JEANNOT E COLIN

VOLTAIRE

Várias pessoas dignas de fé viram Jeannot e Colin na escola da cidade de Issoire, no Auvergne, famosa em todo o Universo por seus colégios e seus tachos. Jeannot era filho de um conhecido vendedor de mulas, e Colin devia seus dias a um bravo lavrador dos arredores, que cultivava a terra com quatro animais e que, depois de haver pago a talha, mais o imposto adicional, e as gabelas, o soldo por libra, a capitação e os vigésimos, não se encontrava lá muito riso ao fim do ano.

Jeannot e Colin eram muito bonitos para auvernheses; estimavam-se muito e tinham dessas pequenas intimidades, dessas pequenas confidências que a gente sempre relembra com agrado, quando torna a encontrar-se mais tarde.


Estava para findar o templo de seus estudos, quando um alfaiate trouxe a Jeannot uma roupa de veludo de três cores, com uma jaqueta leonesa de excelente gosto: vinha tudo acomponhado de uma carta para o Sr. de La Jeannotière. Colin admirou a roupa, sem sentir inveja; mas Jeannot tomou um ar de superioridade que afligiu Colin. Desde esse momento Jeannot não estudou mais, olhava-se ao espelho e desprezava a todo mundo. Algum tempo depois, chega um criado de diligência e traz uma segunda carta para o Sr. Marquês de La Jeannotière: era uma ordem do senhor seu pai para que o senhor seu filho se dirigisse a Paris. Jeannot subiu para o carro, estendendo a mão a Colin com um nobre sorriso protetor. Colin sentiu o seu próprio nada e chorou. Jeannot subiu para o carro, estendendo a mão a Colin com um nobre sorriso protetor. Colin sentiu o seu próprio nada e chorou. Jeannot partiu em toda a pompa da sua glória.

Os leitores que gostam de instruir-se devem saber que o Sr. Jeannot pai adquirira uma fortuna imensa nos negócios. Indagais como se fica assim tão rico? Mera questão de sorte. O Sr. Jennot era bem parecido, sua mulher também, e ainda estava bastante viçosa. Foram ambos a Paris, devido a um processo que os arruinava, quando a sorte, que eleva e rebaixa os homens a seu bel-prazer, apresentou-se à esposa de um empreiteiro dos hospitais militares, homem de grande talento e que podia gabar-se de haver liquidado mais soldados em um ano do que o canhão dez. Jeannot agradou a madame; a mulher de Jeannot agradou a monsieur. Em breve Jeannot participava da empresa; meteu-se em outros negócios. Quando a gente está na correnteza, é só deixar-se carregar; e faz-se sem trabalho uma imensa fortuna. Os pobretões que, da margem, nos vêem vogar a todo o pano arregalam os olhos; não atinam como pudemos vencer; invejam-nos pura e simplesmente e escrevem, contra nós, panfletos que não lemos. Foi o que aconteceu a Jeannot pai, que em breve se transformou em Sr. de Le Jeannotière e que, tendo adquirido um marquesado ao cabo de seis meses, retirou da escola o senhor marquês seu filho, para introduzi-lo na alta sociedade de Paris.

Colin, sempre tenso, escreveu uma carta de cumprimentos a seu antigo camarada, enviando-lhe "estas linhas para congratular-me..." O marquesinho não lhe deu resposta. Colin adoeceu de pesar.

O pai e a mãe deram primeiro um preceptor ao jovem marquês: esse preceptor, que era um homem da alta e que nada sabia, não pode ensinar coisa alguma a seu pupilo. Monsieur queria que o filho aprendesse latim, madame não o queria. Tomaram por árbitro um autor que era então famoso por obras agradáveis. Convidaram-me a jantar. O dono da casa começou por lhe dizer:

- O senhor, que sabe latim e que é um homem da corte...

- Eu, senhor, latim?! Não sei uma palavra de latim e me deu muito bem com isso: é claro que se fala muito melhor a própria língua quando não se divide a aplicação entre ela e as línguas estrangeiras. Veja todas as nossas damas: tem um espírito mais agradável que o dos homens; as suas cartas tem cem vezes mais graça; e, se nos levam essa vantagem, e porque não sabem latim.

- Pois não tinha eu razão? - disse madame. - Eu quero que o meu filho seja um homem de espírito, que obtenha sucesso na sociedade; e bem se vê que, se soubesse latim, estaria perdido. Acaso se representa comédia e ópera em latim? Pleiteia-se em latim, quando se tem um processo? Ama-se em latim?

Monsieur, ofuscado com essas razões, abdicou, e ficou assentado que o jovem marquês não desperdiçaria tempo em conhecer Cicero, Horácio e Virgílio.

- Mas que aprenderá ele então? - insistiu. - Pois é preciso que saiba alguma coisa. Não se poderia ministrar-lhe um pouco de geografia?

- De que lhe serviria? - retrucou o preceptor. - Quando o senhor marquês foi visitar suas terras, acaso os postilhões não saberão o caminho? Certamente que não hão de extraviá-lo. Não se tem necessidade de um esquadro para viajar, e vai-se muito comodamente de Paris ao Auvergne sem que seja preciso tirar a latitude.

- Tem razão - replicou o pai. - Mas ouvi falar de uma bela ciência que se chama, creio eu, astronomia.

- Qual! - disse o preceptor. - Quem é que se guia pelos astros neste mundo? E será preciso que o senhor marquês se mate em calcular um eclipse quando o encontra indicado no almanaque, o qual, ainda por cima, o informa das festas móveis, a idade da Lua e de todas as princesas da Europa?

Madame ficou de pleno acordo com o precpetor. O marquesinho estava no auge da alegria; o pai hesitava.

- Mas que se deve então ensinar a meu filho? - dizia ele.

A ser amável - respondeu o amigo a quem consultavam. - E, se sabe os meios de agradar, saberá tudo: é uma arte que aprenderá com a senhora sua mãe, sem que nenhum dos dois se dê o mínimo trabalho.

Madame, a estas palavras, beijou o gracioso ignorante, e disse-lhe:

- Bem se vê que o senhor é o homem mais sábio do mundo; meu filho lhe ficará devendo toda a sua educação. Imagino que não ficaria mal se ele soubesse um pouco de história.

- Mas para que serve isso, madame? Só é agradável e útil a história do dia. Toda as histórias antigas, como o dizia um de nossos talentos, são apenas fábulas admitidas; e, quanto às modernas, são um verdadeiro caos que não se pode destrinçar. Que importa ao senhor seu filho que Carlos Magno haja instituído os doze pares da França e o seu sucessor fosse gago?

- Muito bem! - exclamou o preceptor. - Abafa-se o espírito das crianças sob esse amontoado de conhecimentos inúteis; mas, de todas as ciências, a mais absurda, a meu ver, e a mais capaz de abafar toda espécie de gênio, é sem dúvida a geometria. Essa ciência ridícula tem por objeto superfícies, linhas e pontos que não existem na natureza. Faz-se passar, em espírito, cem mil linhas curvas entre um círculo e uma linha reta que o toca, embora na realidade não se lhe possa meter um fio de linha. A geometria, na verdade, não passa de uma brincadeira de mau gosto.

Monsieur e madame não compreendiam muito bem o que queria dizer o precpetor, mas mostraram0se de pleno acordo.

- Um senhor como o jovem marquês - continuou ele - não deve secar o cérebro nesses vãos estudos. Se um dia tiver necessidade de um sublime geômetra para fazer o levantamento de suas terras, mandá-las-à medir a dinheiro. Se quiser evidenciar a antiguidade de sua nobreza, que remonta aos mais afastados tempos, mandará buscar um beneditino. O mesmo acontece com todas as artes. Um jovem senhor de bom nascimento não é um pintor, nem músico, nem arquiteto, nem escultor; mas faz florescerem todas as artes, animando-as com a sua munificência. Mais vale sem dúvida protegê-las que as exercer; basta que o senhor marquês tenha bom gênio; compete aos artistas trabalharem para ele; eis por que há muita razão em dizer-se que as pessoas de qualidade (refiro-me às bastante ricas) sabem tudo sem nada ter aprendido, pois, com o tempo, são capazes de julgar todas as coisas que encomendam e pagam.

O amável ignorante tomou então a palavra e disse:

- Madame observou muito bem que o grande objetivo do homem é triunfar na sociedade. Mas, falando com sinceridade, será com as ciências que se obtêm esse triunfo? Alguém já se lembrou de falar sobre geometria em boa sociedade? Acaso se pergunta a um homem às direitas que astro se ergue hoje com o Sol? Quem é que se informa, numa ceia, se Clódio, o cabeludo, atravessou o Reno?

- Certamente que não! - exclamou a Marquesa de La Jeannotière, cujos encantos a tinham às vezes introduzido na alta sociedade. - E o senhor meu filho não deve acabar seu engenho no estudo de toda essa trapalheira. Mas, afinal que lhe mandaremos ensinar? Pois é bom que um jovem fidalgo possa brilhar de vez em quando, como diz o senhor meu marido. Ouvi um padre dizer que a mais agradável das ciências era uma coisa de que esqueci o nome, mas que começa por b.

- Por b, madame? Não será botânica?

- Não, não era de botânica que ele me falava; começava por b e acabava por ões.

- Ah! compreendo, madame; trata-se da ciência dos brasões: é na verdade uma ciência muito profunda; mas passou de moda depois que se perdeu o costume de mandar pintar as armas nas portas da carruagem: era o que poderia haver de mais útil em um Estado devidamente civilizado. Aliás, esses estudos não findariam nunca; não há hoje barbeiro que não tenha o seu escudo; e madame bem sabe que o que se torna comum é pouco apreciado.

Afinal, depois de examinadas as vantagens e desvantagens das ciências, ficou resolvido que o marquês aprenderia a dançar.

A natureza, que faz tudo, dera-lhe um talento que logo se desenvolveu com prodigioso sucesso: o de cantar agradavelmente vaudevilles. As graças da mocidade, aliadas a esse dote superior, fizeram-no ser considerado um dos jovens mais esperançosos da cidade. Foi amado das mulheres, e, tendo a cabeça cheia de canções, fê-las aos centos para as suas namoradas. Pilhava Bacchus et l'Amour em um vaudeville, la nuit et le jour em outro, les charmes et les larmes em um terceiro. Mas, como sempre havia em seus versos alguns pés de mais ou de menos do que cumpria, mandava-os corrigir a vinte luíses por produção: e foi posto na Année Litéraire***, ao lado dos La Fare, dos Chaulieu, dos Hamilton, dos Sarrasin e dos Voiture.

A senhora marquesa julgou então ser mãe de um bel esprit, e deu para oferecer jantares a todos os beaux espritis*** de Paris. Isso logo virou a cabeça do jovem, que adquiriu a arte de falar sem entender-se e aperfeiçoou-se no hábito de não prestar para coisa alguma. O pai, quando o viu tão eloquente, sentiu não lhe ter mandado ensinar latim, pois nesse caso lhe compraria um alto cargo de justiça. A mãe, que tinha sentimentos mais nobres, encarregou-se de solicitar um regimento para o filho; e este, enquanto o regimento não vinha, dedicava-se ao amor. O amor é às vezes mais caro que um regimento. Gastou muitíssimo, enquanto seus pais tampouco olhavam as despesas, para viverem como grão-senhores.

Ora, tinham eles como vizinha uma viúva moça e nobre, que resolveu salvar a fortuna do Senhor e da Senhora de La Jeannotière, apropriando-se dela e desposando o jovem marquês. Soube atraí-lo à sua casa, deixou-se amar, deu-lhe a entender que não lhe era indiferente, governou-o pouco a pouco, encantou-o, subjugou-o sem dificuldade. Ora o elogiava, ora lhe dava conselhos; tornou-se a melhor amiga do pai e da mãe. Uma velha vizinha propôs o casamento; os pais, deslumbrados com o esplendor de tal aliança, aceitaram com alegria a proposta: dera o seu filho único à sua amiga íntima. O jovem marquês ia desposar uma mulher a quem adorava e por quem era amado; os amigos da casa o felicitavam: iam redigir as cláusulas, enquanto se trabalhava no enxoval e no epitalâmio.

Estava ele, certa manhã, aos joelhos da encantadora esposa que o amor, a estima e a amizade lhe iam dar; gozavam, num terno e animado colóquio, as primícias de sua ventura; arquitetavam uma existência deliciosa, quando entra alarmado um camareiro da senhora mãe.

- Diferentes notícias lhes trago - assim os interrompe ele; - os meirinhos despejam a casa de monsieur e de madame; tudo está sendo sequestrado pelos credores; fala-se até de prisão, e eu vou tomar providência para que me paguem os meus ordenados.

- Espera! Que me dizes? Que história é essa?! - exclama o marquês.

- Anda, vai já punir estes malandros! - incita-o a viúva.

Corre, chega a casa: o pai já estava preso, todos os criados haviam fugido, cada um para o seu lado, carregando com tudo o que podiam. A mãe achava-se sozinha, sem amparo, sem consolação, afogada em pranto: nada mais lhe restava que a lembrança da sua fortuna, da sua beleza, das suas faltas e das suas loucas despesas.

O filho, depois de haver longamente chorado com a mãe, afinal lhe disse:

- Não desesperemos, a viúva me ama loucamente, é ainda mais generosa que rica, respondo por ela; espere, que vou buscá-la.

Volta, pois, à casa da noiva: encontra-a em colóquio com um jovem oficial muito amável.

O marquês, pasmado, com a cólera no coração, foi procurar o antigo precpetor, derramou-lhe no peito as suas dores e pediu-lhe conselhos. Este lhe propôs fazer-se, como ele, preceptor de meninos. - Ai de mim! nada sei; o senhor não me ensinou coisa alguma, e foi o primeiro fator da minha desgraça. - E rompia em soluços, enquanto assim lhe falava. - Escreva romances - disse um bel esprit que se achava presente. - É um ótimo recurso em Paris.

O jovem, mais desesperado do que nunca, correu ao confessor de sua mãe. Era um teatino muito acreditado, que só dirigia senhoras da alta sociedade. Logo que avistou Jeannot, precipitou-se para este:

- Meu Deus, senhor marquês! Onde está a sua carruagem? Como passa a respeitável senhora marquesa sua mãe?

O pobre infeliz contou-lhe o desastre da família. À medida que ele se explicava, o teatino assumia um ar mais grave, mais alheado, mais imponente:

- Meu filho, eis aonde Deus queria chegar: as riquezas só servem para corromper o coração. Com que então Deus concedeu à sua mãe a graça de reduzi-la à mendicidade?

- Sim, meu padre?

- Tanto melhor: agora ela pode ter certeza da sua salvação.

- Mas, meu padre, enquanto se espera, não haveria meio de obter algum socorro neste mundo?

- Adeus, meu filho; está uma dama da côrte à minha espera.

O marquês esteve a ponto de desmaiar; seus amigos trataram-no mais ou menos da mesma maneira e, numa só tarde, aprendeu melhor a conhecer o mundo do que em todo o resto da sua vida.

Estando assim acabrunhado pelo desespero, viu que se aproximava um carro antigo, espécie de aranha coberta, com cortinas de couro, seguido de quatro enormes carroças completamente carregadas. Achava-se no carro um homem grosseiramente vestido; tinha um rosto redondo e fresco, que respirava brandura e alegria. Sua mulherzinha, morena, e também rústicamente agradável, era sacudida a seu lado. O veículo não corria como a carruagem de um peralvilho. O viajante teve tempo de sobra para contemplar o marquês imóvel, abismado na dor.

- Meu Deus! - exclamou ele. - Creio que é Jeannot.

A este nome, o marquês ergue os olhos, o carro detém-se.

- É Jeannot mesmo. É Jeannot!

E o homenzinho rechonchudo corre, de um salto, a abraçar o seu antigo camarada. Jeannot reconhece Colin; a vergonha e as lágrimas cobrem-lhe as faces.

- Tu me abandonaste - diz Colin -, mas, por mais fino que estejas agora, eu sempre te estimarei.

Jeannot, confuso e enternecido, contou-lhe, entre soluços, uma parte da sua história.

- Anda comigo à hospedaria para contar-me o resto - diz-lhe Colin -, abraça a minha mulherzinha e vamos jantar juntos.

Seguem os três a pé, seguidos da bagagem.

- Que trazes aí? Tudo isso é teu?

- Meu e de minha mulher. Venho do interior; dirijo uma boa manufatura de ferro estanhado e cobre. Desposei a filha de um rico negociante de utensílios necessários aos grandes e aos pequenos; trabalhamos muito; Deus nos ajuda; não mudamos de condição, estamos bem, e ajudaremos ao nosso amigo Jeannot. Não sejas mais marquês; as grandezas deste mundo não valem um bom amigo. Voltarás comigo à nossa terra, aprenderás meu ofício; não é muito dificultoso; eu te darei sociedade, e viveremos alegremente no pedaço de terra onde nascemos.

Jeannot, desconcertado, sentia-se dividido entre a dor e a alegria, a ternura e a vergonha; e dizia baixinho: "Todos os meus amigos da alta me traíram, apenas Colin, a quem desprezei, vem em meu socorro. Que lição!" A magnanimidade de Colin animou as generosas inclinações de Jeannot, que a sociedade ainda não destruíra. Sentiu que não podia abandonar o pai e a mãe. - Cuidaremos da tua mãe - disse Colin -, e, quanto ao velho, que está preso, eu cá entendo um pouco de negócios; seus credores, vendo que ele não tem mais nada, hão de contentar-se com pouco; deixa a coisa comigo. - Tanto fez Colin, que tirou o pai da prisão. Jeannot voltou para a sua terra, com os pais, que retornaram a sua primeira profissão. Jeannot desposou uma irmã de Colin, a qual, tendo o mesmo gênio do irmão, fê-lo muito feliz.

E Jeannot pai, e Jeannotte mãe, e Jeannot filho viram que a ventura não está na vaidade.

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