TRECHOS DE LEITURAS DIÁRIAS - 09/02/2017 a 03/03/2017

Mas nenhum balanço era capaz de assustar Dany. Era chamada Daenerys, nascida na Tormenta, pois chegara ao mundo, aos gritos, na distante Pedra do Dragão, enquanto a maior tempestade de que se havia memória em Westeros rugia lá fora, uma tempestade tão violenta que arrancou gárgulas das muralhas do castelo e fez a frota do pai em pedaços.
O mar estreito era frequentemente tempestuoso, e Dany atravessara-o meia centena de vezes quando menina, correndo de uma Cidade Livre para a seguinte, meio passo à frente dos assassinos contratados pelo Usurpador. Adorava o mar. Gostava do intenso cheiro salgado do ar e da vastidão do horizonte, limitado apenas por uma abóbada de céu azul-celeste. Fazia-a sentir-se pequena, mas também livre. Gostava dos golfinhos que às vezes nadavam ao lado do Balerion, cortando as ondas como lanças prateadas, e dos peixes-voadores que podiam ser vislumbrados de vez em quando. Até gostava dos marinheiros, com todas as suas canções e histórias. Certa vez, em uma viagem para Bravos, enquanto observava a tripulação que lutava para arriar uma grande vela verde no meio de uma crescente ventania, até tinha pensado em como seria bom ser um marinheiro. Mas, quando disse isso ao irmão, Viserys torcera seus cabelos até fazê-la gritar.
- Você é do sangue do dragão - ele berrou. - Um dragão, não um peixe fedorento qualquer.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN


O vento soprou durante todo o dia, a princípio constante e de leste, e depois em violentas rajadas. O sol pôs-se num deslumbramento vermelho. Ainda estou a meio mundo de distância de Westeros, lembrou Dany a si mesma, mas a cada hora me aproximo mais. Tentou imaginar como se sentiria quando vislumbrasse pela primeira vez a terra que nascera para governar. Será uma costa mais bela que qualquer outra que já tenha visto, eu sei. Como poderia ser de outro modo?

A TORMENTA DAS ESPADAS


GEORGE R. R. MARTIN

Sor Jorah deslizou os braços em volta dela.
- Oh - foi tudo o que Dany teve tempo de dizer quando ele a puxou e pressionou os lábios contra os dela. Cheirava a suor, sal e couro, e os rebites de ferro em seu justilho enterravam-se nos seus seios nus quando ele a apertou com força contra si. Uma mão prendeu-a pelos ombros enquanto a outra deslizou ao longo da espinha até a base das costas, e a boca de Dany abriu-se para deixar entrar a língua dele, embora ela não lhe tivesse dito para fazer isso. A barba dele arranha, pensou, mas a boca é suave. Os dothraki não usavam barba, tinham apenas longos bigodes, e antes só Khal Drogo a beijara. Ele não devia estar fazendo isso. Sou sua rainha, não sua mulher.
Foi um beijo longo, embora Dany não soubesse dizer quão longo. Quando terminou, Sor Jorah largou-a, e ela deu um passo rápido para trás.
- Você... você não devia...

A TORMENTA DAS ESPADAS


GEORGE R. R. MARTIN

A cadeia de montes projetava-se vivamente da terra, uma longa dobra de pedra e solo com a forma de uma garra. Árvores agarravam-se às suas vertentes inferiores, pinheiros, espinheiros e freixos, mas mais acima o terreno era nu, e a linha de cumeada definia-se bem contra o céu enevoado.
Sentiu que os rochedos elevados o chamavam. E lá subiu, a princípio a um trote fácil, e depois mais depressa e mais alto, devorando o declive com as fortes patas. Aves saltavam dos galhos por cima de sua cabeça quando passava por baixo correndo, abrindo caminho para o céu numa confusão de garras e asas. Conseguia ouvir o vento suspirar por entre as folhas, os esquilos chilreando uns para os outros, até o ruído que uma pinha fez ao cair no chão da floresta. Os cheiros eram uma canção à sua volta, uma canção que enchia o belo mundo verde.

A TORMENTA DAS ESPADAS


GEORGE R. R. MARTIN

O vento mudou subitamente.
Veado, e medo, e sangue. O odor da presa despertou sua fome. O príncipe voltou a farejar o ar, virando-se, e então partiu, saltando ao longo da cumeada com a boca entreaberta. A outra vertente da serra era mais inclinada do que aquela por onde tinha subido, mas correu, com segurança, sobre pedras, raízes e folhas em putrefação, pela encosta abaixo e através das árvores, devorando o terreno em longas passadas. O cheiro o atraía, cada vez mais depressa.

A TORMENTA DAS ESPADAS


GEORGE R. R. MARTIN

Ele não tem medo, pensou o príncipe, não tem mais medo do que eu. Seria uma boa luta. Atiraram-se um contra o outro.

A TORMENTA DAS ESPADAS


GEORGE R. R. MARTIN

Quando subiu ao convés, a longa ponta de Derivamarca diminuía atrás deles, enquanto, adiante, Pedra do Dragão se erguia do mar. Um pálido fiapo cinzento de fumaça era soprado do topo da montanha, marcando o local onde ficava a ilha. O Monte Dragão está agitado hoje, pensou Davos, ou então é Melisandre que está queimando mais alguém.
Melisandre ocupara muito os seus pensamentos enquando o Dança de Shayala abria caminho pela Baía da Água Negra e atravessava a Goela, manobrando contra perversos ventos contrários. O grande incêndio que ardia no topo da torre de vigia de Ponta Aguda, na extremidade do Gancho de Massey, tinha feito Davos se lembrar do rubi que ela usava no pescoço, e de quando o mundo ficava vermelho de madrugada e ao pôr do sol, as nuvens que pairavam no céu ganhavam a mesma cor que as sedas e os cetins de seus vestidos sussurrantes.
Ela também estaria à espera em Pedra do Dragão, à espera com toda a sua beleza e todo o seu poder, com seu deus, as suas sombras e o rei dele. A sacerdotisa vermelha parecera sempre ser leal a Stannis, até agora. Ela domou-o, do mesmo modo que um homem doma um cavalo. Subiria ao poder montada nele se pudesse, e por isso entregou meus filhos ao fogo. Vou arrancar o coração de seu peito e ver como queima. Tocou o cabo na boa e longa adaga lisena que o capitão tinha lhe oferecido.

A TORMENTA DAS ESPADAS


GEORGE R. R. MARTIN

Você não ia gostar da verdade. Tinha se juntado à Guarda Real por amor, claro.
O pai chamara Cersei para a corte quando ela tinha doze anos, esperando arranjar um casamento real para ela. Tinha recusado todas as ofertas por sua mão, preferindo mantê-la consigo na Torre da Mão enquanto crescia e se tornava mais mulher e ainda mais bela. Esperava, sem dúvida, que o Príncipe Viserys amadurecesse, ou talvez que a esposa de Rhaegar morresse ao dar à luz. Elia de Dorne nunca tinha sido a mais saudável das mulheres.

A TORMENTA DAS ESPADAS


GEORGE R. R. MARTIN

Lembrava-se daquela noite como se fosse ontem. Tinham-na passado numa velha estalagem na Viela das Enguias, bem longe de olhos vigilantes. Cersei fora encontrá-lo vestida como uma simples criada, o que acabou por excitá-lo ainda mais. Jaime nunca a tinha visto mais apaixonada. Sempre que adormecia, ela voltava a acordá-lo. Pela manhã, Rochedo Casterly parecia um pequeno preço a pagar para ficar sempre perto dela. Deu seu consentimento, e Cersei prometeu fazer o resto.
Uma volta de lua mais tarde, um corvo real chegou a Rochedo Casterly para informá-lo de que fora escolhido para a Guarda Real. Era-lhe ordenado que se apresentasse ao rei durante o grande torneio em Harrenhal, para prestar juramento e envergar o manto.
A investidura de Jaime libertou-o de Lysa Tully. Mas, tirando isso, nada se passou conforme planejado. O pai nunca estivera mais furioso. Não podia levantar objeções abertamente - Cersei julgara isso de forma correta -, mas usou um pretexto qualquer pouco convincente para se demitir do cargo de Mão e retornou a Rochedo Casterly, levando a filha consigo. Em vez de ficarem juntos, Cersei e Jaime limitaram-se a trocar de lugar, e ele se viu sozinho na corte, defendendo um rei louco enquanto quatro homens menores se sucederam dançando sobre facas, cujos pés não calçavam bem os sapatos do pai. As Mãos ascendiam e caíam tão rapidamente que Jaime recordava melhor a heráldica do que o rosto deles. A Mão cornucópia e a Mão grifos dançantes tinham sido exiladas; a Mão maça e punhal, mergulhada em fogovivo e queimada viva. Lorde Rossart fora o último. Seu símbolo era um archote ardente; uma escolha infeliz, tendo em conta o destino de seu predecessor, mas o alquimista tinha ascendido em grande medida por partilhar a paixão do rei pelo fogo. Devia ter afogado Robert em vez de estripá-lo.

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GEORGE R. R. MARTIN

- Ser um cavaleiro é uma dádiva rara e preciosa - disse - e mais ainda quando se é um cavaleiro da Guarda Real. É algo dado a poucos, algo que você desprezou e conspurcou.
Algo que você deseja desesperadamente, garota, e que nunca poderá obter.
- Eu conquistei o meu grau de cavaleiro. Nada me foi dado. Ganhei uma luta corpo a corpo num torneio com treze anos, quando ainda era escudeiro. Aos quinze, acompanhei Sor Arthur Dayne contra a Irmandade da Mata de Rei, ele armou-se cavaleiro no campo de batalha. Portanto, poupe-me de sua inveja. Foram os deuses que se esqueceram de lhe dar uma pica, não fui eu.

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GEORGE R. R. MARTIN

Como você pode compreender? Ainda no dia anterior Tyrion a vira, subindo a escada em espiral com um balde de água. Ficara vendo um jovem cavaleiro oferecendo-se para levar o pesado balde. O modo como ela tocou o braço dele e sorriu havia dado nó nas entranhas de Tyrion. Tinham passado a centímetros um do outro, ele descendo e ela subindo, tão perto que conseguira sentir o cheiro fresco e limpo de seus cabelos. Ela disse "Senhor" para ele, com uma pequena reverência, e ele quis estender a mão, agarrá-la e beijá-la logo ali, mas tudo que pôde fazer foi dar um rígido aceno de cabeça, bamboleando, o seu caminho.
- Vi-a várias vezes - disse a Varys -, mas não me atrevo a falar com ela. Suspeito que todos os meus movimentos estão sendo vigiados.

A TORMENTA DAS ESPADAS


GEORGE R. R. MARTIN

- Está sugerindo que Cersei anda fodendo o Osmund Ketteleblack?
- Oh, deuses, não, isso seria terrivelmente perigoso, não acha? Não, a rainha só sugere... talvez amanhã, ou depois do casamento... e depois um sorriso, um sussurro, um gracejo irreverente... um seio roçando levemente na manga dele quando se cruzam... e no entanto parece funcionar. Mas o que um eunuco poderia saber dessas coisas? - a ponta de sua língua correu pelo lábio inferior como um animal tímido e cor-de-rosa.
Se conseguisse de algum modo levá-los a fazer mais do que carícias dissimuladas, arranjar uma maneira de o pai pegá-los juntos na cama... Tyrion levou os dedos à escara do nariz. Não via como isso seria realizável, mas talvez lhe ocorresse algum plano mais tarde.

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GEORGE R. R. MARTIN


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