TRECHOS LITERÁRIOS - 03 e 04/02/2017

Havia um cheiro de morte no quarto; um cheiro pesado, doce e desagradável, que se agarrava às coisas. Fazia-a lembrar dos filhos que tinha perdido, de seu querido Bran e do pequeno Rickon, mortos pelas mãos de Theon Greyjoy, que fora protegido de Ned. Ainda sofria por Ned, sofreria sempre por ele, mas ter roubados também os seus bebês...
- Perder um filho é uma crueldade monstruosa - sussurrou suavemente, mais para si do que para o pai.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN


Todos os seus pensamentos estão no mal que lhe fez, agora que o tempo dele fica mais curto. Meistre Vyman diz que não se atreve a fazer o leite de papoula mais forte. É hora de o pai pousar a espada e o escudo. É hora de ele descansar. Mas continua a lutar, desesperadamente, não quer ceder. É por você, penso eu. Precisa do seu perdão. A guerra tornou perigosa a estrada entre Ninho da Águia e Correrio, eu sei, mas decerto uma poderosa força de cavaleiros seria capaz de trazê-la em segurança através das Montanhas da Lua, não? Uma centena de homens, ou um milhar? E se não puder vir, não poderia pelo menos escrever a ele? Algumas palavras de amor, para que possa morrer em paz? Escreva o que quiser e eu lerei para ele, aliviando seu percurso.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Sabia que devia estar mais assustada do que estava. Tinha só dez anos, uma garotinha magricela num cavalo roubado com uma floresta escura à sua frente e atrás dela homens que, de bom grado, cortariam seus pés. Mas, sem saber por que, sentia-se mais calma do que jamais se sentira em Harrenhal. A chuva tinha lavado de seus dedos o sangue do guarda, trazia uma espada a tiracolo, havia lobos percorrendo as trevas como esguias sombras cinzentas, e Arya Stark não tinha medo. O medo corta mais profundamente do que as espadas, sussurrou bem baixinho as palavras que Syrio Forel havia lhe ensinado, e também as palavras de Jaqen, valar morghulis.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Ela não era uma garotinha no sonho; era uma loba, enorme e poderosa, e quando emergiu de sob as árvores, diante deles, e lhes mostrou os dentes, num rosnido grave e trovejante, sentiu o fedor repulsivo do medo que exalavam tanto os cavalos como os homens. A montaria do liseno empinou-se e berrou o seu terror, e os outros gritaram uns para os outros em fala humana, mas, antes de terem tempo de agir, outros lobos saíram apressadamente da escuridão e da chuva, uma grande matilha, lúgubre, molhada e silenciosa.
A luta foi rápida, mas sangrenta. O homem peludo caiu no momento em que puxava o machado, o escuro morreu encaixando uma flecha no arco, e o homem pálido de Lys tentou fugir. Os irmãos e as irmãs dela caçaram-no e apanharam-no, fazendo-o virar uma vez e mais uma, caindo sobre ele por todos os lados, abocanhando as pernas de seu cavalo e rasgando a garganta do cavaleiro quando ele se estatelou na terra.
Só o homem com os sinos deu luta. O cavalo escoiceou uma de suas irmãs na cabeça, e ele cortou outra quase ao meio, com sua garra curva e prateada, enquanto seus cabelos tilintavam baixinho.
Cheia de raiva, Arya saltou sobre as costas dele, derrubando-o da sela, de cabeça. O maxilar se fechou em seu braço durante a queda, com os dentes afundando através do couro, da lã e da carne macia. Quando chegaram ao chão, ela deu uma violenta sacudida com a cabeça e arrancou o membro. Exultante, abanou-o de um lado para o outro na boca, espalhando as mornas gotículas vermelhas pela fria chuva negra.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

- O Cão de Caça - disse Bronn. - Não morreu, só desapareceu. Os homens de manto dourado dizem que se acovardou e você liderou uma surtida no lugar dele. 
Não foi uma de minhas melhores ideais. Tyrion sentiu o tecido da cicatriz repuxar quando franziu a testa. Com um gesto, indicou uma cadeira a Bronn.
- Minha irmã confundiu-me com um cogumelo. Mantém-me no escuro e alimenta-me com merda. Pod é um bom rapaz, mas o nó que tem na língua é do tamanho no Rochedo Casterly, e não confio em metade do que me diz. Mandei-o buscar Sor Jacelyn e ele voltou dizendo que está morto.
- Ele e milhares de outros - Bronn sentou-se.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

- Quero que vá até minha irmã. Seu precioso filho sobreviveu incólume à batalha, de modo que Cersei já não tem necessidade de um refém. Jurou libertar Alayaya assim que...
- Libertou. Há oito, nove dias, depois das chicotadas.
Tyrion endireitou-se, ignorando a súbita punhalada de dor que lhe atravessou o ombro.
- Chicotadas?
- Prenderam-na a um poste no pátio e flagelaram-na, e depois empurraram-na pelo portão afora, nua e ensanguentada.
Ela estava aprendendo a ler, pensou Tyrion, absurdamente. No rosto, a cicatriz retesou-se, e por um momento sentiu que a cabeça estava a ponto de estourar de raiva. Alayaya era uma prostituta, é verdade, mas raras vezes conhecera garota mais doce, corajosa e inocente do que ela. Tyrion nunca a tocou; não passara de um véu para esconder Shae. Em seu descuido, nunca pensou no que o papel podia custar a ela.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Sabia que morrer seria mais fácil. Tudo que tinha a fazer era rastejar para dentro de sua gruta e deixar que o navio passasse, e a morte iria encontrá-lo. Fazia vários dias que a febre o queimava por dentro, transformando suas tripas em água marrom e fazendo-o tremer num sono inquieto. Cada manhã o encontrava mais fraco. Não demorará muito mais tempo, habituara-se a dizer a si mesmo.
Se a febre não o matasse, a sede certamente o faria. Ali, não tinha água doce além da chuva ocasional que se acumulava em buracos na rocha. Apenas três dias antes (ou teriam sido quatro? Naquele rochedo era difícil distinguir os dias), as poças estavas secas como osso velho, e ver a baía ondulando em verde e cinza por toda a volta quase tinha sido mais do que podia suportar. Sabia que, uma vez que começasse a beber água do mar, o fim chegaria rapidamente, mesmo assim quase tomou o primeiro gole, tão seca estava sua garganta. Uma súbita chuvarada o tinha salvado. Enfraquecera tanto a essa altura que tudo que podia fazer era deitar-se na chuva de olhos fechados e boca aberta, e deixar a água cair sobre seus lábios rachados e sua língua inchada. Mas depois sentiu-se um pouco mais forte, e as poças, falhas e fendas do rochedo tinham voltado a se encher de vida.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

Sede; fome; exposição às intempéries. Eram essas as suas companheiras, presentes a qualquer hora de todos os dias, e com o tempo começou a pensar nelas como amigas. Em breve, uma ou outra de suas companheiras iria se apiedar dele e libertá-lo daquele sofrimento sem fim. Ou talvez ele se limitasse a entrar na água, um dia, e se dirigir à costa que sabia ficar em algum lugar para o norte, para além de sua vista. Era longe demais para nadar, fraco como se encontrava, mas não importava. Davos sempre fora marinheiro; estava destinado a morrer no mar. Os deuses submersos têm estado à minha espera, dizia a si mesmo. Já é mais que hora de ir encontrá-los.

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN

O mesmo povo que me arrancou de cima do cavalo e que teria me matado se não fosse o Cão de Caça. Sansa nada tinha feito para os plebeus a odiarem, não mais do que Margaery Tyrell fizera para conquistar seu amor. Será que ela quer que eu também a ame? Estudou o convite, que parecia ter sido escrito pela mão da própria Margaery. Será que ela deseja a minha bênção? Sansa perguntou a si mesmo se Joffrey estaria ciente daquele jantar. Por tudo que ela sabia, aquilo podia ser obra dele. A ideia encheu-a de medo. Se Joff estivesse por trás do convite, teria alguma partida cruel planejada para envergonhá-la aos olhos da garota mais velha. Iria condenar à Guarda Real que a despisse de novo? Da última vez que fizera isso, o tio Tyrion o impediu, mas o Duende não podia salvá-la agora.
Ninguém pode me salvar, a não ser meu Florian. Sor Dontos tinha prometido que a ajudaria para a fugir, mas não antes da noite do casamento de Joffrey. Os planos estavam em marcha, asseguraram-lhe seu querido e devotado cavaleiro-feito-bobo; nada havia a fazer até lá além de aguentar, e contar os dias.
E jantar com a minha substituta...

A TORMENTA DAS ESPADAS
GEORGE R. R. MARTIN


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