HISTÓRIAS DE ZEUS

Depois dos homens do banquete de Licáon, Zeus (Júpiter) decidiu que toda a humanidade merecia morrer. Os outros deuses pensaram, cheios de ansiedade, nos seus templos e festivais. Quem asseguraria que o cheiro doce doce do sacrifício continuaria a elevar-se do Olimpo, não havendo seres humanos? Quem ficaria para adorar os deuses? Então Zeus prometeu que a raça humana não desapareceria completamente. Ele haveria de encontrar um modo de fazer surgir uma nova espécie de humanos, pessoas que consagrassem aos deuses o respeito que lhes é devido e honrassem todos os festivais com os rituais próprios.

Zeus estava de pé no Monte Olimpo, com o raio na mão, escolhendo o alvo. Preparava-se para lançar o raio sobre a praça do mercado da cidade mais próxima quando se lembrou de uma profecia que afirmava estar a Terra condenada a acabar em fogo. Com todo o cuidado, pousou a arma, pois ele queria purificar o mundo e não destruí-lo totalmente. "Que sejam as águas a arrastar a minha vingança e que depois amainem" - decretou ele - "para que a vida possa regressar uma vez mais." Enquanto ele falava, os ventos começaram a soprar uma tempestade. O Vento do Sul amontoou nuvens negras que lançaram as suas chuvas sobre a terra. As cearas foram arrastadas; nesse ano, toda a humanidade teria fome. Mas Zeus não estava ainda satisfeito com esta vingança. Ele não queria apenas ferir a difícil raça humana, mas sim afogar quase todos os seus elementos.



Chamou o irmão Posídon (Neptuno), senhor do mar. Este ordenou que todos os rios e ribeiros do mundo se inundassem, e depois bateu com o seu tridente na superfície da terra. Posídon também é conhecido como o Tremor da Terra, e, nesse dia, ele abanou a terra até ela se abrir e deixar o mar invadi-la. Ondas gigantescas rebentavam contra a terra. Cidades eram arrastadas pelas águas. Nenhum templo, nenhum palácio conseguia resistir de existir, não havia lugar onde se pudesse encontrar um refúgio em terra sólida e, quando as pessoas tentavam escapar à tempestade refugiando-se em barcos, acabavam por morrer de fome no oceano.


Deucalião e Pirra

Quase todos os humanos estavam agora mortos. Apenas duas pessoas. Deucalião e Pirra, estavam vivos, boiando no oceano num pequeno barco, e Zeus sabia que se queria que a raça humana sobrevivesse, tinha de deixar estes dois com vida. Deucalião era filho de Prometeu e Pirra filha de Epitemeu, mas nunca foram nem desobedientes nem estúpidos. Na verdade, eram o melhor dos humanos e sempre dispostos a homenagear os deuses. Seriam por certo os melhores pais para a nova raça de seres humanos.

Pouco a pouco, o oceano começou a acalmar e voltaram a ver-se os mais altos picos das montanhas. À medida que a inundação baixava, os dois cumes do Monte Parnaso que, anteriormente e aquando do dilúvio, se ergueram suficientemente altos nos céus para picarem as nuvens, agora encontraram-se à superfície do oceano e o pequeno barco encaixou-se entre eles. A primeira coisa que Deucalião e Pirra fizeram foi dar graças aos deuses pelo seu auxílio, enquanto viam as águas baixarem e a montanha voltar a crescer.

A partir do ponto alto na montanha em que se encontravam Deucalião e Pirra podiam vislumbrar os campos ao longe. Puderam ver os rios voltar a correr dentro das suas margens e as árvores a sacudirem a lama das folhas. Podiam agora ver o templo de Témis em ruínas, mas não havia quaisquer sinais de seres humanos vivos sobre a Terra. Desceram então ao Rio Cefiso e espalharam umas gotas das suas águas sobre as roupas e cabelos úmidos, como sinal de respeito pela deusa. Depois, ajoelharam junto do templo orando para que Témis os ajudasse a salvar a raça humana da extinção.

Témis é uma deusa gentil com uma reconhecida habilidade para prever o futuro e que anunciou a Deucalião e Pirra: "Têm de se afastar do templo, cobrirem as vossas cabeças e soltarem as vossas roupas, atirando para trás das costas os ossos da vossa mãe." Pirra ficou completamente aterrada com a idéia de escavar a sepultura da mãe e atirar fora os ossos dela, mas, de repente, lembrou-se que os oráculos costumam expressar-se por enigmas. Juntamente com Deucalião, Pira analisou as ordens da deusa. "A mãe de que a deusa fala, deve querer dizer a antepassada de todos nós, Geia, a deusa de terra, e os ossos da mãe devem ser as pedras do chão."

Nem Deucalião nem Pirra estavam seguros de que fosse este o significado do oráculo, mas não lhes ocorria uma melhor interpretação para as suas palavras. Com as cabeças cobertas e as roupas mais soltas, apanharam pedras do chão enlameado e começaram a afastar-se do templo. A cada passo que davam, atiravam uma ou duas pedras para trás das costas. Quando cada uma delas caía na lama, começava a mudar de forma e a ficar maior. Começavam a parecer-se com imagens grosseiras em mármore, depois como estátuas em tamanho real e, finalmente, ganhavam calor e começavam a respirar. Cada uma das pedras que Pirra atirava para trás das costas transformava-se numa mulher, e as que eram lançadas por Deucalião tornavam-se em homem. Esta é a razão pela qual as pessoas da Terra são fortes e duras, é que a sua origem está nas pedras fortes e duras do Parnaso.


Zeus é o ar, Zeus a terra, Zeus todas as coisas e o que transcedem tudo.
ÉSQUILO (525 AC-456 AC)

FRAGMENTOS
Zeus e Io

Io filha do deus do rio, Ínaco, tornou-se sacerdotisa de Hera (Juno), que era a deusa do casamento e tinha muitas razões de queixa de seu real marido, Zeus. Este apaixonou-se por Io, o que era completamente inadmissível e tentou persuadi-la a deitar-se com ele em segredo nos bosques de Lerna. Io ficou horrorizada com a ideia e fugiu o mais depressa que pôde, mas Zeus espalhou nuvens de chuva sobre os campos que escureceram como se fosse noite, o que fez com que ela não conseguisse ver para onde ia. Quando parou de correr, ele arrebatou-lhe a virgindade à força.

Hera que olhava do alto do palácio do Olimpo, reparou numa mancha de escuridão sobre Argos, enquanto no resto do mundo o Sol brilhava. Ocorreu-lhe logo que isso se deveria a um dos estratagemas de Zeus, pelo que desceu rapidamente à Terra e ordenou ao Sol que dispersasse as nuvens. Quando se fez luz, ele não conseguiu ver sinal de nenhuma mulher ou ninfa. Ali, nos campos, estava uma bela bezerra branca, e ao lado encontrava-se Zeus, o marido. Os olhos do animal olharam para ela com uma expressão quase humana, e a deusa perguntou a si mesma se ela não poderia ser a sua rival, metamorfoseada de animal para a enganar. "Dá-me esta bela criatura como presente." - pediu ela a Zeus. E, como ele não encontrou nenhuma boa desculpa para recusar, deu-lhe a bezerra.

Hera convenceu-se de que a bezerra era a sua sacerdotisa desaparecida, Io, e pensou que Zeus poderia tentar roubá-la de novo, pelo que entregou a criatura a Argos para que a guardasse de noite e de dia. Argos tinha cem olhos e nunca estava completamente acordado tal como nunca ficava totalmente adormecido. Os olhos dormiam por turnos, pelo que alguns deles estavam sempre vigilantes, e os olhos na parte detrás da cabeça significavam que ninguém podia surpreendê-lo por trás.

Io odiava o seu novo corpo. Detestava comer erva e deitar-se no chão duro ao ar livre. Parou junto às margens do Rio Ínaco e tentou explicar ao deus rio quem era, mas não conseguiu pronunciar as palavras dos humanos. Então, escreveu o nome na lama com os cascos, e o deus rio chorou pelo destino da sua querida filha.

Zeus observava à distância, ansiando por libertar Io dos problemas que lhe tinha causado. Enviou então o filho Hermes (Mercúrio), o astuto, para matar o Argos dos cem olhos. Hermes não tentou combater Argos, limitando-se a aproximar-se, tocando flauta. Sentou-se depois perto dele, tocando doces melodias até que todos os cem olhos se fecharam. Logo que Argos adormeceu, Hermes cortou-lhe a cabeça. Hera pegou nesses cem olhos do seu servo fiel e colocou-os nas penas da cauda da sua ave, o pavão. Esta é a razão do pavão macho ter aquela esplêndida e única plumagem.

Hera estava já furiosa com Zeus por trair o leito matrimonial assim como com Io por ter abandonando os seus votos de sacerdotisa (pouco interessa ter sido raptada pelo deus). Depois, com a morte de Argos, ela ficou ainda mais furiosa e decidiu atormentar Io. Mandou então um moscardo, desses que picam o gado na época do tempo quente, e este perseguiu Io através de um e outro país, sem lhe dar descanso. Ela percorreu as costas de um mar cujo nome lhe tinha sido posto em sua homenagem, o Mar Jónico (Iónico). Atravessou a nado e o estreito que liga o Mar Negro e o Mediterrâneo, e é por isso que ele se chama Bósforo, uma palavra que em grego significa "o estreito da vaca". Trepou os socalcos do Monte Cáucaso, onde encontrou Prometeu, acorrentado à rocha. Chegou mesmo até ao Nilo, onde a pobre bezerra se ajoelhou e orou pedindo a Zeus que a ajudasse.

Zeus jurou a Hera pelas águas do Estisge que passaria a ser melhor marido se ela permitisse que Io voltasse a ter a forma humana. Um juramento que invoca o Rio Estige compromete-nos a todos, deuses e mortais. Hera decidiu deixar passar a sua fúria e os seus ciúmes, e Io voltou a ter a forma humana. Agora ela é deusa por direito próprio, sendo adorada no Egipto, e o seu filho de Zeus chama-se Épafo.


Calisto

Calisto era uma companheira de Ártemis (Diana), a deusa da caça, e juntamente com todas as outras virgens do seu séquito, tinha jurado nunca ter qualquer interesse sexual por nenhum macho, quer fosse homem ou fauno, sátiro ou deus. Zeus viu-a e desejou-a apaixonadamente, mas, como ele sabia que ela jamais aceitaria um amante macho, disfarçou-se de Ártemis. Calisto não se interessava por este disfarce, até que Zeus a forçou a aceitá-lo e ela não conseguiu defender-se. Calisto tentou manter em segredo a sua votação, mas não tardou a ser muito difícil esconder o facto de estar grávida. Num dia quente, Ártemis convidou todas as companheiras para tomarem banho com ela num ribeiro fresco. Calisto despiu-se como todas as outras e, de imediato, a deusa notou o inchaço da sua barriga e mandou-a embora, ordenando-lhe que nunca mais a acompanhasse na caça.

Esse banimento era uma punição suficientemente grave para ser possível esconder o que tinha sucedido à deusa virgem, mas Calisto teve ainda de enfrentar também a ira de Hera. Esta soube que Calisto tinha dado à luz o filho de Zeus, Árcade, e desceu do Olimpo para destruir a rival. Agarrou-a pelos cabelos e puxou-os com toda a força. Em seguida, a ciumenta deusa fez com que a forma humana de Calisto se transformasse na assustadora forma de uma ursa, com um enorme focinho e dentes perigosos, pernas fortes e garras capazes de desfazerem um homem em tiras. Calisto estava aterrada com a perda de toda a felicidade passada e o seu sofrimento aumentou ainda mais quando descobriu que ela era agora aterrorizada por caçadores e cães.

Durante 15 anos, Calistro sofreu imenso como grande urso até ao dia em que filho Árcade andava a caçar na floresta. Ele não sabia o que tinha sucedido à mãe e, assim, quando viu o urso, ficou aterrorizado. Calisto reconheceu logo o filho e tentou falar com ele, mas o que saiu da sua boca foi um assustador ronco. Árcade pegou então na sua lança de caçador e preparou-se para matar o urso, quando este se aproximou, sem o atacar nem se defender. A sua pontaria não podia falhar.

Exatamente no momento em que Árcade arremessava a lança em direção ao coração do urso, Zeus agarrou-lhe a mão evitando que matasse a própria mãe. O deus transportou então os dois para os céu onde a transformou na grande constelação Ursa Maior, e ao filho na pequena Ursa Menor.

Hera ficou ainda mais furiosa que anteriormente. A sua rival não só podia vangloriar-se de ter um filho de Zeus como agora brilhava gloriosa nos céus durante a noite. Na sua ira e frustração, Hera requereu a assistência dos Titãs Oceano e Tétis, pedindo-lhes que encontrassem uma forma de evitar que a Ursa Maior descesse abaixo do horizonte no oceano que circunda o mundo. Os Titãs concordaram com a exigência de Hera, e é por essa razão que no céu noturno do Hemisfério Norte, a visível constelação Ursa Maior nunca desce abaixo do horizonte.

Comentários

  1. Em quase todos os mitos se encontram histórias belissimas que a tradição trouxe até aos nossos dias sob a frma de lendas que alguns povos chegam a acreditar terem existido. Se tentarmos entender bem essas histórias da mitologia veremos que encerram sempre lições destinadas a fazer entender alguns dos maiores mistérios do Universo.
    Um beijinho,
    Maria Emília

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