OS PAIS DOS DEUSES

Na mitologia grega não há um deus pai todo-poderoso, imensamente sábio e totalmente bom. Pelo contrário, a história dos deuses do Olimpo é uma intrincada história do crime, de conspiração, de mutilação e assassino. Um deus após o outro reivindica poder soberano, mas o seu apoio na realeza era vacilante. As pinturas e esculturas frequentemente representam os deuses sentados em poses de majestosa confiança, mas os mitos contam uma história diferente.

Como foi que tudo começou nunca foi esclarecido. Haveria um ovo gigante, talvez, do qual saiu Eros (Cupido), o deus do amor? Terá tudo começado como um caos gigantesco de água e lama, fogo e ar, e a partir daí, lentamente, surgiu a Terra? Caos era um deus, cuja esposa era Nix (Nox) a deusa da noite? E o filho de ambos Érebo destronou Caos antes, por sua vez, de ser destronado pelos filhos Éter e Hemera, Luz e Dia? Ou talvez desde sempre tenha existido a deusa da Terra, Geia (ou Ge), que criou os mares, as montanhas e o céu?



Geia e Úrano



GÉIA
Os antigos gregos consideravam a deusa Geia, mãe da Terra, como a que deus deu vida e alimentos aos seus filhos. E ela tinha múltiplos filhos. Da união de Geia com o filho Urano, deus do céu, nasceu uma família de deuses que eram chamados Titãs. Oceano era o deus Titã do grande rio oceânico que para sempre envolve o mundo, e Tétis era a irmã e a esposa.

O Titã Hiperion era o primeiro deus do Sol e a irmã e esposa era Teia. Ceu e Febe deusa da Lua, Crono (identificado pelos romanos com o seu deus Saturno) e Reia (identificada com a deusa Cibele), Crio, Japeto, Témis (deusa da justiça) e Mnemósine (a deusa da memória), completam os restantes 12 Titãs. Geia também gerou os Gigantes de Cem Mãos e os Ciclopes, gigantes cada um deles com um olho no meio da testa. Geia tinha muitos netos, incluindo as Três Parcas, as novas Musas e os dois jovens Titãs, Prometeu e Epimeteu.

Úrano não permitia que os filhos vissem a luz do dia, porque tinha medo do poder que eles tinham. Talvez ele fosse cauteloso em relação a historia da família, Caos destronado pelo filho Érebo e depois este pelos próprios filhos. Embora Úrano reinasse em todos os céus, os filhos e filhas eram forçados a manterem-se no subsolo, acorrentados na escura caverna de Tartaro. Geia enfureceu-se com o marido e encorajou os filhos a conspirarem contra ele. O filho mais novo, Crono (Saturno) proclamou-se rei do mundo após atacar e castrar Urano com uma foice. Atirou os órgãos genitais decepados ao oceano e, no sitio onde caíram, formou-se uma espuma de que nasceu Afrodite (Vênus), a bela deusa do desejo sexual e do amor. Gotas do sangue de Úrano caíram no solo e delas nasceram as Erínias, Fúrias, que atormentam o espírito dos criminosos.

URANO


Como Zeus Destronou o Pai

Crono Devorando o Filho, de Peter Paul Rubens (1577-1640)
Crono era um rei tão medroso como o pai, Úrano, e com maior razão. A mãe, Geia, tinha profetizado que um dos filhos dele haveria de crescer para o destituir, ou talvez as palavras fossem proferidas como uma maldição pela boca do pai mutilado. Crono e Reia tiveram três filhos homens: Posidon (Neptuno), Hades (Pluto) e Zeus (Júpiter); e três filhas: Héstia (Vesta), Hera (Juno) e Deméter (Ceres). Logo que cada um dos filhos nascia, Crono engolia-o inteiro e ele lá permanecia, no estômago, desamparado. Reia estava determinada a fazer com que o marido deixasse de comer os filhos, mas ela tinha medo da sua imensa força. Tinha de o destronar não pela força mas pela astúcia.

Quando estava prestes a pôr no mundo o filho mais novo, Zeus, escondeu uma grande pedra dentro da cama e, quando Crono exigiu a criança, ela entregou-lhe a pedra em seu lugar. Crono deve ter engolido a pedra de uma vez, já que não se apercebeu do embuste, e Reia escondeu o recém-nascido numa gruta. A cobra Amalteia alimentou-o com o seu leite, e as abelhas forneceram-lhe mel. Reia pediu as divindades menores, as Curetes, para protegerem a criança e, quando Zeus chorava, elas faziam tal barulheira com as espadas e escudos, que Crono não ouviu o bebê.

Logo que ele cresceu e teve força suficiente, forçou o pai a vomitar todos os bebês que tinha engolido e, em seguida, atirou-o de novo para o subsolo, para Tártaro. Alguns mitos dizem que Crono não estava aprisionado nas profundezas de Tártaro e que vivia no Eliseu. Os campos de Eliseu são o local onde os mortos afortunados, aqueles que agradaram aos deuses, gozam a mais feliz das existências. O procedimento dele para com os filhos não terá sido do agrado da geração seguinte de deuses, mas, apesar de Crono ter sido o pior dos pais para os próprios filhos, foi um generoso governante da humanidade. A época de Crono é chamada a Idade do Ouro, a era em que a terra produzia alimentos sem haver necessidade de trabalho, os homens não sabiam o que o assassínio e viviam em paz uns com os outros. Logo que Crono foi destronado pelo filho, iniciou-se a Idade da Prata e começou a haver estações do ano. Seguiu-se a Idade do Bronze, uma era de guerra e, finalmente, a Idade do Ferro, uma época de trabalho árduo e de injustiça, de crime e castigo. Esta é a era que toda a humanidade continua a atravessar sofrendo.


A Guerra com os Titãs e outras Dificuldades

Quatro Idades da Vida, de Pietro da Cortona (1596-1664)
Mas antes dos problemas da raça humana terem começado, Zeus teve de negociar com os irmãos e irmãs. Casou com a irmã Hera, deu o domínio do fogo do lar a Héstia e atribuiu a Deméter a responsabilidade das cearas e da fertilidade no mundo. Zeus e os irmãos dividiram entre si o reino do universo. Posídon ficou com o poder sobre os oceanos e Zeus, como irmão mais velho, tornou-se deus dos deuses. Como os filhos de Reia voltaram todos a nascer do estômago do pai, Zeus é considerado como sendo simultaneamente o mais novo e o mais velho dos seus filhos. A Hades foi atribuído o subsolo, mas ele não ficou satisfeito com a sua parte, e é por essa razão que aparece tão pouco nos mitos gregos. Mantinha-se normalmente afastado dos outros deuses que, por sua vez, não estavam interessados em visitar o reino de Hades. A maior parte dos grandes deuses da mitologia grega ocupam os seus lugares no Monte Olimpo (uma montanha verdadeira da Tessália).

Apenas quatro dos filhos de Geia aceitaram Zeus como deus dos deuses. Os restantes entraram em guerra com os deuses do Olimpo e parecia que iriam ganhar unicamente pelo número. Zeus lembrou-se então dos Gigantes das Cem Mãos e dos Ciclopes que continuavam aprisionados em Tártaro. Ofereceu-lhes a liberdade com a condição dos Gigantes das Cem Mãos lutarem ao lado dos deuses do Olimpo, e dos Ciclopes forjarem uma arma a que nenhum deus, nenhum Titã, nem nenhum monstro pudesse resistir. Zeus não tardou a ter a sua arma, os raios, mas mesmo com esta ajuda, passaram 10 anos e até a guerra chegar ao fim e os rebeldes serem lançados a Tártaro.

A guerra contra os Titãs tinha terminado, mas Geia estava zangada com Zeus por se ter apossado do poder dos outros filhos, pelo que deu à luz um gigante de mil cabeças Tifon e a Encélado, que podia respirar fogo e empilhar montanha sobre montanha. Os deuses do Olimpo ficaram aterrados com a visão destes monstros e lançaram-se em fuga para o Egito, disfarçados de animais. Para escapar à atenção de Tífon, Hades cobriu-se com um elmo de invisibilidade, feito para ele pelos Ciclopes. O grande Tífon apanhou Dioniso (Baco) de surpresa nas margens do Nilo e o deus saltou para o rio, transformando-se de imediato numa criatura cujo corpo era uma parte de cabra e outra de peixe; a constelação Capricórnio comemora este acontecimento. Afrodite e Eros disfarçaram-se de peixes, uma transformação que é comemorada pela constelação Peixes. Mesmo Zeus, rei dos deuses, disfarçou-se de carneiro. Só ele encontrou coragem para regressar e combater cada um dos gigantes com a sua nova arma, o raio. A luta foi feroz e, mesmo quando os gigantes foram derrotados, Encéfalo continuou a respirar fogo, estremecendo na sua prisão sob o Monte Etna, o que faz com que este seja um vulcão ativo; sempre que o gigante tenta libertar-se, a terra agita-se e cada vez que respira logo a lava é lançada ao ar.


Os Filhos de Zeus

Pormenor de Zeus lançando os seus Raios, de Giulio Romano (1499-1546)
Zeus era casado com Hera, deusa do casamento, e os filhos de ambos eram o deus da guerra, Ares (Marte) e o deus ferreiro Hefesto (Vulcano). Mas para alem destes, era pai de muitos outros filhos, que, se a mãe fosse uma deusa, nasciam deuses e deusas. Apolo, o deus do sol, e Ártemis (Diana), a deusa da lua e da caça, eram filhos de Zeus e do Leto. Hera era tão ciumenta que proibiu Leto de permanecer em qualquer lugar sólido sobre a terra quando chegou a hora desta dar à luz. Unicamente a ilha flutuante de Ortigia lhe deu santuário e como recompensa foi fixada com pilhares de diamante. Hermes (Mercúrio) era filho de Zeus e da deusa menor Maia, e a donzela Perséfone (Proserpina) era filha de Zeus e de Deméter.

A primeira mulher de Zeus foi a deusa da prudência sábia, a Titã Metis, filha do Oceano e de Tétis. Geia profetizou que, tal como o pai e avô, Zeus viria a ser destituído pelo filho. Disse também que Metis estava destinada a dar à luz primeiramente uma filha de espírito forte e depois um filho que seria o próximo rei dos deuses e dos homens. Zeus encontrou uma forma de evitar esta profecia: engoliu de imediato a Métis grávida, tal como o Pai Crono tinha engolido os filhos, pelo que ela só teve uma filha a qual cresceu dentro do corpo do pai até que um dia ele começou a ter dores insuportáveis na cabeça, a ponto de ordenar a Hefesto que pegasse num machado e lhe abrisse o cérebro. Saiu então a filha, a deusa Atena (Minerva), já totalmente equipada com a armadura e pronta para a batalha.

Embora Atena tenha nascido já como deusa guerreira adulta, não estava interessada em desafiar o pai ou tentar salvar a mãe da mesma forma que Crono tinha desafiado Úrano e Zeus tinha salvo os seus irmãos e irmãs libertando-os do estômago do pai. Quando Zeus engoliu Métis, incorporou na sua vida a prudência e a sabedoria, o que pôs um fim ao ciclo de ressentimentos e desavenças que tinham levado à destituição do pai e do avô e de gerações antes deles. Atena, a filha favorita de Zeus, foi-lhe sempre leal. Era a deusa da habilidade e da astucia, da inteligência e da ingenuidade, e apreciava a partida que o pai tinha pregado às Parcas. Com o nascimento de Atena terminou o ódio assassino e o terror entre pais e filhos da família dos deuses do Olimpo.

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