SOBRE O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Difícil falar sobre o dia internacional das mulheres se eu não me identifico com o gênero mulher, porém, biologicamente e socialmente sou considerada como mulher. Por mais que eu não me identifico com o gênero eu sofro todos os dias os preconceitos contra a mulher. Vai parecer meio confuso dizer isso, sou mulher ao mesmo tempo que não sou. Eu sou uma mulher não-binária, logo, posso reivindicar e lutar pelos direitos das mulheres, e também, me declarar feminista. Lembrando o conceito de gênero é uma construção social, logo, não me considero mulher porque nunca fui feminina o suficiente e desde criança o meu lado masculino chamava mais atenção, porém, há dias que posso me sentir mulher, outros como um homem, ou ambos, ou nenhum. Agora vamos focar no tema.

Dia 8 de março é comemorado o dia internacional da mulher. Você sabe o que realmente representa? Está sendo muito dito sobre os abusos, agressões, violências, preconceitos que as mulheres sofrem diariamente. Acredite se quiser, e não é para querer se vitimar, a mulher sofre tudo isso e mais um pouco por ser mulher. Como assim? Darei um exemplo real que passo todos os dias dentro e fora de casa. Na minha casa fui orientada pelo meu pai a não ser fácil pois homem gosta de mulher difícil, a ser uma mulher obediente e submissa para o meu parceiro, que é natural eu me relacionar somente com o sexo oposto pois isso é o que Deus permite, a não levantar a voz durante uma discussão, aprender a pedir desculpas e assumir a culpa pelos meus atos já que estou sempre errada. Fora de casa corro o risco de ser assediada na rua, no metrô, no ônibus, na faculdade, no trabalho. Muitas vezes não sei para onde olho pois sempre tem um homem que me encara num jeito que me deixa desconfortável. Além dos comentários ofensivos mascarados de elogiosos que sou obrigada a ouvir quando ando na rua independente da roupa que uso. Tive várias propostas de emprego recusadas por na época ser mulher jovem, detalhe que tinha um currículo e experiências consideráveis. Sofri abusos sexuais, não somente uma vez, mas várias de diferentes parceiros, em muitos casos percebi anos depois a gravidade desses abusos, porém, o mais grave acabei denunciando na Delegacia da Mulher onde fui humilhada a ponto de sair chorando pela delegada ter me culpado. Fui espancada em outra situação descrita numa transa quando tava embriagada, só percebi a marca da agressão quando acordei e me olhei no espelho, infelizmente não tive coragem em denunciar o agressor que passou o dia comigo numa tentativa de se redimir da sua culpa e garantir que eu não o denunciasse. 


Irei voltar a questão de gênero. Nasci biologicamente do sexo feminino, o meu corpo é de mulher, gosto do meu corpo, sou mulher ao mesmo tempo que não sou pois não me identifico como, contudo, sofro diariamente o preconceito contra a mulher e sei a realidade das mulheres por estar no corpo de uma. A mulher diariamente precisa lutar pelo seu valor na sociedade e essa é a importância de se comemorar o dia da mulher, pois, apesar de inúmeros obstáculos nós acabamos sendo guerreiras, líderes, empoderadas, parceiras, mães ou filhas, e mulheres...

Quando se comemora o dia da mulher não é para o homem dar flores ou chocolate, pedir desculpas pelos seus atos violentos e abusivos para nos outros dias continuar sendo um agressor. O dia da mulher não é para nos fazer lembrar que somos enfeites ou bonecas de porcelanas sem voz e opinião, pois não somos isso, podemos nos embelezar com maquiagens e termos voz própria. A mulher deseja mais que tudo o apoio de seu parceiro nos afazeres domésticos e na criação das filhas e filhos. Ao contrário do que o Presidente Michel Temer diz e pensa, a mulher não é obrigada a cuidar dos afazeres domésticos e muito menos entender da economia dos supermercados. É lamentável que tenhamos um presidente machista cuja primeira-dama tem pouca fala e é apresentada como um troféu de mulher bela, recatada e do lar. Esse conceito de que a mulher pertence somente ao lar na submissão do seu marido ou pai, isso se situando a mulher como condição de esposa ou filha, está enraizado na sociedade em que a ética religiosa ditava os seus princípios e condutas em que a mulher é um objeto sem vontade. 

O dia da mulher não é somente no dia 08 de março, é todo dia, uma batalha diária para afirmar o poder e a importância da mulher na sociedade, uma luta contra a violência doméstica, conquistar em pequenos passos o espaço em todos os meios econômicos e empregatícios em diversas áreas para além das humanas incluindo também as exatas. Independente da sua identidade de gênero estamos todas e todos juntos nessa luta pelos direitos igualitários que no fim acaba favorecendo não somente à mulher mas também ao homem que também é vitima do machismo. Em relação as mulheres digo que sejamos livres, de mente aberta, em constante processo de desconstrução do machismo, empoderadas com atitudes e opiniões próprias, ter a escolha em se maquiar ou não, independentes e autossuficientes em que podemos nos sustentar sem depender de ninguém, ou se no caso de casadas ter a própria renda para pagar as suas contas. 

Se esse texto saiu repetitivo principalmente nos conceitos "mulher" e "preconceito contra a mulher" foi proposital, é algo que precisa ser dito várias vezes para que não sejamos mais vítimas da misoginia e não sermos mais alvos de piadas machistas que denigrem a nossa imagem nos comparando a um objeto de enfeite sem inteligência e fala. Sou mulher, não sou mulher, sou do gênero não-binário, não importa como que eu me sinta de acordo com o meu dia, não importa o que eu vista ou se deixo de usar maquiagem, eu mereço ser respeitada, tenho o direito em me declarar feminista, tenho a minha voz e não posso ser silenciada.

JANAINA RAMOS


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