MORREU O VALETE DE COPOS

JOÃO ANTÔNIO



Morreu Esdras Passaes. O duende morreu.

Morreu o homem que sabia ouvir a música dos copos. Morreu um homem que quando começaram a demolir a Lapa, escreveu que todo cidadão que se prezasse, a partir daquele momento, estaria fora do tempo e do espaço, desde que estivesse no Rio. Morreu o nosso amigo, aquele que gostava de tango, era compadre de Nelson Cavaquinho, tratava marafona como princesa e havia consumido quase tudo de Francis Scott Fitzgerald. Matou-se de viver e de beber o criador pouco badalado de uma heroína da Lapa, a Ritinha Maconha dos miserês e dos gatos da Cinelândia, malhados, pardos ou quizilentos.
A alma de cristal acabou de solitédio. Primo de Tolouse-Lautre, contraparente de Leon Tolstói, personagem póstumo de Scott Fitzgerald e discípulo do xerife do cinema-novo Décio Vieira Otoni, não é do meu conhecimento o que constou em seu atestado de óbito. Mas a causa mortis pode ter sido, sentidamente, uma só  a alma de cristal.

Esdras Passaes bateu com as dez, apagou a vela, fechou o paletó, foi pra chácara dos pés juntos, apitou. E aqui de onde escrevo, nesta cidade de trezentos mil habitantes e só quarenta anos de vida, eu faço pavana para um bêbado morto. É uma espécie, a meu jeito e gosto, de ditirambo, para que a dor de toda a minha geração não seja mais a dor inútil de toda uma geração de calados à força, de engenharia e manipulados pelos patrões, de artistas de seu próprio sofrimento. A geração dos feios e malditos.

Não deixou obra completa, nem nada. Mas teve uma grande briga em vela: era um homem de Ipanema e da Lapa ao mesmo tempo. E, entendamos, um sujeito nessas condições não pode ser um homem bem-comportado e direitinho neste planeta. Muita vez, bebeu até os sapatos.

Escrevo de Londrina, Norte do Paraná, cidade desconcertante, eu desconcertado, 90 por cento são forasteiros, pingentes da vida e o mais bobo já aprendeu a acender cigarro no relâmpago, que a terra não perdoa  sua poeira ou lama fica impregnada, entranhada na roupa, na pele e na alma. Uma terra roxa ou barrenta, terra de siena, que se intromete em tudo porque ninguém vem ao Norte do Paraná impunemente.

Esdras Passaes, professor de solidão (e não de solitude, o que já seria fricote deste aqui), jornalista e pingente urbano, cujo grande sinal particular foi o de ferro cavalheiro, entenderia essa coisa tangencial que empurra o forasteiro para a frente.

Nosso Esdras Passaes, cavaleiro da noite, amigo dos oprimidos, solidário dos marafonas, merduncho entre merduncho, apelidado Paçoca, dono dessa grandeza paradoxal dos homens de uma época de transição - gostava de tangos, baixelas e pratarias e ainda de uma carne-seca com jerimum no Beco da Fome.

Aos que não o conheceram em vida, dou em homenagem ao falecido que morreu de viver uma antologia precária de seus mais fecundos comportamentos:

De 1 a 20  inteligência. Acompanhada de absoluta falta de juízo. Sempre.

21  foi um homem na medida dos personagens de Lima Barreto. Vivia numa reserva de sonho. Assim, todos ganharam dinheiro e glória com a sua produção. Menos ele.

22  tinha a grandeza de entender que noticiar os bang-bangs com dignidade tem tanta importância que falar do último congresso em reunião da Casa Branca.

23  seu horror à mediocridade era conhecido. Costumava dizer: Que é isso, amigo? Todos tem altos e baixos, mas o senhor só da baixaria.

24  usava cigarro na cigarreira, bebia por cem e cometia uma loucura extrema: virava quadros de cabeça para baixo.

25  em seus textos (ah, a magia de tanta economia e até magreza vocabular que sempre desnorteava os desavisados) nunca escreveu a palavra noite com letra minúscula. Escrevia sem gaguejar.

26  era amigo pessoal de Ringo, o que não perdoa, mata; era concorrente de si mesmo, pois consumia muito antes da onda chegar e se identificava de um modo estranho. F. Scott Fitzgerald dizia: Muito prazer. Meu nome é Dostoievski. Esdras Passaes dizia: Muito prazer. Meu nome é Francis Scott Fitzgerald. Eu escrevi Belos e Malditos, Suave É a Noite e A Decorrada. O senhor já leu?

27  usava relógio de bolso, patacão que vivia parado. Encostava o ouvido na boca dos copos e revelava: Ouçam, que música!

28  gostaria de escrever um romance. Os Últimos Dias da Lapa, não escreveu. Gostaria de escrever outro romance. Os Trombadinhos, não escreveu. Adoraria escrever ainda outro. Os Alegres Rapazes da Imprensa Carioca, não escreveu. Queria ir a Paris, Buenos Aires e ao Caribe, mas viveu de Lapa em Lapa. E correu tudo isso num corpo a corpo com a vida.

29  aos chatos e bem-comportados, tirava palavra e dava destino final: Continuando assim, amigo, o senhor vai morrer com um câncer na próstata, velho e casado com uma mulher gorda e enfadonha como a Prascóvia Fiodorovna do Ivan Ilich.

30  alertava aos menos acordados que todo homem tem de ter uma diferença na vida. E era preciso passar isso a limpo.

31  anti-herói, foi um herói: afinal, foi ele quem marcou o momento de sua morte.

Só não disse que esta vida marota não faz graça nem dá talento de graça a ninguém. Quase sempre, cobra alto. Afinal, quem julgar que este mundo é fácil entrou no planeta errado.

Nos últimos quinze anos, lutou-se inultimente para que Esdras Passaes não se matasse de beber. Mas a força maior ganhou, como sempre. Afinal, in vinho veritas.

Nos últimos quinze anos, lutou-se inultimente para que Esdras Passaes não se matasse de beber. Mas a força maior ganhou, como sempre. Afinal, in vino veritas.

Nos últimos quinze anos também pedi a alguma consciência cósmica deste ou de outro mundo que não precisasse carregar a alça de seu caixão no dia de seu enterro. Essa última briga nem travei. Ganhei só por acaso.

Descansa, Esdras. Dorme, cara. O porte acabou.

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