HISTÓRIA DE AFRODITE

Afrodite (Vênus), a deusa do desejo sexual, nasceu da espuma do mar. Saiu de uma concha e a primeira vez que pôs um pé em terra foi em Chipre ou na ilha de Cítera. Por vezes, era homenageada como a deusa o afeto ordeiro e da comunidade como Héstia (Vesta), deusa do lar, ou Hera (Juno), deusa do casamento, mas o amor que ela inspirou era muito mais frequentemente urgente e não reprimido, estando para lá da razão e do senso comum. Ela era a deusa da paixão e da obsessão sexual, do desejo que leva quem dele sofre a sacrificar tudo para conseguir obter o amado, mas quando ela é olhada como a deusa que nasceu no mar, os marinheiros imploram-lhe para acalmar as águas e permitir uma passagem segura. Tal como a maior parte dos outros deuses do Olimpo, Afrodite era uma combinação de opostos, mas as histórias mais conhecidas acerca de Afrodite todas focam a paixão sem controle.


Afrodite e Hermes, de Filipepi Botticelli (1445-1510)
Alguns disseram que Afrodite era originalmente uma deusa do Médio Oriente, semelhante à Ishtar, da Mesopotâmia, a deusa do amor e da fertilidade, e à deusa Siro-Palestiniana Ashtart.



Afrodite e Ares

O deus da guerra, Ares (Marte) era filho de Zeus (Júpiter) e Hera, e normalmente encontra-se no campo de batalha. Não eram muitos os deuses do Olimpo a apreciaram a sua companhia, visto que ele tinha um temperamento feroz e considerava que a violência era uma boa resposta a muitos problemas. Um dos deuses do Olimpo, porém, não só gostava dele como tinha uma relação apaixonada por ele. Afrodite tinha tanta capacidade como Ares de se deixar arrastar pelas suas paixões, sem se preocupar com o marido Hefesto (Vulcano). Ela até conseguiu convencer Hefesto de que era o pai dos seus quatro filhos, Fobos (que significa "temor" em grego), Demo (que significa "terror"). Eros (Cupido), o deus do amor, e Harmonia, a harmoniosa; mas na verdade eram os filhos dos seus amores com Ares.

Numa manhã em que Afrodite tinha visitado o palácio de Ares, passado lá a noite e ficado demasiado tempo na cama dele, o deus do sol apercebeu-se deles juntos e apressou-se a ir contar a Hefesto. Este normalmente falava pouco, mas ficou tão furioso com a notícia que fez saber a todos os deuses do Olimpo que planejava vingar-se. Durante todo o dia martelou numa rede de bronze, cujas malhas eram tão finas que podiam rodear qualquer presa mas suficientemente fortes para não quebrarem. Quando Afrodite regressou ao palácio que partilhava com Hefesto, ele fingiu que ia para a ilha de Lemmos, mas não passou dos estábulos do palácio. Ai se escondeu, enquanto Afrodite mandava dizer ao amante que ele poderia vir, em segurança, passar a noite com ela no leito matrimonial. Ares chegou e saltou para a cama com a deusa, mas logo se deitaram, a rede de bronze caiu sobre eles. Não podia escapar, por mais que se virassem e revirassem.

Hefesto chamou todos os outros deuses para virem e verem o peixe fino que ele tinha pescado com a nova rede. As deusas mantiveram-se afastadas, enquanto os deuses se acotovelavam, rindo. Em vez de se solidarizarem com o marido enganado, continuaram a dizer a Ares que deus com sorte ele era e a perguntar-lhe se queria trocar de lugar com eles. Posídon (Netuno) convenceu Hefesto a deixar sair os amantes. Ares partiu vangloriando-se para a sua última guerra, mas Afrodite fugiu para a ilha de Pafos até que o marido, que sofreu por tanto tempo, lhe perdoou.


Afrodite e Anquises

A faixa de Afrodite, um cinto dourado que ela usava à volta da cintura, era a arma que ela usava tanto contra os deuses como contra os mortais. Ela podia ceder a faixa dourada a qualquer homem ou mulher, ou ninfa imortal quando estava a planear dominar um deus ou mortal com o desejo sexual. Logo que a vítima pousava os olhos em quem estava a usar o cinto dourado, esse alguém era dominado pelo desejo sexual, incapaz de se controlar ou de medir as conseqüências da sua paixão. Afrodite, a deusa dourada do desejo, foi a causadora de muitas guerras. 

Ela dominou até a mente de Zeus com o desejo sexual e tantas vezes o fez que ele finalmente decidiu pagar-lhe na mesma moeda. Zeus fez com que ela se apaixonasse intensamente por um homem mortal, Anquises, que era o rei dos dardanianos. O encantamento lançado por Zeus só durou uma noite, e na manhã seguinte Afrodite fez Anquises prometer-lhe que nunca diria a ninguém que tinha partilhado a cama com ela.

Anquises ficou aterrorizado quando consciencializou que tinha feito amor com a deusa, pois ele sabia todas as histórias de mortais que tinham sido mortos por se terem aproximado demasiado de um dos deuses. Afrodite assegurou-lhe que nunca o magoaria, até porque, tinha ele dito, agora estava grávida de um filho dele, Eneias. Anquises não tardou a esquecer tanto o terror como a promessa e, uns dias mais tarde, estava a beber com uns amigos e a falar das mulheres como os homens fazem quando bebem. “Preferia dormir com aquela mulher que está a servir o vinho, do que com a dourada Afrodite!” — Exclamou um deles. — “Não concordas, Anquises?” Anquises tinha apenas vontade de não ofender a deusa concordando, mas não conseguiu deixar de dizer que ele tinha fortes razoes para poder julgar entre a deusa e a mulher, já que tinha partilhado a cama com ambas. Zeus ouviu a gabarolice e lançou-lhe imediatamente um raio, mas Afrodite estendeu a faixa de ouro para proteger Anquises. Assim, ele não morreu do ataque, mas ficou paralisado e ficou preso a cama para o resto da vida, sem nenhuma bela deusa a consolá-lo.

O PLANETA MARTE

O planeta Marte recebeu o nome do deus romano Marte, o equivalente ao deus grego Ares. O nome do deus continua vivo na nossa língua, para além do nome do planeta, na terminologia da guerra, como em “marcial” e “tribunal marcial”. O planeta tem uma cor avermelhada o que é facilmente associado ao sangue derramado na batalha. Os astrônomos deram aos dois pequenos satélites de Marte, homenageando os dois filhos de Afrodite (Vênus) e Ares (Marte) Fobos e Deimos.
Ares não era muito estimado entre os deuses do Olimpo, mas o planeta Marte tem um Monte Olimpo, que é o maior vulcão que foi encontrado no nosso Sistema Solar.

Afrodite e Adónis

Afrodite e Adónis, de Vecellio Tiziano (1487-1576)

A história de Afrodite e Adónis começa mal, com uma filha dominada pelo desejo sexual pelo próprio pai. Pode muito bem ter sido Afrodite a inspirar a Princesa Mirra com a paixão pelo pai, o Rei Ciniras do reino árabe da Panchaia. Mirra lutou contra os seus sentimentos, pois sabia muito bem que o incesto era proibido e tinha medo de Erínias, as Fúrias que vinham no mundo dos mortos para atormentar os criminosos com a sua culpa. Mas quando a mãe, Cenereis, tinha partido para celebrar o festival das nove dias de Deméter (Ceres), Mirra cedeu ao desejo e foi em segredo ao quarto do pai e, na escuridão, fingiu ser uma serva que se tinha apaixonado pelo rei. Nessa primeira noite, Mirra ficou grávida, e voltou a cama dele na noite seguinte, e na outra, e na outra, até que o rei ficou cheio de vontade de a ver. Acendeu uma luz e, para seu horror, descobriu que a mulher que estava na sua cama era a própria filha.

Cíniras ficou tão enlouquecido e chocado que puxou da espada e quis matá-la. Mirra fugiu do palácio na escuridão e cruzou a Arábia como fugitiva. Durante nove meses ela escondeu-se, enquanto o filho crescia na sua barriga. Começou depois a rezar, embora não soubesse qual o rei que a escutaria: “Se há algum deus que preste atenção a quem está profundamente arrependido, imploro-lhe que me ouça. Eu mereço o castigo, sei que polui o mundo dos homens e mulheres mortais com a minha existência. Se descer ao mundo dos mortos, também esse espaço ficara poluído. Imploro-vos, modificai-me de modo a que eu não seja nem um ser vivo nem um ser morto, para que a poluição acabe em mim e que a punição me atinja a mim, mas não filho que trago dentro de mim e que não fez nada de errado.”

A deusa Geia, bondosa Terra Mãe, ouviu a sua prece e puxou rapidamente os pés de Mirra para a terra. Os seus dedos grandes cresceram transformando-se em raízes, que penetraram na terra escura para lhe suportar o corpo, que se ia esticando e transformando no tronco de uma grande árvore. A sua pele fina endureceu transformando em casca e toda a carne humana se transformou em árvore, continuando ela com capacidade para verter lágrimas de seiva aromática. E foi assim que a primeira árvore mirra veio ao mundo.

O filho de Mirra, Adónis, nasceu do tronco da árvore mirra. Cresceu e tornou-se no mais belo dos homens, e a própria Afrodite foi dominada pelo desejo, desejando sempre a sua companhia, sofrendo quando se separavam por momentos. Adónis adorava caçar e, para lhe agradar, Afrodite também se dedicava à caça, mas só de pequenas criaturas sem dentes afiados, ou chifres, ou garras. Ela suplicava a Adónis que não corresse riscos, para se deixar estar ao lado dela e desfrutar do seu amor em vez de gastar o tempo a caçar animais selvagens, javalis, leões ou ursos.

Adónis parecia ouvir e concordar, e ela sentia-se suficientemente confiante para o deixar ir sozinho durante um dia, enquanto ela viajava para a sua amada ilha, Chipre. Assim que o carro dela se ergueu nos céus, suportado pelo grupo de cisnes, ele pegou na lança e chamou os cães para ir caçar. Não tinha intenção de ir em busca do javali, mas quando os cães seguiram o rasto de um pelo cheiro, ele não retrocedeu. Lançou a lança e feriu o javali de lado, mas a ferida não era profunda e o javali facilmente a atirou para longe. Adónis estava agora desarmado, o javali correu para ele e espetou-lhe os dentes profundamente na virilha. Adónis caiu no chão, morrendo.

Afrodite ouviu o grito de Adónis e ao olhar lá de cima dos céus vi-o ferido de morte. Ele chorou e puxou os próprios cabelos mas foi incapaz de persuadir as Parcas a evitarem a sua morte. Ajoelhou-se ao lado dele e tocou na terra ensopada de sangue: “Não te esquecerei, Adónis” — disse ela — “nem o mundo inteiro te esquecerá. Do teu sangue nascerá uma flor, que florescerá rapidamente na Primavera e não tardará a morrer.” O sangue de Adónis transformou-se na anêmona que mal floresce as pétalas são arrancadas pelo vento.


Hermafrodito e Sálmacis

Algumas das ninfas da mitologia grega são dríades, cada uma pertencendo a determinada árvore e vivendo e morrendo segundo o curso de vida da mesma. Outras são oréades, ninfas das montanhas, e ainda outra que eram náiades, ninfas dos rios, dos ribeiros e das lagoas. Estas últimas atingem o máximo das suas capacidades quando estão perto das suas águas. Sálmacis era uma Náiade, que considerava tão valiosa a sua lagoa que tinha decidido ficar sempre junto dela em vez de se juntar às outras ninfas como as companheiras de Ártemis na caça.

Hermafrodito era filho de Hermes (Mercúrio) e Afrodite sendo o seu nome a ligação do nome dos pais, enquanto a sua beleza era uma herança da mãe. Hermes era um grande viajante e o filho herdou-lhe o gosto. Um dia, durante as suas viagens, Hermafrodito encontrou Sálmacis junto a sua lagoa. Mal o viu ela não conseguiu deixar de dizer: “És mortal ou deus? seguramente és Erro, filho de Afrodite, que vieste à terra para me ferires com a tua flecha dourada. Eu estou tão ferida com o amor que te imploro que faças de mim tua mulher, ou, caso já sejas casado, me tomes por amante.”

Hermafrodito ficou mais que surpreendido. Ele era filho de Afrodite, mas não sabia nada do desejo da paixão e estava certo de que não queria casar com esta ninfa. Ela envolveu-o com os seus braços, mas ele afastou-a grosseiramente. Ela tentou beijá-lo e ele recuou. “Vai-te embora” — declarou ele — “ou será que tenho de ser eu a fugir?”


Sálmacis quis partir, mas era incapaz de se afastar dele. Escondeu-se atrás de um arbusto, vendo-o sentar-se no chão para descansar. Em seguida, ele decidiu tomar um banho na lagoa, já que o dia estava quente. Tirou as roupas e Sálmacis sentiu incendiar-se o seu desejo ao olhar para aquele corpo nu. Mal ele mergulhou na lagoa, ela gritou: “Ele é meu!” e imediatamente saltou atrás dele, agarrando-o, beijando-o, colando-se a ele, pressionando o corpo contra o dele, recusando-se a deixá-lo ir. “Fiquemos juntos para sempre — implorou ela e os deuses ouviram o seu pedido. Os dois corpos, tão profundamente interligados, começaram a fundir-se num único, nem inteiramente masculino nem totalmente feminino. O ser que saiu da lagoa de Sálmacis não era nem homem nem mulher mas sim o primeiro hermafrodita.

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