TRECHOS DE LEITURAS DIÁRIAS - 29/03/2017

Justas núpcias ou concubinato, a monogamia reina sozinha. Mas monogamia e casal não são a mesma coisa. Não perguntaremos aqui como realmente decorria a vida cotidiana de maridos e esposas, e sim como a moral vigente, nas diferentes épocas, exigia que um marido considerasse a mulher: como uma pessoa, sua igual, a rainha fazendo par com o rei (mesmo que a dita rainha lhe servisse de criada sob um nome mais honroso?) Ou como uma criaturinha eternamente menor, cuja única importância consistia em ser a instituição do casamento personificada? A resposta é simples: no século I antes de nossa era um romano deve considerar-se um cidadão que cumpriu todos os seus deveres cívicos; um século depois, deve considerar-se bom marido e oficialmente respeitar a mulher. Em outros termos, chegou um momento em que se interiorizou numa moral essa instituição cívica e dotal que era o casamento monogâmico. (...)

HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA
I. DO IMPÉRIO ROMANO AO ANO MIL


Moral cívica, depois moral do casal. Quando se passou de uma à outra, era um século ou dois, o que mudou foi menos a conduta das pessoas (não sejamos demasiados otimistas), ou mesmo o conteúdo das normas que se devia seguir, do que uma coisa mais formal e contudo mais decisiva: a decisão pela qual cada moral se arrogava o direito de dar ordens e ao mesmo tempo a maneira como considerava as pessoas: soldados do dever cívico ou criaturas morais responsáveis. E essas formas comportavam o conteúdo. A primeira moral dizia: "Casar-se é um dos deveres do cidadão". A segunda: "Quem quer ser um homem de bem só deve fazer amor para ter filhos; o estado do casamento não serve aos prazeres venéreos". A primeira moral não questiona a fundamentação das normas: como apenas as justas núpcias permitem gerar cidadãos de modo regulamentar, deve-se obedecer e casar. A segunda, menos militarista, quer descobrir um embasamento das instituições; como o casamento existe e sua duração ultrapassa em muito o dever de gerar filhos, deve ter outra razão de ser; fazendo com que dois seres racionais, o esposo e a esposa, vivam juntos durante toda a sua existência, ele é, portanto, uma amizade, uma afeição duradoura entre duas pessoas de bem, que só hão de fazer amor para perpetuar a espécie. Em suma, a nova moral queria dar prescrições justificadas a pessoas racionais; sendo incapaz de ousar criticar as instituições, cabia-lhe descobrir um fundamento não menos racional no casamento. Essa mistura de boa vontade e conformismo gerou o mito do casal. Na velha moral cívica, a esposa era apenas um instrumento da função de cidadão e chefe de família; fazia filhos e aumentava o patrimônio. Na segunda moral, a mulher é uma amiga; tornou-se "a companheira de toda uma vida". Só lhe resta continuar racional; quer dizer, conhecendo sua inferioridade natural, obedecer; o esposo a respeitará como um verdadeiro chefe respeita seus auxiliares devotados, que são seus amigos inferiores. Em suma, o casal chegou ao Ocidente no dia em que a moral decidiu se perguntar por que boa razão um homem e uma mulher deviam passar a vida juntos e não mais aceitou a instituição como uma espécie de fenômeno natural.

HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA
I. DO IMPÉRIO ROMANO AO ANO MIL


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