TRECHOS DE LEITURAS DIÁRIAS - 31/03/2017

Na verdade, as dificuldades específicas da história da África podem ser constatadas já na observação das realidades da geografia física desse continente. Continente solitário, se é que existe algum, a África parede dar as costas para o resto do Velho Mundo, ao qual se encontra ligada apenas pelo frágil cordão umbilical do istmo de Suez. (...)

JOSEPH KI-ZERBO
HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA I
METODOLOGIA E PRÉ-HISTÓRIA DA ÁFRICA


(...) Essas regiões abertas, que experimentaram um ritmo de evolução mais rápido, constituem a prova a contrário de que o isolamento foi um dos fatores-chave da lentidão do progresso da África em determinados setores. "As civilizações repousam sobre a terra", escreve F. Braudel. E acrescenta: "A civilização é filha do número". Ora, a própria vastidão desse continente, com uma população diluída e, portanto, facilmente itinerante, em meio a uma natureza ao mesmo tempo generosa (frutas, minerais, etc.) e cruel (endemias, epidemias), impediu que fosse atingido o limiar de concentração demográfica que tem sido quase sempre uma das precondições das mudanças qualitativas importantes no domínio econômico, social e político. Além disso, a severa punção demográfica da escravidão desde os tempos imemoriais e, sobretudo, após o comércio negreiro do século XV ao XX, contribuiu muito para privar a África do tônus humano e da estabilidade necessários a toda criação eminente, mesmo que seja no plano tecnológico. A natureza e os homens, a geografia e a história não foram benevolentes com a África. É indispensável retornar a essas condições fundamentais do processo evolutivo, para que seja possível colocar os problemas em termos objetivos e não sob a forma de mitos aberrantes como a inferioridade racial, o tribalismo congênito e a pretensa passividade histórica dos africanos. Todas essas abordagens subjetivas e irracionais apenas mascaram uma ignorância voluntária.

JOSEPH KI-ZERBO
HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA I
METODOLOGIA E PRÉ-HISTÓRIA DA ÁFRICA


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