NOSSO PAI

LEOPOLDO ALAS


I

Não havia outro consolo temporal para a viúva do capitão Jiménez afora a beleza de alma e de corpo que resplandecia em seu filho. Não o podia luzir em passeios e romarias, teatros e saraus, porque respeitava o luto; a tristeza a inclinava à igreja e à solidão, e seus parcos recursos lhe impediam, tão fortemente quanto seu dever, que gastasse em galas, ainda que fossem do menino. Mas não importava: na rua, à entrada da igreja, e até dentro dela, a beleza de Juan de Dios, de pele rosada, cabelereira loura, olhos claros, cheios de precocidade amorosa, úmidos, ideais, encantava a todos os que o viam. Até o senhor Bispo, varão austero que andava pelo templo como que tremendo de santo temor a Deus, mais de uma vez se deteve ao passar rente ao menino, cuja cabeça dourada brilhava sobre o humilde terninho preto como um cálice sagrado entre os panos de enlutado altar; e sem poder resistir à tentação, o bom místico, vencedor de tantas, inclinava-se para beijar a testa daquela doce imagem dos anjos que como um gênio familiar frequentava o templo.

Os muitos beijos que recebia dos fiéis à entrada ou à saída da igreja, de transeuntes de todas as classes na rua, não consumiam nem murchavam as rosas de sua testa e seu rosto; traziam-lhe como um novo brilho, e Juan, humilde até o fundo da alma, com a gratidão pelo carinho geral, afervorava-se em seus instintos de amor a todos e deixava-se acariciar e admirar como uma santa relíquia que começasse a ganhar consciência.


Seu sorriso, ao agradecer, centuplicava sua beleza, e seus olhos se completavam como vivo símbolo da felicidade inocente e piedosa ao ver nos da mãe o mesmo inefável júbilo. A pobre viúva, que por dignidade não podia mendigar o pão do corpo, recolhia com nobre anseio aquela cotidiana esmola de admiração e agasalho para a alma de seu filho, que, entre aquelas flores, mais outras que o jardim da piedade lhe oferecia em casa, ia crescendo viçosa, sem mancha, puríssima, longe de todo mau contato, como se fosse matéria sacramental de um culto que consistisse em cuidar de uma açucena.

Com o hábito de a cada passo levantar a cabeça para deixar-se acariciar o queixo e ajudar, empinando o corpo, as pessoas mais velhas que se inclinavam para beijá-lo, Juan adquirira o costume de caminhar com a testa erguida; mas a humildade dos olhos tirava desse gesto todo indicio de expressão orgulhosa.

II

Como uma abelha sai para o campo a fazer provisão de doçuras para seu mel, Juan apanhava na rua, nessas mostras gerais do que acreditava ser universal carinho, uma colheita de boas intenções, de ânimo piedoso e doce, para o secreto laborar de místicas puerilidades a que se consagrava em casa, bem longe de toda ideia vã, de toda presunção por sua beleza; sempre alheio a si próprio, exceto apenas em sentir os deleites inefáveis que seu único brinquedo de menino pobre oferecia a sua imaginação de santo e a seu coração de anjo; um brinquedo mais feito de fantasias e de engenhosas combinações que de ouro e ouropéis. Seu brinquedo único era seu altar, que era seu orgulho.

Ou eu observo mal, ou as crianças de hoje não costumam ter altares. Compadeço-me principalmente dos que hajam de ser poetas.

O altar de Juan, sua fiesta, como o chamavam na cidadezinha em que vivia, era o poema místico de sua infância, poema feito, se não de pedra como uma catedral, de madeira, chumbo, gesso e, sobretudo, luzes de cera. Tinha-o em um extremo de seu próprio quarto, e, e sempre que podia, tão logo o deixavam a sós, livre, fechava os postigos da janela, fechava a porta e quedava na treva amável, que ia como que perfurando com estrelinhas, que eram os pontos de luz amarelada, suava, das velas de seu santuário, delgadas como juncos, logo consumidas, como frágeis corpos virginais que um amor derrete, pelo fogo. Ajoelhado diante de seu altar, sentado sobre os calcanhares, Juan, artista e místico a um só tempo, amava sua obra, o minúsculo tabernáculo com todos os seus santos de chumbo, seus brilhos de gesso, seus mistérios de musselina e crepe, restos de antigas glórias da mãe, quando brilhava no mundo como a digna esposa de um valente militar; e amava a Deus, o Pai de seus pais, do mundo inteiro, e nesse amor de seu misticismo infantil também adorava, sem saber, sua própria obra, as imagens de inenarrável inocência, frescas, viçosas, da religiosidade nascente, confiante, feliz, sonhadora. O universo, para Juan, devia ser como um grande nicho pairando em infinitos espaços; as criaturas de Deus piavam aconchegadas nas penas macias pedindo-lhe o que queriam, e Deus, com asas, ia e vinha pelos céus, levando a seus filhos o sustento, o calor, o carinho, a alegria.

Juan consagrava horas e horas a seu altar, e até o tempo destinado aos estudos ele dedicava a sua fiesta, assim também todos os presentes e obséquios em dinheiro, que de vez em quando recebia, os aproveitava para o cepo ou o gazofilácio de sua igreja. De seus estudos de catecismo, das fábulas, da história sagrada e até da profana ele tirava partido, embora não tanto quanto de sua imaginação, para os sermões que pregava a si mesmo na solidão de seu quarto feito templo, imaginando-se perante uma multidão de pecadores cristãos. Seu púlpito era uma velha poltrona, móvel tradicional na família, que havia sido como um regaço para alguns avós caducos e o último leito do pai de Juan. O menino punha-se de joelhos sobre o assento, apoiava as mãos no encosto e dali pregava ao silêncio e às velas que faiscavam, cheio de unção, às vezes arrebatado por uma eloquência interior que na expressão material se traduzia em frases incoerentes, em gritos de entusiasmo, algo parecido com a glossolalia das igrejas primitivas. Às vezes, exausto de tanto sentir, de tanto perorar, de tanto imaginar, Juan de Dios pousava a cabeça sobre as mãos, fazendo travesseiro do peitoril de seu púlpito; e, com lágrimas nos olhos, ficava como em êxtase, vencido pela eloquência de seus próprios pensares, enamorado daquele mundo de pecadores, de ovelhas desgarradas que imaginava diante de sua cátedra apostólica, sem saber como persuadia-las a se derreterem, assim como ele, em caridade, em fé, em esperança, havendo no céu e na Terra tantas razões para amar infinitamente, ser bom, crer e esperar. Dessa precocidade sentimental e mística, quase ninguém sabia; daquele pranto de ardor piedoso que tantas vezes foi orvalho da doce infância de Juan, ninguém no mundo jamais soube: nem sua mãe.

III

Mas sim de suas consequências; pois, como os rios vãos para o mar, toda aquela piedade correu naturalmente para a Igreja. A paixão mística do menino lindo de alma e corpo foi-se convertendo em coisa séria; todos a respeitaram; sua mãe cifrou nela, mais que seu orgulho, sua felicidade futura: e sem obstáculo algum, sem dúvidas próprias nem vacilações de ninguém, Juan de Dios entrou na carreira eclesiástica; do altar de seu quarto passou ao serviço do altar de verdade, do altar grande com que tantas vezes sonhara.

Sua vida no seminário foi uma grinalda de triunfos da virtude, que ele apreciava em seu justo valor, e de triunfos acadêmicos, que, com maldisfarçada dissimulação, desprezava. Sim; fingia apreciar aquelas coroas que até nas coisas santas são tecidas para a vaidade; e fingia para não ferir o amor-próprio de seus mestres e seus pares. Mas, na realidade, seu coração era cego, surdo e mudo para tal casta de prazeres; para ele, ser mais que outros, valer mais que outros, era uma aparência, uma diabólica invenção; ninguém valia mais que ninguém; toda dignidade exterior, toda distinção, todo prêmio eram fogos-fátuos, inúteis, sem sentido. Emular glórias era tão vão, tão insosso, tão inútil discutir; a fé defendida com argumentos parecia-lhe semelhante à fé defendida com a cimitarra ou com o fuzil. Passou pela filosofia escolástica e pela teologia dogmática sem a sombra de uma dúvida; ganhou muito saber, mas, para ele, tudo aquilo não servia para nada. Pedira a Deus, ainda criança, que lhe desse fé de granito, como uma fortaleza que tivesse as entranhas da terra por alicerces, e Deus prometera atendê-lo com vozes interiores, e Deus não faltava com sua palavra.

Apesar da carreira brilhante, excepcional, Juan de Dios, com humilde integridade, fez a mãe, os mestres e os padrinhos entenderem que não haveriam de contar com ele para convertê-lo em um luminar, para torná-lo famoso e guindá-lo às altas dignidades da Igreja. Nada de púlpito; bastava o que pregara a si mesmo na poltrona de seus avós. A altura da cátedra era como um precipício sobre um poço de tentações: o orgulho, a vaidade, a falsa ciência estavam lá, de boca aberta, monstros terríveis, na escuridão do abismo. Não condenava ninguém; respeitava a vocação para bispos e crisóstomos que outros tinham, mas não queria nem prosperar nem subir ao púlpito. Não quis passar de coadjutor de San Pedro, sua paróquia. “Pregar! Ah, sim!”, pensava, “mas não para os crentes. Pregar… lá… muito longe, para os infiéis, para os selvagens; não para as filhas de Maria, que podem ensinar-me a crer e que respondem com suspiros piedosos e cânticos cristãos: pregar a uma multidão que me responda com flechas, com tiros, que me pendure de uma árvore, que me esquarteje”.

A mãe, os padrinhos, os mestres que haviam visto claramente quão natural era que o menino daquela fiesta, daquele altar, fosse sacerdote, não viam a última consequência, também muito natural, necessária, daquela vocação, daquela vida…, o martírio: o sangue vertido pela fé de Cristo. Sim, era esse o seu destino, essa sua eloquência viril. O menino havia pregado, bricando, com a boca; agora o homem devia pregar de maneira mais séria, pelas bocas de cem feridas…

Devia abandonar a pátria, deixar a mãe; esperavam-no as missões da Ásia; como é que sua mãe, seus amigos não o haviam percebido tão claramente quanto ele?

A viúva, já velha, já resignada a que seu Juan fosse apenas um santo, que não fosse uma coluna muito visível da Igreja nem um grande sacerdote, em face desse novo desengano resistiu com todas as suas forças de mãe.

“O martírio não! A ausência não!” Deixá-la só, impossível!

A luta foi terrível; tanto mais que era luta sem ódios, sem ira, de amor contra amor; não havia gritos, não havia más vontades; mas as almas sangravam.

Juan de Dios prosseguiu com seus preparativos; foi conseguindo a situação própria de quem pode entrar no serviço daquelas vanguardas da fé que tem o martírio como quase certo… Mas, chegado o momento da separação, de arrancar as entranhas da mãe viva… Juan seguiu o primeiro estremecimento da religiosidade humana, foi caridoso com o próprio sangue, e se viu obrigado a ceder, a sucumbir, como disse para si mesmo.

IV

Desistiu das missões do Oriente, do martírio provável, da poesia de seus devaneios, e reduziu-se a buscar as grandezas da vida de bem aprofundando-se na alma, prescindindo do espaço. Por fora já não seria nada além de coadjutor de San Pedro. Mas dali em diante faltava-lhe uma mola moral para sua vida interior; faltava o ímã que o atraísse; sentia a enervante saudade de um futuro desfeito. “Não sendo um mártir da fé, o que ele era? Nada”. Pela primeira vez soube o que era melancolia, desequilibrado da alma. Seu estado espiritual era muito parecido com o do amante verdadeiro que padece o desengano de um único amor. Rodeava-o uma espécie de vazio que o aterrorizava; naquela nada que via no futuro cabiam todos os perigosos mistérios que o medo podia imaginar.

Impedido de ser mártir, de verter seu sangue, sentia terror do inimigo que levaria dentro de si, do que o sangue aprisionado dentro de seu corpo quereria fazer. Em que empregar tanta vida? “Não posso ser”, pensava, “um anjo sem asas, as virtudes que eu poderia ter precisavam de espaço; de outros horizontes, de outro ambiente: não sei comportar-me como os demais sacerdotes, meus colegas. Eles valem mais que eu, pois conseguem ser bons numa jaula”.

Como uma expansão, como um exercício, buscou uma espécie de consolo no tipo de trabalho profissional que mais se parecia com sua vocação abandonada: dedicou-se principalmente a visitar doentes de fé duvidosa, a evitar que as almas se despedissem do mundo sem apoiar a fronte em agonia no ombro de Jesus, como são João na sublime noite eucarística. Por dificuldades materiais, por incúrias dos fiéis, às vezes por escasso zelo dos clérigos, era fato que muitos morriam sem todos os Sacramentos. Infelizes heterodoxos de superficial incredulidade, no fundo cristãos; cristãos tíbios, bons crentes descuidados, passavam para outra vida sem o consolo do olcum infirmorum, sem o santo óleo da Igreja…, e como Juan acreditava firmemente na eficácia espiritual dos Sacramentos, empregou sua fervorosa caridade em suprir faltas alheias, desdobrando-se no serviço do Viático, velando pelos doentes graves e pelos moribundos. Corria para as aldeias próximas, até onde a paróquia de San Pedro alcançava; ia mais longe ainda, tentando avivar o zelo de outros sacerdotes nessa missão tão delicada e importante. Para muitos, essa especialidade do zelo religioso de Juan de Dios não oferecia o aspecto de grande obra caridosa; para ele, não havia melhor modo de substituir aquela outra grande empresa à qual renunciara por amor à mãe. Dar esmolas, consolar o triste, aconselhar bem eram coisas que ele fazia com entusiasmo…; mas o que importava era isto: levar o Nosso Pai a quem dele necessitava. Conduzir as almas até os portões da salvação, dar-lhes, para a noite escura da viagem eterna, a tocha da fé, o Guia Divino…, o próprio Deus! Havia maior caridade que essa?

V

Mas não bastava. Juan pressentia que seu coração e seu pensamento buscavam uma vida mais forte, mais cheia, mais poética, mais ideal. As remotas aventuras apostólicas com uma catástrofe santa por desfecho o teriam saciado; sua consciência lhe dizia: aquela poesia bastava. Mas não isto daqui. Seu corpo robusto, de ferro, que parecia talhado para as fadigas das longas viagens, para a luta com os climas inimigos, dava-lhe gritos estranhos com mil ferroadas nos sentidos. Começou a observar algo que nunca antes notara, que seus colegas lutavam contra as tentações da carne. Uma espécie de remorso e de humildade mal entendida o levou ao devaneio de empenhar-se em sentir em si mesmo aquelas tentações que via outrora em quem devia reputar mais perfeitos que ele. Esse devaneio como que o sugestionou, e por fim sentiu a carne e triunfou dela, como os mais de seus colegas, com os mesmos sábios remédios ditados por uma santa e tradicional experiência. Mas seus próprios triunfos o entristeciam, o humilhavam. Queria ter vencido sem lutar; não saber de tal guerra na vida. Ao pisotear os sentidos rebeldes, ao acorrentá-los com refinada crueldade, guardava-lhes um rancor inextinguível pela traição que lhe faziam; a vingança do castigo não apagava sua ira contra a carne. “Lá longe”, pensava, “isso não teria acontecido; meu corpo e minha alma seriam pura harmonia”.

VI

Era essa a sua vida, quando uma tarde, passeando, já perto de escurecer, pela praça, muito concorrida, de San Pedro, sentiu o choque de um olhar que parecia ocupar todo o espaço com infinita doçura. Por recantos das entranhas que ele jamais sentira, passeou-lhe um calafrio sublime, como que precursor de uma morte de delicias: ou tudo se desvaneceria num suspiro de prazer universal, ou o mundo se transformaria num paraíso de ternuras inefáveis. Estacou; levou as mãos à garganta e ao peito. A mesma consciência, muito funda, que lhe dissera que lá longe teria satisfeito seu querer brindando seu amor divino com o próprio sangue, agora lhe dizia, não mais clara: “Ou aquilo, ou isto”. E outra voz, mais profunda, menos clara, acrescentou: “Tudo é um”. Mas “não!”, gritou a alma do bom sacerdote, “são duas coisas; esta mais forte, aquela mais santa. Aquela para mim, esta para outros”. E a voz anterior, a mais funda, replicou: “Isso não se sabe”.

Desaparecido o olhar, Juan de Dios se refez um pouco e continuou a conversar com os amigos, enquanto de repente o assaltava uma lembrança mesclada com a reminiscência de uma sensação longínqua. Sentiu, com a imaginação, um cheiro de água de colônia e viu suas mãos brancas e polidas estendendo-se sobre um grupo de fiéis para que as beijassem. Ele rezava sua primeira missa, e entre os que lhe beijavam as mãos perfumadas, as pontas dos dedos, estava uma menina loura, de basta cabelereira de seda frisada em ondas, olhos negros, pálida, com expressão de inocente picardia mesclada com um gesto de melancólico e como envergonhado pudor. Aqueles olhos eram os mesmos que acabavam de fitá-lo. A menina já era uma jovem esbelta, não muito alta, magra, de uma elegância como que doentia, como uma deusa da febre. O amor por aquela mulher deveria vir de mistura com uma dulcíssima caridade. Era preciso amá-la também para cuidar dela. Tinha um noivo que não sabia dessas coisas. Era um jovem muito rico, muito fútil, mimado pela fortuna e pelos pais. Tinha ele o melhor cavalo da cidade, o melhor tílburi, a melhor roupa; queria ter a noiva mais bonita. Os dezesseis anos daquela menina haviam sido como um nascer do sol em que todo mundo reparara, que deslumbrava a todos. Dos dezesseis aos dezoito anos, a doença que deste tempos atrás tanto favorecia a beleza da loira, que tanto sofrera, desaparecera para dar passagem à juventude. Durante aqueles dois anos, Rosario, era esse o nome dela, teria sido totalmente feliz… se seu noivo fosse outro; mas o dono do melhor cavalo, do melhor carro quis tê-la por vaidade, para ser invejado; e, se é verdade que para entrar na casa dela (de uma viúva também pobre, como a mãe de Juan, e também de hábitos cristãos) teve de prometer seriedade e logo se viu obrigado a prometer próximo e seguro conúbio, fez tudo aturdido, com a vaga consciência de que não faltaria quem o ajudasse a faltar com a palavra dela. Foram seus pais, que queriam coisa melhor (mais dinheiro) para o filho.

O frangote foi viajar, de inicio a contragosto; voltou, e ao empreender a segunda viagem já sentiu contente. E assim prosseguiram aquelas relações, com grandes intervalos de viagem, cada vez mais longas. Rosario estava apaixonada, sofria…, mas tinha de perdoar. A mãe, a viúva, também disfarçava, porque, se o caprichoso galã abandonasse sua filha, o desengano poderia fazer-lhe muito mal; a doença, quem sabe oculta, poderia reaparecer, talvez incurável. Aos dezoito anos Rosario era a loira mais espiritual, mais linda do lugar; seus olhos negros, grandes e dolorosamente apaixonados, os mais belos, os mais poéticos olhos…; mas já não era o sol nascente. Estava quem sabe mais interessante do que nunca, mas não aos olhos do vulgo. “Está secando”, diziam brutalmente os moços que antes a admiravam, e agora passavam de tarde em tarde pela solitária pracinha onde Rosario morava.

VII

Foi então que Juan de Dios topou com o olhar dela na praça de San Pedro. A história daquela jovem chegou a seus ouvidos, por menos que ele quisesse escutar, pela boca de seus próprios amigos, sacerdotes e tudo. O noivo estava ausente; era a quinta ou sexta ausência, a mais longa. A doença voltava. Rosario lutava; saia com a mãe para que não comentassem; mas o mal estava vencendo, e ela passava temporadas de oito a quinze dias de cama.

As tristezas da infância adoentada voltavam, mas agora com a nova amargura do amor ludibriado, escarnecido. Sim, escarnecido; ela já o entendia assim; a mãe dela também, mas se enganavam mutuamente. Fingiam acreditar na palavra e no amor daquele que não voltava. As cartas do ricaço rareavam, e como ele era pouco escritor; revelavam a frieza, a distração com que eram redigidas. Cada carta era uma alegria ao chegar, uma dor ao ser lida. Todo o bem que as receitas e os conselhos higiênicos do médico podiam causar naquele organismo debilitado, que se consumia entre ardores e melancolias, era desfeito a cada poucos dias por um daqueles papéis infames.
Nem a mãe nem a filha queriam o rompimento que a dignidade aconselhava, porque, cada uma a seu modo, ambas tremiam uma catástrofe. Era preciso, dizia o doutor, evitar emoções fortes. Era menos mau deixar-se matar aos poucos.

A dignidade era defendida à força por enganar o público, os maliciosos à espreita.

Rosario, quando a saúde lhe permitia, trabalhava junto à sacada, com o rosto risonho, desdenhando os olhares de alguns adoradores que passavam por ali; mas não o trato do mundo como nos melhores dias de seus amores e de sua felicidade. Às vezes a verdade podia mais que ela, e então ficava triste e seu olhar pedia socorro para a alma…

Tudo isso, e mais, pôde notar Juan de Dios, que desde então, para ir a muitos lugares, passou a cruzar o larguinho onde Rosario morava. Era um beco perto da igreja de um convento que tinha uma torre esbelta que nas noites de luar, nas de céu estrelado e nas de vaga névoa destacava-se romântica, tingindo de poesia mística tudo o que havia à sua sombra, sobretudo o recanto de casas humildes que tinha ao pé como a seu amparo.

VIII

Juan de Dios não deu nome ao que sentia, nem mesmo quando o viu sob a forma de remorso. De inicio aturdido, subjugado pelo invencível egoísmo do prazer, não fez mais que desfrutar de seu estado. Nada pedia, nada desejava; apenas via que já existia uma razão para viver sem morrer na Ásia.

Mas, na segunda vez que por acaso seus olhos tornaram a encontrar os de Rosario, apoiada com tristeza no peitoril de sua sacada, Juan teve medo da intensidade de suas emoções, daquela sensação dulcíssima, e, grosseiramente, aplicou nomes vulgares a seu sentimento. Assim que a palavra interior pronunciou tais nomes, a consciência pôs-se a dar gritos terríveis, e também proferiu sentença com palavras duras, tão grosseiras e inexatas quanto aqueles nomes. “Amor sacrílego, tentação da carne”. “Da carne!”. Pois se Juan tinha certeza que jamais ter desejado nem um beijo sequer daquela criatura: nada daquela carne, que mais o enamorava quanto mais se esvaia. “Sofisma, sofisma!”, gritava o moralista oficial, o teólogo… e Juan se horrorizava de si mesmo. Não havia outro remédio. Teria de confessá-lo. Isso era pior!
Se a plasticidade tosca, grosseira, injusta com que ele representava seu sentir para si próprio já era uma coisa tão diferente da verdade inefável, inqualificável de sua paixão, ou o que fosse, quanto mais impróprio, injusto, grosseiro, desacertado, incongruente haveria de ser o juízo que outros poderiam formar ao ouvi-lo confessar o que sentia, mas sem ouvi-lo sentir? Juan, confusamente, compreendia essas dificuldades: que seria injusto consigo mesmo, que alarmaria excessivamente seu pai espiritual… Era descabido tentar explicar-lhe aquilo! Procurou um colega discreto, experiente. O colega não o compreendeu. Enxergou o pecado maior, justamente por ser romântico, platônico. “É que o diabo se disfarçava bem; mas lá andava o diabo”.

Ao escutar de lábios alheios aquelas imposturas que antes ele dizia a si mesmo, Juan ouviu vozes interiores saindo em defesa de sua idealidade ferida, profanada. Tanto o tipo de penitência que lhe impunham como os conselhos de higiene moral que lhe davam não tinham nada a ver com sua nova vida: era outra coisa. Mudou de confessor, e não mudaram a sentença nem as previsões. Cada vez mais irritada, sua consciência de justiça revolvia-se contra aquela estupidez na tentativa de entendê-la. E, sem reparar no que fazia, mudou o rumo de sua confissão; passou a apresentar o caso sob uma nova perspectiva, e os novos confessores acabaram por convencer-se de que se tratava de uma tolice sentimental, de uma ociosidade pseudomística, de uma coisa tão insipida quanto inocente.

Chegou o dia em que, ao abordar esse capitulo, o confessor o mandava passar a outra matéria, sem prestar ouvidos àqueles seus platonismos. E mais: tanto o próprio Juan como seus sagrados confidentes puderam notar que aquele sonho difuso, inexplicável, coincidia, se é que não era sua causa, com uma disposição mais refinada na moralidade do penitente; se antes Juan não caía nas grosseiras tentações da carne, ao menos as sentia; agora não…, jamais. Sua alma estava mais pura dessa mancha que nos melhores tempos de sua esperança de martírio no Oriente. Houve um confessor, talvez indiscreto, que se deteve a considerar o caso, mas que se guardou de transformar a observação em receita. Por fim, Juan acabou calando no confessionário tudo o que se referia àquela situação de sua alma; e como, a rigor, só ele podia compreender o que lhe acontecia, porque o que sentia, só ele veio a ser juiz, e ninguém mais soube da tentação, se é que o era, em que Juan de Dios vivia. Chegou a entregar-se a sua adoração como a uma delicia licita, edificante.

De tarde em tarde, sempre por acaso, pensava ele, os olhos da menina doente, em sua sacada no beco, encontravam-se com o olhar furtivo, de relâmpago, do jovem místico, um olhar que trazia a mesma expressão terna, amorosa dos olhos do menino que um dia todos acariciavam na rua, no templo.

Já sem remorso, Juan saboreava aquela felicidade sem futuro, sem esperança e sem desejos de maior contentamento. Não pedia mais, não queria mais, não podia haver mais.

Não ambicionava ser correspondido, coisa que seria absurda, que repugnaria a ele próprio e que rebaixaria a seus olhos a pureza daquela mulher adorada idealmente como se já estivesse lá no céu, no inalcançável. Amando-a, saboreando aqueles rápidos choques de olhares, ele tinha o suficiente para ver o mundo iluminado por uma luz muito pura, banhando-se numa harmonia celeste plena de sentido, de vigor, de promessas supramundanas. Ele cumpria todos os seus deveres com mais afinco, com mais anseio; era um refresco espiritual sublime, de uma virtude mágica, aquela adoração muda, inocente adoração que não era idolátrica, que não era um fetichismo, porque Juan sabia submetê-la à ordem universal, ao amor divino. Sim: ele amava e venerava as coisas por sua ordem e hierarquia, só que, ao chegar à menina do beco das Recoletas, o amor que se devia a tudo impregnava-se de uma doçura infinita que transcendia os demais amores, o de Deus inclusive.

Como maior prova da pureza de sua idealidade, tinha a dor que o acompanhava. Ah, sim! Ela sofria, Juan bem o observava, e sofria ele. Era, no profano (que palavra! — pensava Juan), como o amor por Nossa Senhora das Espadas, a das Dores. A rigor, todo amor cristão era assim: amor doloroso, amor de luto, amor de lágrimas.

IX

Ele bem o via; Rosario estava murchando. Lutava em vão, fingia em vão. “Juan se compadecia dela tanto quanto a amava. Quantas noites estariam ela e ele, ao mesmo tempo, pedindo a mesma coisa a Deus: a volta daquele homem por quem Rosario morria! “Isso mesmo!”, pensava Juan, “que ele volte; não sei o que será para mim vê-lo ao lado dela, mas peço a Deus, de todo coração, que ele volte. Por que não? Eu não aspiro a nada; eu não posso ter ciúme; eu não quero o corpo dela, nem da alma além do que ela dá sem querer em cada olhar que por acaso encontra o meu. Meu carinho seria infame se não fosse assim”. Juan não maldizia seus hábitos; não via seu estado como um grilhão; ao contrário, era cada vez melhor sacerdote, estava mais contente de seu destino. Muito menos invejava o clero protestante. Um discípulo de Jesus casado… Qual! Impossível. Absurdo. O protestantismo acabaria entendendo que o casamento dos clérigos é uma torpeza, uma fealdade, uma falsidade que desnatura e apequena a ideia cristã e a missão eclesiástica. Nada; tudo estava bem. Ele não pedia nada para si; tudo para ela.

Rosário devia estar muito sozinha em sua dor. Não tinha amigas. A mãe não falava com ela da mágoa em que as duas sempre pensavam. O mundo, as pessoas, não se compadeciam, espiavam com frieza maliciosa. Certas vozes de piedade humilhante com que os vizinhos alinhavam a ideia de que Rosario ia ficando sem noivo, doente e pobre, era melhor, segundo Juan, que não chegassem aos ouvidos da moça.
Só ele compartilhava sua dor, só ele sofria tanto quanto ela própria. Mas a lei era que ela nunca soubesse disso. O mundo era assim. Juan não se revoltava, mas sua dor era imensa.

Por dias e mais dias contemplava os postigos da sacada de Rosario, entrecerrados. Sentia o coração na boca: “É que estava de cama; a fraqueza já a vencera a ponto de prostrá-la”. Costumava durar semanas aquela tristeza dos postigos entrecerrados; entrecerrados, sem dúvida, para que a claridade do dia não fizesse mal à doente. Atrás dos vidros de outra sacada, Juan divisava a mãe de Rosario, a viúva enlutada, costurando pelas duas, triste, cabisbaixa, sem levantar a cabeça. Que sozinhas estavam! Não podiam adivinhar que ele, um transeunte, as acompanhava em sua tristeza, em sua solidão, de longe… E seria ofensivo que elas o soubessem.

À noite, quando ninguém podia surpreendê-lo, Juan passava duas, três, mais vezes pelo beco; a torre poética, misteriosa, ora mergulhada na névoa, ora destacando-se no céu como um nimbo de luz estelar, oferecia-lhe em seu silêncio místico um discreto confidente; não diria nada do misterioso amor que presenciava, ela, canção de pedra erguida pela fé de mortas gerações ao culto de outro amor misterioso. Na casa humilde, tudo era recolhimento, silêncio. Às vezes por uma fresta saía da sacada uma réstia de lua. Juan, sem perceber, embevecia-se contemplando aquela claridade. “Se ela dorme, eu velo. Se ela vela… quem lhe diria que um homem, pois afinal sou um homem, pensa em sua dor e em sua beleza espiritual, de anjo, aqui, tão perto… e tão longe; da rua… e do impossível? Ela não saberá jamais, jamais. Isso é absoluto: jamais. Ela sabe que eu existo? Reparou em mim? Pode suspeitar o que sinto? Adivinhou esta companhia de sua dor?”. Aqui começava o pecado. Não, não devia pensar nisso. Parecia-lhe não apenas sacrilégio como também ridícula a ideia de ser querido…, ao menos como as mulheres costumavam querer os homens. Não, entre eles não havia nada em comum além do sofrimento dela, que ele fizera seu.

X

Uma tarde de julho, um acólito de San Pedro procurou Juan de Dios em seus passeio solitário pelas alamedas, para dizer-lhe que havia pressa de voltar à igreja para ministrar o Viático. Era a cena de todos os dias. Juan, segundo seu costume, pouco acorde ao geral, mas sim às admoestações da Igreja, sempre levava, além da Eucaristia, os Santos Óleos. O acólito guiava, tocando a sineta à frente do triste cortejo. Juan não perguntara para quem era; deixava-se levar. Notou que o lampião ia nas mãos de um cavalheiro e que os círios haviam sido distribuídos à farta entre muitos jovens conhecidos de boa estampa. Chegaram à praça, e as duas fileiras de luzes avermelhadas que o abafo da tarde tinha como que adormecido quebraram-se, paralelas, virando por uma rua estreita. Juan sentiu uma dolorosa apreensão; já não podia perguntar a ninguém, porque caminhava sozinho, isolado, entre as duas margens, com as mãos unidas para segurar as Sagradas Formas. Chegaram ao largo das Descalças, e as luzes, depois do triste lamento da campa, guiando-se como um rebanho de espíritos, místico e fúnebre, seguiram rua acima pela de Cereros. Na encruzilhada dos Quatros Cantones, Juan vislumbrou uma esperança: se a sineta seguisse em frente, descendo pela rua de Platerías, estava bom; se virasse à direita, também; mas se pegasse à esquerda… Pegou à esquerda, e à esquerda viraram os círios desaparecendo.

Juan sentiu que a apreensão se transformava em terrível pressentimento; em gelada aflição, em tremor incontrolável. Aperta convulso sua sagrada carga para não deixá-la cair; seus pés se enredavam na veste talar. O crepúsculo naquele desfiladeiro, entre casas altas, sombrias, pobres, parecia já noite. Ao final da rua longa, estreita, estava o larguinho das Recoletas. Ao chegar lá, Juan fitou a torre como que interrogando-a, pedindo-lhe amparo… As luzes tristes desciam rumo ao beco, e as duas fileiras pararam em frente àquela porta aonde Juan de Dios nunca ousara chegar em suas noites de vigília amorosa e sem pecado. A comitiva não se movia; era ele, Juan, o sacerdote, quem devia seguir caminhando. Todos o olhavam, todos o esperavam. Levava Deus.
Por isso, porque levava nas mãos o Nosso Pai, a saúde da alma, é que ele pode seguir, embora devagar, esperando que um pé estivesse bem firme sobre o chão para mover o outro. Não era ele que levava Nosso Pai, era Nosso Pai que o levava: ia agarrado ao sacro depósito que a Igreja lhe confiava como a uma mão estendida ao céu. “Cair não!”, pensava. Houve um instante em que sua dor desapareceu para dar lugar ao cuidado absorvente de não cair.

Chegou ao umbral, inundado de luz. Subiu a escada, que nunca vira. Entrou numa saleta pobre, caiada, de teto baixo. À frente, um altarzinho improvisado, iluminado por quatro círios. Fizeram-no virar à direita, levantaram uma cortina; e num quarto pequeno, humilde, mas limpo, fresco, santuário de casta virgindade, num leito de ferro pintado, sob uma colcha de flores cor-de-rosa, viu a cabeça loira que nunca se atrevera a olhar a gosto, e em meio àquele esplendor de ouro viu os olhos que lhe haviam transformado o mundo olhando-o sem querer. Agora o fitavam, a ele, somente a ele. Esperavam-no, desejavam-no; porque levava o bem verdadeiro, o que não é barro, o que não é vento, o que não é mentira. Divino Sacramento!, pensou Juan, que, através de sua dor, viu como num quadro, em seu cérebro, a última Ceia e o apóstolo de seu nome, o doce são João, o bem-amado, desfalecendo de amor com a cabeça apoiada no ombro do Mestre que lhes repartia seu corpo num pouco de pão.

O sacerdote e a doente se falaram pela primeira vez na vida. Das mãos de Juan, Rosario recebeu a Sagrada Hóstia, enquanto aos pés do leito, a mãe, de joelhos, soluçava.

Depois de comungar, a menina sorriu a quem lhe trouxera a consolação. Tentou falar, e com voz muito doce e muito funda disse que o conhecia, que recordava ter-lhe beijado as mãos no dia de sua primeira missa, sendo ela muito pequena; e depois, que o vira passar muitas vezes pelo largo.

“O senhor deve morar aqui perto…”

Juan de Dios contemplava tranquilo, sem vergonha, sem remorso, aqueles pálidos, aqueles pobres músculos mortos, aniquilados. “Eis aqui a carne que eu adorava, que eu adoro”, pensou sem medo, contente de si mesmo em meio à dor daquela morte. E se lembrou das velas qual juncos que logo se consumiam ardendo em seu altar de menino.

A própria Rosario pediu a Extrema-unção. A mãe disse que era o combinado entre elas. Não convinha esperar demais. Naquela casa, esses santos cuidados da religião solícita não assustavam como sintomas de morte. Juan de Dios compreendeu que se tratava de cristãs verdadeiras, e começou a ministrar o último sacramento sem preparativos contra a apreensão e o medo; aquilo não tinha nada a ver com a morte, e sim com a vida eterna. A presença de Deus unia num vínculo puro, sem nome, aquelas boas almas. Esse último toucado, o supremo, Rosario o fez sorridente, embora já sem poder falar mais que com os olhos. Juan a ajudou com toda a pureza espiritual de sua dignidade, sagrada em tal oficio. Todo o meramente humano estava lá com que em suspenso.

Mas foi preciso separar-se. Juan de Dios saiu do quarto, atravessou a sala, chegou à escada… e conseguiu desce-la porque levava o Nosso-Pai nas mãos. A cada degrau, temia desabar. Trançando as pernas, chegou ao umbral. Seu coração rebentava. A transfiguração de lá de cima havia desaparecido. O humano, também puro a seu modo, voltava aos borbotões.

“Não voltaria a ver aqueles olhos!”. Ao primeiro passo que deu na rua, Juan cambaleou, não viu mais nada e foi ao chão. Caiu sobre as lajes da calçada. Levantaram-no; recobrou os sentidos. O oleum infirmorum escorria lentamente sobre a pedra brunida. Juan, aterrado, pediu algodões, pediu fogo; deitou-se de bruços, embebeu o algodão, queimou o líquido vertido, enxugou a pedra o melhor que pode. Enquanto se afainava, o rosto contra a terra, enxugando a laje, suas lágrimas escorriam e caíam, misturando-se com o óleo derramado. Cessou o terror. Em meio a sua tristeza infinita, sentiu-se tranquilo, sem culpa. E uma voz funda, muito funda, enquanto ele trabalhava para evitar toda profanação, esfregando a pedra manchada, dizia-lhe nas entranhas:

“Não querias o martírio por amor a Mim? Pois ai o tens. Que importa se na Ásia ou aqui mesmo? A dor e Eu estamos em toda parte”.

Comentários