EROS E PSIQUE

Os gregos costumavam imaginar o seu deus do amor, Eros, na forma de um rapaz com asas, tendo por arma um arco e flechas. Rebatizado pelos romanos como Cupido, manteve-se pequeno ao longo dos séculos, até que na arte renascentista se tornou num miúdo bochechudo que dificilmente parecia ter força suficiente para vergar o arco e disparar as flechas. Na história de Eros e Psique, contada pelo escritor romano Apuleio, o deus toma a forma de um rapazinho, para não ser suficientemente crescido que tivesse de ser independente da mãe Afrodite (Vênus).

Os deuses do Olimpo eram sempre rápidos a punir a arrogância de qualquer mortal que ousasse exigir igualmente a um deus. Os contos de humanos tolos e arrogantes terminam quase sempre mal para eles, mas o mito de Eros e Psique é uma exceção a esta regra, já que a tola princesa teve de suportar penas e sofrimentos antes de finalmente ter um final  feliz.

Talvez a sua história termine bem porque não foi a própria Psique que ousou comparar a sua beleza com a de uma deusa, mas sim os orgulhosos pais, que declararam que a filha mais nova era mais bonita que a deusa do amor, Afrodite. Ainda pior, todas as pessoas da Grécia e das terras à volta começaram a deslocar-se ao palácio de Psique para a adorar, enquanto os templos de Afrodite estavam vazios. Então a deusa pediu ao filho, Eros, para punir a rapariga ferindo o seu coração com a sua flecha, de modo a que ela se perdesse de amores por um miserável desprezível e tivesse um casamento infeliz. Entretanto, Psique estava triste por as pessoas a tratarem como a uma deusa e ninguém ser suficientemente corajoso para a amar como a uma mulher e casar com ela. Ambas as irmãs mais velhas casaram, mas Psique continuava em casa, infeliz e solitária.

À medida que o tempo passava e não aparecia ninguém para cortejar a filha, o rei começou a preocupar-se. Perguntou então ao oráculo Apolo onde poderia encontrar um marido para a sua filha solitária. A resposta do oráculo foi aterradora. Psique devia ser vestida de noiva e levada  para o cume de uma montanha. O seu marido não seria um mortal mas um monstro cheio de veneno, uma criatura suficientemente poderosa para lutar mesmo com o maior dos deuses, o próprio Zeus (Júpiter).

Psique e os pais andaram até ao cimo da montanha chorando, como se estivessem a ir ao seu funeral em vez do seu casamento. Todos sabiam que ela estava a ser punida por Afrodite, mas não havia nada que pudessem fazer para acalmar a ofendida deusa. Eles tiveram de afastar-se de Psique enquanto ela aguardava aterrorizada, no cimo da montanha, a chegada do monstro.

Ela tinha o corpo tenso na expectativa de um ataque, mas, em vez disso, uma brisa suave soprou as suas roupas até que os pés se elevaram, sendo suavemente transportada até ao sopé da montanha. Ai viu um palácio maravilhoso, tão magnífico que ela calculou logo que pertencia aos deuses. Todo ele parecia estar vazio, mas ela ouvia vozes agradáveis e sentia mais invisíveis que iam buscar comida e bebida e tocavam música suave para ela. Não havia quaisquer sinais do mostro e acabou por ir para a cama a pensar onde estava o marido. A meio da noite foi acordada por alguém - uma pessoa, não um monstro - que subia para a cama. Era o marido, mas ela não conseguiu vê-lo devido à escuridão. Partiu enquanto ainda estava escuro e todas as noites ele voltava à cama no meio da escuridão para voltar a partir antes do dia nascer. Psique começava a sentir-se apaixonada por alguém que nunca tinha visto.

A BELA E O MONSTRO
A lenda A Bela e o Monstro foi fortemente influenciada pelo mito de Eros e Psique. Ambas são histórias de amor testadas pelo aspecto exterior. Tanto Bela como Psique ambas falharam o primeiro teste. Bela não soube amar o Monstro até ele estar prestes a morrer, enquanto Psique acreditou na história das irmãs de que o marido dela era um monstro assassino. Enquanto Bela é literalmente confrontada com o Monstro, no caso de Psique é só na imaginação dela que Eros é o mais desejável dos deuses na forma de um homem. Na lenda, tanto a Bela como o Monstro tem algo a aprender antes de se poderem amar completamente. No mito, Psique é sujeita a numerosas provas, mas não Eros, que consegue estar escondido na casa da mãe enquanto a sua amada sofre. Talvez isto ajude a explicar por que razão Eros é tantas vezes representado como um rapazinho que nunca cresce.

Psique perde o marido


Psique Abandonada,
de Augustin Pajou (1730-1809)
Uma noite, ele avisou Psique de que as irmãs dela estavam prestes a subir a montanha para a encontrarem viva ou morta. Ele implorou-lhe para ela não lhes dar atenção, mas, quando Psique ouviu as irmãs a chamá-la e a chorar, não pode deixar de pedir ao vento que as soprasse gentilmente até ao palácio. As duas irmãs ficaram cheias de inveja quando viram todas as jóias de Psique e as suas roupas ricas e todos os tesouros do palácio, e no dia seguinte voltaram para descobrir se havia alguma forma de magoarem Psique e de lhe darem cabo do casamento. 

"Como é o teu marido?" - perguntavam elas constantemente e, por fim, Psique teve de admitir que nunca o tinha visto. 

"Ele é um monstro" - exclamaram elas - "e é por isso que nunca teve coragem para te mostrar a cara. Agora tu estás grávida e toda a gente sabe que a comida preferida de um monstro e uma mulher grávida. Ele só está a espera que o teu bebê cresça dentro de ti para depois vos comer aos dois. Tens de o matar antes que ele te mate. Utiliza uma lamparina para o veres e corta-lhe a cabeça com uma faca!"

Psique acreditou em tudo o que as irmãs lhe disseram. Encontrou uma lamparina e uma faca e escondeu ambas junto à cama. Nessa noite, quando o marido adormeceu, ela acendeu a luz e viu-lhe o corpo pela primeira vez. Ao lado dela estava deitado o deus do amor, na forma de um homem, mas mais belo que todos os mortais. Perto dele estava o arco e as flechas, e Psique arranhou numa delas quando se curvou para o beijar. A ferida da flecha assegurou que ela amaria Eros até ao fim da sua vida.

Psique estava prestes a beijá-lo quando a lamparina se inclinou e uma gota do óleo a arder caiu no ombro de Eros e o acordou. Ele saltou da cama e começou a afastar-se voando, mas Psique conseguiu separar-se a ele, pelo que a transportou para fora do palácio pela colina. Ela não pode segurá-lo por mais tempo e caiu no chão. Eros disse-lhe que ele tinha de voltar para junto da mãe para sarar o ombro queimado. Afrodite ficou furiosa quando soube que, em vez de atormentar Psique, o filho se tinha apaixonado e casado com ela. Se ao menos a tola tivesse sabido guardar silêncio, o filho nasceria como um deus, mas agora ela teria muita sorte em permanecer viva até o bebê nascer, visto que ele não podia protegê-la contra a raiva de Afrodite. E depois ele partiu voando pela noite.

As tarefas de Psique


Psique no Trono de Afrodite,
de Edward Hale (1852-1924)
Psique sentia-se tão miserável e com tanto medo de Afrodite que tentou atirar-se a um rio, mas o deus rio reconheceu-a como a noiva de Eros e não a deixou morrer. Depois pediu ajuda a Hera (Juno), a deusa do amor matrimonial e a Deméter (Ceres), que conhecia a dor de perder uma filha, Perséfone, mas nenhuma destas deusas estava disposta a ofender Afrodite ajudando Psique. 

Finalmente, Afrodite encontrou Psique e começou logo a puni-la, açoitando-a. Depois decidiu atormentar a pobre rapariga com tarefas que não podiam ser desempenhadas, de modo a ver intermináveis desculpas para voltar a bater-lhe. Primeiramente, Afrodite pegou em mãos cheias de grãos e feijões e sementes de papoila e misturou tudo. Depois atirou a mistura para o chão e mandou Psique separá-los até cair a noite. Se falasse seria chicoteada. Psique começou por fazer um pequeno monte de grãos de milho, mas passados alguns minutos constatou que seria impossível separar todas as sementes até ao anoitecer. Começou a chorar, mas, em seguida, reparou numa formiga correndo tão depressa quanto podia pela terra chamando todas as outras formigas para dentro do palácio: "A noiva de Eros está aqui e precisa de ajuda". Imediatamente todas as formigas do palácio da deusa correram para as sementes e começaram a transportá-las fazendo pilhas separadas. Ao anoitecer, a tarefa estava concluída.

"Tu deves ter tido alguma ajuda, tu criatura astuta - reclamou a deusa, "mas não penses que consegues escapar à minha ira tão facilmente. Amanhã quero que vás para os campos onde pastam os carneiros de ouro e que apanhes uma mão cheia de lã dourada." Esta tarefa pareceu ser fácil, mas de manhã, quando Psique se dirigia para o campo pode ver que todos tinham enormes chifres aguçados. Ela tinha de atravessar um pequeno ribeiro para chegar ao rebanho e, quando parou ai hesitante, uma cana do riacho disse-lhe: "Psique, se atravessares agora as águas, morrerás. Os carneiros vão usar os chifres contra ti e, se isso não te matar, há ainda os dentes deles que são venenosos. Mas estes carneiros só são perigosos durante o dia, quando o seu tosão dourado fica muito quente com o Sol e os enraivece. Espera até que seja noite, altura em que estarão calmos e pacificos. Nesta altura poderás andar entre eles em segurança e apanhar a lã que está agarrada a espinhos e silvas."

Nessa noite, Afrodite ficou ainda mais furiosa com Psique. "Seguramente algum deus malévolo tem andado a ajudar-te." - resmungou ela, e Psique recordou como Siringe, a amada de Pã tinha sido transformada numa cana. Talvez tenha sido um grande deus Pã que a tenha ajudado, disfarçado de cana. Afrodite não tardou a encontrar outra punição para Psique. "Na nova tarefa vai ser mais dificil encontrares quem te ajude, pois até os deuses tem receio do rio da morte. Tu tens de ti ao Rio Estige e de me trazeres água da sua nascente, no cimo das montanhas, de onde ela cai da escarpa antes de penetrar no mundo dos mortos. Quero que tragas água do meio do rio, não das margens.

Psique compreendeu muito bem que a intenção da deusa era matá-la quando chegou à escarpa e à queda de água e viu que havia dragões a guardar ambas as margens do rio. Voltou a pensar em matar-se, mas a águia de Zeus reparou na chegada dela e quando Psique se preparava para correr para os dragões e voou na sua direção para a ajudar. Ele recordou a ocasião em que Eros o tinha ajudado a ele, quando Zeus tinha ordenado para ele raptar o belo rapaz Ganimedes e levá-lo para o Olimpo para ser copeiro do deus. A enorme águia deitou a garra ao cântaro da mão de Psique e levou-o para o meio do rio tendo-o trazido em seguida cheio de águia escura.

A METADE EM FALTA
O filósofo Platão explicou a natureza do amor contando um mito a respeito dos primeiros seres humanos, que eram criaturas circulares cada uma delas com duas caras num único pescoço, quatro pernas e quatro braços. Zeus (Júpiter) ficou furioso com estes primeiros humanos por terem desafiado a regra dos deuses e partiu cada um deles ao meio, deixando a humanidade apenas com uma cara, dois braços e duas pernas. Zeus ameaçou ainda os seres homens de que se voltasse a haver problemas, os partia novamente a meio. E assim, apenas com uma perna e um braço cada um, reduzidos a deslocaram-se aos saltinhos para todo o lado, aprenderiam a tratar os deuses com respeito. Seguindo este mito, todos nós somos metades de um todo, cada um de nós procurando ansioso a metade perdida. O amor, segundo este mito, é o desejo de procura do todo.

Descida ao mundo dos mortos

Psique no mundo dos Mortos,
de Ernest Hillemacher (1818-1887)
Afrodite continuava furiosa. Por certo todos os deuses estavam a conspirar contra ela, mas ela pensou numa tarefa que iria conduzir Psique à morte, fosse quem fosse que a ajudasse. A regra do mundo dos mortes, tantos para os gregos como para os povos da Mesopotâmia, era que todos os vivos podiam lá ir mas não poderiam voltar. Afrodite ordenou a Psique que descesse ao mundo dos mortos para visitar a sua rainha Perséfone (Prosérpina) e lhe dissesse para dar alguma da sua beleza a Afrodite.

Mais uma vez Psique pensou em pôr termo à vida, pois essa seria a forma mais rápida de descer ao mundo dos mortos; ela não conseguia ver nenhuma possibilidade de lá ir voltar viva. Começou a subir os degraus de uma alta torre, de onde saltaria para morte, quando começou a ouvir a torre a falar com ela: "Psique, não desesperes. Tu podes ir viva ao mundo dos mortos e regressar viva, desde que faças o que te digo. Tens de levar dois bolos de cevada e duas moedas, visto que Caronte, o barqueiro do Rio Estige, não atravessava ninguém sem pagamento, e também o cão das três cabeças, Cérbero, que faria em bocados quem tentasse passar sem lhe dar comer. Tens de ignorar todos os que te pedirem ajuda. Só podes comer pão e beber água, e mesmo que te ofereçam um trono para te sentares, tens de te sentar no chão. Se fizeres todas essas coisas, Perséfone entregar-te-a uma caixa de beleza e tu poderás regressar ao mundo dos vivos, dando ao Cérebro o segundo bolo de cevada e dando a Caronte a segunda moeda. Lembra-te que não pode abrir a caixa, pois não é sensato descobrir os segredos do mundo dos mortos."

Psique correu estrada a baixo a caminho do mundo dos mortos e não tardou a encontrar Caronte com o seu barco. No caminho, um homem esforçava-se por carregar um burro com madeira um burro com madeira e pediu a Psique que o ajudasse a atar com a carga em segurança, mas ela lembrou-se da recomendação da torre e afastou-se dele. Enquanto Caronte remava para que ela atravessasse o Estige, Psique viu um velho a afogar-se e ouviu ele a chamá-la, mas deixou-se ficar sentada no barco e não o ajudou. Ela continuava a avançar e Afrodite a mandar mais e mais vítimas para a tentarem a ajudá-las, mas mesmo quando Psique viu crianças a morrer, recordou que tinha de ignorar. Era apenas fantasmas enviados pela deusa para fazerem com que Psique deixasse cair aos bolos de cevada que tinha na mão. Por fim, ela viu Cérbero de pé na rua, rosnando-lhe com cada uma das suas três bocas e ela atirou-lhe um dos bolos. Agora ela estava perto do palácio de Perséfone e de Hades e a deusa estava à espera para lhe entregar a caixa da beleza.

Mas ainda havia um teste. A torre tinha-a avisado para não abrir a caixa, mas quando ela já regressava ao mundo dos vivos, dando o segundo bolo de cevada a Cérbero e a Caronte a segunda moeda, ela pôs-se a imaginar-se de novo com Eros, e desejou tirar um pouco da beleza de Perséfone para si própria. Abriu a caixa e descobriu que estava vazia, a excepção do ar do mundo dos mortos. Quando ela inspirou profundamente, caiu no chão, prestes a morrer.

Eros lançou-se em voo e soprou para afastar o ar letal. O ombro ferido estava curado e ele estava pronto a desafiar a mãe e a garantir que Psique se tornasse deusa e o filho, ainda por nascer, seria um deus. Levou Psique para o Olimpo onde Zeus lhe deu ambrósia, a comida dos deuses que tornava imortais as pessoas que a comessem. Tal como o marido, Psique tinha agora asas, mas as dela eram como as das borboletas e não com penas como as de Eros. Tal como uma lagarta deixa a sua vida terrestre e familiares e emerge mais tarde como uma borboleta que se desloca nos ares, também Psique deixou a sua vida como princesa entre os seres humanos e tornou-se uma deusa do Olimpo.

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