e Roma Antiga. As pessoas foram aos oráculos e ai consultaram os deuses durante mais de 1.000 anos. Existem registros arqueológicos de muitas oferendas feitas por clientes agradecidos, e um visitante romano fala em 3.000 estátuas em Delfos, todas elas dadas em cumprimento de promessas feitas ao oráculo ao longo dos séculos. As profecias dos oráculos devem ter sido úteis e exatas em suficientes ocasiões para as pessoas terem continuado a voltar para pedir outros conselhos. Os governantes das cidades-estado da Grécia consultavam um oráculo quando tinham de tomar decisões importantes como se deveriam fazer uma guerra, com quem seria aconselhável aliarem-se, ou onde encontrar uma nova colônia. Julga-se que pelo menos um imperador romano consultou um oráculo grego.

Tanto nos mitos como na vida quotidiana, os oráculos eram conhecidos pela sua ambiguidade. O oráculo dado a Deucalião e Pirra, por exemplo, dizia-lhes para lançarem os ossos da mãe para trás das coisas, uma ordem que afinal referias as pedras como ossos da Terra Mãe, em vez do sentido literal dos ossos de uma mãe humana que tinha morrido. A Héracles foi dito que ele só podia ser assassinado por um morto, uma condição que parecia impossível até ser envenenado pelo sangue de um inimigo há muito morto. Os cínicos argumentam que os oráculos eram deliberadamente expressos numa linguagem ambígua, de modo a ser possível dar outra interpretação as palavras para que correspondessem a um de vários futuros. Se alguém perguntava: "Quem é que vai ganhar a guerra? O oráculo podia responder simbolicamente ou construir a resposta de tal modo que ambas as partes podiam afirmar que eram a favorecida na batalha. Depois, fosse qual fosse o lado vencedor, o oráculo podia reclamar o conhecimento antecipado do seu sucesso. O primeiro historiador grego, Heródoto, conta a visita do rei Creso ao oráculo de Delfos, onde foi perguntar se devia fazer uma guerra contra os persas. O oráculo respondeu que se ele atravessasse o rio Halis, um poderoso império se perderia, e Creso interpretou a resposta como profetizando o seu sucesso. Quando foi derrotado, o oráculo foi reinterpretado e considerado como prevendo a perda do seu próprio império. Muitas das outras evidências históricas (diferentes das evidências mitológicas), porém, são muito menos traiçoeiras, como no caso do oráculo aconselhar a forma de homenagear os deuses ou se recomenda que seja decretada uma nova lei.

Como é que se Expressam os Deuses


Os mais famosos oráculos gregos eram os de Zeus em Dodona  e de Apolo em Delfos. Em Dodona, no norte da Grécia, as palavras de Zeus eram ouvidas no sussurro das folhas de um carvalho sagrado. Os sacerdotes e as sacerdotisas do templo faziam a interpretação dos sussurros ao requerente. Originalmente, havia três sacerdotisas que dormiam no chão e andavam descalças sem nunca lavar os pés, para assim manterem um contato tão próximo quanto possível da forma de vida do carvalho. Mais tarde, no decorrer da história dos oráculos, passou a haver sacerdotes e sacerdotisas, e todos eles andavam, igualmente, descalços e dormiam no chão. As profecias também eram obtidas neste oráculo por lançamento da sorte, pelo cantar dos pássaros e através de uma cerimônia complicada envolvendo um caldeirão e uma estátua. A estátua de um rapaz segurava um chicote com três correntes que se podia mover se o vento soprasse sobre ele. Quando se movia, a parte de baixo das correntes batia no caldeirão fazendo um som que era tido como o veículo das palavras do rei dos deuses.

O Oráculo em Dodona

O oráculo em Dodona, segundo o mito, foi estabelecido quando dois pombos pretos voaram da cidade egípcia de Tebas, onde já havia um templo de Zeus. Um dos pombos foi para Ammon, na Líbia, e o outro para Dodona. Ao chegarem, começaram ambos a falar com as palavras dos homens, ordenando às pessoas que estabelecessem um oráculo a Zeus naquele lugar. O historiador grego Heródoto interpreta esta narrativa enquanto refletindo uma verdade história, de que uma mulher egípcia foi capturada e vendida como escrava em Ammon e outra em Dodona, e que estas mulheres eram sacerdotisas do templo de Zeus, em Tebas, que eventualmente fixaram oráculos semelhantes em Amom e em Dodona. Elas foram representadas no mito como pombos, porque os gregos não podiam compreender a sua língua e consideraram que soava como pássaros.


O Oráculo de Apolo em Delfos


A Sibilia, de Domenico Zampieri Domenichino (1581-1641)

O oráculo de Apolo, em Delfos, era o maior dos oráculos gregos e as suas edificações ainda podem ser visitadas no Monte Parnaso. Estes edifícios são os mais recentes de uma série de templos, cada um substituindo o anterior após a sua destruição por um tremor de terra. Continua a existir no tempo uma pedra enorme, conhecida como a pedra Ônfala, o umbigo do mundo. Apolo fundou o oráculo de Delfos, mas a sua luta com o gigante, a serpente Piton, no Monte Parnaso, tem também sido interpretada como uma narrativa alegórica sobre a raça invasora dos gregos dorianos, conquistadores do velho oráculo Pítico, que substituíram as suas divindades femininas pelo machos do Olimpo. Eram sempre as mulheres que ouviam a voz de deus e cada uma delas era chama de Pítia. Algumas narrativas aparentemente históricas do oráculo não são nada excitantes, como a Pítia do momento comportando-se como uma profissional, transmitindo calmamente a mensagem de deus. Mais empolgantes são as descrições de que a Pítia estava sentada sobre uma fenda ou uma gruta, uma abertura no chão do templo, mascando folhas de louro e inalando gases vulcânicos do Monte Parnaso. Nestas versões, era durante um transe profético que ela dizia palavras que lhe tinham sido transmitidas pelo deus. Essas palavras soavam como um balbuciar incoerente, e era tarefa do sacerdote interpretar e transmitir a mensagem ao requerente. Atualmente, não há qualquer vestígio de uma gruta que emitisse gases vulcânicos nas colinas de Monte Parnaso, mas esta é uma zona da Grécia geologicamente ativa e não é impossível que tal gruta tenha existido mas que tenha sido destruída por um dos terremotos que se verificaram nesta região.

Enquanto a Pítia só existia em Delfos, as Síbilas eram mulheres profetas que transmitiam as palavras de Apolo em muitas regiões do mundo, incluindo a Babilônia, o Egito e a Líbia. À Sibila de Cumas foi dado o dom de uma longa vida ao lado de Apolo quando ela concordou tornar-se sua amante. Ela agarrou uma mão cheia de areia e pediu aos deus tantos anos de vida quantos os grãos de areia que tinha nas mãos. Mas, tal como o amante de Eros, Títono, ela esqueceu-se de pedir igualmente uma longa juventude. Ela foi ficando engelhada com a idade até se tornar tão fiininha que era guardada numa garrafa. E ali ela permanecia suspirando, uma e outra vez, pedindo a morte que deus lhe negou.

Era vulgar os profetas serem desacreditados, gozados ou insultados pelas mensagens que traziam dos deuses. O adivinho cego, Tirésias, transmitiu a indesejada verdade dos deuses a Édipo e Creonte e o seu destino foi ser ignorado ou acusado de conspiração, em vez de o respeitarem e acreditarem nele. A profetisa Cassandra de Tróia ouviu diretamente de Apolo o que iria suceder à sua cidade e a si mesma no futuro, mas o seu destino era nunca ser levada a sério. Nos mitos gregos, os profetas dizem a verdade, mas as suas palavras raramente tem um final feliz. Em muitas ocasiões, o deus apareceu diretamente ao ser humano e falou-lhe em palavras claras dando-lhe conselhos ou ordens, mas o mais vulgar é o deus surgir disfarçado, como um estranho, um conhecido, um parente ou um amigo. 

Ninguém pode nunca estar absolutamente certo de que o estranho, com que se cruzou, era realmente apenas um ser humano, e não um deus a sujeitá-lo a um teste, como temíveis castigos caso falhasse. A grande reverência dada aos hóspedes na mitologia grega deve-se a essa hipótese de um deus ser ofendido em qualquer local onde um estranho seja maltratado. Alguns deuses enviam mensagens em sonhos e é necessário ter uma grande capacidade para determinar quais os sonhos falsos e quais os que expressam uma verdade divina. Outros deuses enviam prodígios na forma de pássaros em voo. Por vezes, as entranhas dos animais sacrificados representavam uma profecia, outras vezes eram os adivinhos que previam o futuro em taças com água, uma habilidade conhecida como visão na bola de cristal. Em Pharae o conselho do oráculo de Hermes (Mercúrio) foi transmitido nas primeiras palavras que o requerente ouviu enquanto saía da praça do mercado (um local apropriado para pedir ajuda a Hermes, deus dos comerciantes). A fúria de Zeus manifestava-se através do mau tempo. Quando a trovoada ribombava, o seu descontentamento era evidente.

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