TRECHOS DE LEITURAS DIÁRIAS - 31/01/2017

(...) Nessa época, a maioria das mulheres ostentava essa liberdade de costumes e o relaxamento da moral que assinalaram o reinado de Luís XV. Ou fosse para imitar o tom da monarquia esboroada, ou porque certos membros da família imperial tivessem dado o exemplo, como pretendiam os maldizentes rebeldes do Faubourg Saint-Germain, o que é certo é que homens e mulheres, todos se atiravam aos prazeres com uma intrepidez que fazia pressagiar o fim do mundo. Mas existia, então, um outro motivo para essa licenciosidade. A predileção das mulheres pelos militares tinha-se tornado uma espécie de frenesi, e estava tão de acordo com os desejos do imperador que este de modo nenhum opunha freio algum. (...)

A PAZ CONJUGAL
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(...) Um dos traços dessa época única nos nossos anais, e que a caracterizavam, foi uma paixão desenfreada por tudo que brilhava; jamais houve tanto fogo de artifício, jamais o brilhante alcançou tão grande valor. Os homens, com avidez igual à das mulheres, enfeitavam-se como estas, com aquelas pedrinhas transparentes. Talvez a necessidade de dar à presa a forma mais fácil de ser transportada tornasse as jóias tão estimadas no Exército. Um homem, naquele tempo, não era tão ridículo como o seria hoje quando o peito de sua camisa ou os seus dedos exibiam enormes diamantes. (...)

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(...) As mulheres que se julgavam bastante poderosas, exclusivamente por sua beleza, vinham experimentar seu poder. Ali, como por toda parte, o prazer nada mais era do que uma máscara. Os semblantes serenos e risonhos, as frontes calmas encobriam odiosos cálculos; as manifestações de amizade mentiam, e mais de uma personalidade desconfiava menos dos inimigos que dos amigos. Essas observações eram necessárias para explicar os acontecimentos do pequeno imbróglio, assunto dessa cena, e a pintura, por mais atenuada que seja, do tom que então reinava nos salões de Paris.

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Um desses graciosos, que nunca faltam nas reuniões mundanas, disse ao ver a condessa entrar com o seu cavalheiro: "As senhoras estavam com tanta curiosidade de contemplar um homem fiel à sua paixão quanto os homens de examinar uma linda mulher difícil de prender". (...)

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(...) Protegido por essa espécie de embriaguez que uma mulher se sente sempre mergulhada pela dança e pelo movimento de um baile, no qual os homens se mostram com o charlatanismo da toilette que não lhes empresta menos atrativos que às mulheres, Marcial julgou poder entregar-se impunemente à sedução que o atraía para a desconhecida. Se conseguiu ocultar os primeiros olhares que lançou para a dama de azul à inquieta atividade dos olhos da condessa, não tardou em ser apanhado em flagrante delito; e se conseguiu desculpar uma primeira distração, não pôde justificar o impertinente silêncio pelo qual respondeu mais tarde à mais sedutora pergunta que uma mulher possa fazer a um homem: "Ama-me esta noite?". Quanto mais cismarento se mostrava ele, tanto mais solícita e provocante se tornava ela.

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(...) E, de fato, a sra. de Vaudremont sofria tanta dor quanto fingia estar alegre: acreditava ter encontrado em Marcial um homem de talento, com cujo amparo ela contava para adornar sua vida de todos os encantos do poder: naquele momento reconhecia o erro tão cruel para a sua reputação quanto para o seu amor-próprio. Nela, como nas outras mulheres daquela época, a subitaneidade das paixões lhe aumentava a veemência. As almas que vivem muito, e rapidamente, não sofrem menos do que as que se consomem numa única afeição. (...)

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(...) Há olhares de mulher para mulher que são como fachos trazidos para o desenlace de uma tragédia. (...)

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(...) As paixões que agitavam os dois pares variavam a cada passo naqueles salões animados, manifestando-se com outros matizes em outros semblantes. O espetáculo de tantas paixões ardentes, todas aquelas competições amorosas, aquelas doces vinganças, aqueles cruéis favores, aqueles olhares incendiados, toda aquela vida chamejante expandida em torno deles, eram outros tantos favores que os faziam sentir vivamente a sua impotência. (...)

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(...) Chorou ao lembrar-se dos intensos sofrimentos que de havia muito padecia e estremeceu mais de uma vez ao pensar que o dever das mulheres que querem obter a paz conjugal as obrigava a enterrar no fundo do coração, e sem se lamentarem, angústias tão cruéis quanto as suas.

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