HISTÓRIAS DE OUTRAS DEUSAS

Abundam mitos gregos sobre mulheres fortes como Medeia, Antígona, Alceste e Penélope. Estas mulheres tinham papéis fortes entre as deusas do Olimpo. Hera (Juno), a deusa do casamento, desafiava frequentemente Zeus (Júpiter), causando problemas a muitas das mulheres mortais que ele engravidou e também aos filhos. Atena (Minerva) era a deusa das artes domésticas, como a tecelagem, e era também uma guerreira eficiente e amiga de heróis como Perseu. Ela inventou o primeiro barco e o primeiro carro. Ártemis (Diana) era a deusa da caça e também dos animais selvagens e era rápida a castigar qualquer homem que se intrometesse na sua privacidade. Deméter (Ceres) era uma deusa gentil, exceto quando perdeu a filha Perséfone (Proserpina): então tornou-se vingativa tal como todos os do Olimpo. Das deusas do Olimpo, apenas Héstia (Vesta) se dedicava completamente à vida doméstica; era pacífica e determinada para evitar conflitos. O único mito acerca da Héstia é o que narra a história do tempo em que Posidon (Neptuno) e Hermes (Mercúrio) a cortejavam. Ela receou tanto ser a causa de um conflito entre os dois que fez voto de castidade para sempre. São pois as outras deusas do Olimpo, com os seus inimigos e favoritos, que fornecem material em abundância para as histórias.



Ártemis e Actéon

Ártemis era uma deusa virgem que não apreciava a companhia dos homens. Ela e as muitas companheiras virgens, ninfas das árvores, das montanhas e dos rios viviam juntas nos bosques, e o seu desporto favorito era a caça aos animais selvagens. Quando tinham calor e estavam cansadas da caça, refrescavam-se tomando banho juntas na lagoa do vale Gargafie. 

Num dia quente, um caçador perdeu-se no bosque. Actéon era um príncipe, neto de Cadmo, que fundou a cidade de Tebas, mas o seu sangue real não deteve a deusa de se vingar selvaticamente por ele entrado em Gargafie. Ártemis estava a ser lavada por uma das ninfas nas águas frescas da lagoa, enquanto outra lhe prendia os cabelos e uma terceira aguardava à borda da lagoa com o manto e as sandálias. As restantes companheiras de Ártemis lavavam-se do pó após uma manhã de caçadas. Todas elas estavam tão nuas quanto a deusa.

As ninfas gritaram de susto e medo quando repararam que um homem estava a olhar para elas completamente nuas. Ártemis pôs-se de pé, com a face vermelha de raiva, enquanto as companheiras se apressavam a tapá-la com os próprios corpos. O arco e as flechas tinham sido colocados mais afastados para evitar que se molhassem enquanto a deusa tomava banho. Agora ela esticava-se para lhes deitar a mão e poder disparar e matar o intruso.

Havia, porém, outras formas de um deus punir um ser humano. E, por isso, Ártemis esvaziou a água da lagoa e atirou-a à face e ao cabelo de Ácteon dizendo: “Agora podes ir dizer ao mundo, se fores capaz, como é ver a deusa da caça sem as roupas.” Onde a água tinha caído na cabeça, mas, em vez de mãos humanas, pequenos cascos assentaram na terra e, ao mesmo tempo, os braços começaram a alongar-se para acompanharem as novas pernas esguias. Tinha-se transformado num veado.

Como homem, Ácteon tinha assustado a deusa e as suas ninfas, mas como veado passou a ter medo de tudo. Corria e chorava sem saber a quem pedir ajuda. De repente ouviu os latidos dos cães de caça. Os seus cães tinham seguido o seu cheiro e corriam para ele. “Melantos” — tentou ele chamar — “Icnobates, Dromas, Lelaps, sou o vosso dono, Actéon,” — mas não conseguiu dizer uma palavra. Os cães saltaram sobre ele, dilaceram-lhe a carne e derrubaram-lhe. Alguns olharam à volta, desorientados por o dono não estar com eles para lhes dar ordens. Então os amigos de Actéon chegaram, gritando por ele para que se lhes juntasse enquanto ele jazia em frente deles. Ninguém percebeu, senão tarde de mais, que o magnífico veado cujos chifres estavam a levar para casa como troféu era afinal o amigo e líder, o príncipe de Tebas.



Eos e os seus amantes

Eos (Aurora), filha do Titã Hiperion e de Tia, era a deusa da aurora. Os poetas entoavam louvores aos seus dedos róseos que coloram os céus aprontando-os para a partida do carro do deus Sol no céu percurso diário. Eros deu ao mundo quatro ventos, Bóreas (o vento do norte), Euro (o de leste), Zéfiro (o de oeste) e Noto (o vento do sul), sendo Astreus (nome que em grego significa “estrelado” o pai. Eos olhava todas as manhãs para baixo, para o mundo dos mortais, e reparava especialmente nos homens bonitos. O seu primeiro amante foi Ares, mas a deusa Afrodite (Vênus) ficou cheia de ciúmes, pois considerava Ares como seu, e puniu Eos com uma sede insaciável de jovens. Clito foi um homem que Eos viu e desejou e levou-o para o seu palácio por uns tempos. Ele gostou desse tempo com a deusa, mas Céfalo teve menos sorte. Era filho de Hermes e de Herse, e tinha um casamento feliz com a princesa ateniense Prócris. Andava ele a caçar quando atraiu a atenção de Eos que de imediato começou a desejar o seu amor. Disse-lhe que a mulher dele lhe era infiel e, para lhe provar que o que dizia era a verdade, enviou-o disfarçado para junto Prócris para a tentar com presentes. E esta não se fez rogada em partilhar a sua cama com o estranho, tendo Céfalo revelado então quem era. Prócris partiu para Creta envergonhada, e Ártemis autorizou-a a ser uma das suas companheiras na caça, mesmo não sendo ela virgem. A deusa chegou mesmo a dar-lhe uma lança que atinge sempre o alvo, e um cão que corre tão veloz como o vento. O marido de Prócris juntou-se a Eros durante algum tempo como amante, mas depois voltou ao mundo dos mortais.

Estava ele mais uma vez fora a caçar quando encontrou uma mulher estranha. Era a mulher, Prócris, que ele não reconhecera. Viu o cão dela correr velozmente como o vento e a sua lança atingir o alvo sempre que era lançada e despejou possuir ambos. Propôs a mulher partilhar com ela a cama se ela lhe desse a lança e o cão. Prócris riu-se e disse-lhe quem era. Céfalo ficou vermelho de vergonha e pediu-lhe que o perdoasse. “Perdoemo-nos um ao outro” — respondeu ela — “pois cada um de nós traiu o outro igual forma.” Céfalo e Prócris reconciliaram-se e, durante algum tempo, viveram felizes juntos.

Mas ela era ciumenta e quando ouviu dizer que o marido continuava a chamar pó “Aura” quando saía para caçar, pensou que ele convidasse alguma ninfa para fazer amor com ele. Mas, afinal, estava apenas a pedir a brisa (“aura” em grego) para o refrescar. Prócris escondeu-se no meio dos arbustos para apanhar o marido em flagrante, mas, quando Céfalo passou por ali com os cães, ela fez um sussurro, o que o levou a pensar que algum animal selvagem estava ali escondido, pelo que atirou a lança que nunca podia folhar o alvo e que, consequentemente, acertou no coração de Prócris. Céfalo acabara de matar a mulher com a lança dela. Há quem diga que esta foi a vingança de Ártemis tanto do marido como da mulher por terem usado os presentes, que ela tinha dado, para comprar favores sexuais. 

Titão foi outro dos amantes de Eos. Era jovem e desejável e Eos tinha tanto prazer na sua companhia que pediu a Zeus que lhe garantisse imortalidade. Este concordou, mas conforme os anos iam passando, o amante imortal de Eos começou a ficar com um aspecto mais velho e, consequentemente, menos ágil e enérgico, e depois tornou-se muito magro e débil. A deusa tinha-se esquecido de pedir a Zeus que desse ao seu amado Titão a eterna juventude. Suplicou-lhe que devolvesse a juventude a Titão, mas o único presente que ele deu foi a transformação do velho homem numa cigarra. Este era um presente trocista, isto que as cigarras renovam os corpos todos os anos ao mudarem de carapaça. Titão podia renovar-se infinitamente na forma de cigarra, mas não podia perder os seus anos como humano para ser de novo jovem.

A CORUJA DE ATENA

Existem muitas espécies de corujas. A de Atena (Minerva) é a coruja pequena e está tão fortemente associada à deusa que o nome cientifico desta coruja é Atheme nactua. Atena era a deusa padroeira da cidade de Atenas e a moeda da cidade, na era clássica, era cunhada com a imagem da coruja. A própria Atena é descrita como tendo “olhos de coruja”, um sinal de sabedoria e de perceptibilidade. Porém, nem todas as corujas são aves de sabedoria. A coruja de orelhas pequenas foi em tempos um homem, Ascáfalo, metamorfoseado por Deméter (Ceres) para o punir por ter revelado que a filha Perséfone (Proserpina) tinha comido uma romã, o que a impediu de regressar ao mundo dos vivos.


Selene e Endimião

Selene era filha de Tita Hiperion e Tia, e era a deusa da Lua. Por vezes é identificada com Ártemis, a caçadora virgem e irmã do deus do Sol Apolo, mas, contrariamente a Ártemis, Selene tinha muito prazer na companhia dos homens e também não era virgem. Numa noite, ela olhou do céu para baixo e viu um jovem muito bonito a dormir numa gruta. Tratava-se de Endimião, o filho de Zeus e da ninfa Cálice, e Selene fez dele seu amante. Diz-se que tiveram 50 filhos, uma história que sugere que ele tenha vivido muitos anos na sua companhia, mas também se diz que ele caiu no sono perpétuo, nunca tendo envelhecido nem deixado de ser o belo jovem por quem ela se apaixonara. Seria o seu sono uma punição imposta pelo rei dos deuses, Zeus, por a beleza daquele mortal ter tentado a mulher Hera, ou terá sido uma oferenda da apaixonada Selene que o queria manter para sempre jovem e belo? Terá Endimião pedido para permanecer adormecido indefinidamente para poder evitar a velhice, ou terá sido a forma encontrada pela deusa para impedir o amante de se apaixonar por outra? Após ter dado à luz 50 filhos, talvez ela estivesse simplesmente demasiado cansada de estar sempre grávida. Seja qual for a verdade, diz-se que Endimião permanece dormindo com a Lua, a qual continua a derramar o seu brilho sobre ele. 


Atena e Aracne

Tal como os outros deuses do Olimpo, Atena não tolerava qualquer espécie de insolência por parte dos seres humanos. De todos os deuses, ela era quem mais apreciava e encorajava a inteligência dos seres humanos, mas quando a aluna Aracne se gabou de que as mãos de Atena já não eram tão habilidosos como as dela a tecer, a deusa teve dificuldade em creditar nos próprios ouvidos. Visitou então Aracne disfarçada de uma mulher idosa, pendindo-lhe que lhe falasse das suas habilidades como tecelã, só para ver até onde iria a sua gabarolice. Aracne declarou que tinha aprendido todos os truques da tecelagem e começou novamente a gabar-se de que bateria Atena em qualquer competição sobre a matéria. Então, Atena mostrou-se como deusa, libertando-se do disfarce, mas Aracne não pediu desculpas nem admitiu que tinha mentido. Em vez disso, sentou-se ao tear, pegou no carro e começou a tecer no tecido de histórias de deuses e mortais.

Atena fez o mesmo e teceu a tapeçaria contando a história da disputa entre ela e Posídon sobre quem seria o deus de uma cidade grega, que até essa altura não tinha nome. No tecido de Atena podiam ver-se os cidadãos da cidade sem nome, amontoados junto à cidadela, olhando para que os deuses lhe ofereciam e decidindo em qual dos dois votar. Para conquistar os votos dos cidadãos, Atena tinha criado a primeira oliveira para a cidade, enquanto Posídon tinha oferecido uma fonte milagrosa nos altos rochedos da Acrópole. Todos os homens olhavam com interesse para a água, reconhecendo como seria útil em caso de cerco, e todas as mulheres estavam encantadas com a oliveira, constatando as suas muitas utilizações domésticas. Havia uma mulher a mais que os homens na imagem, tal como tinha acontecido na votação. Atena não se importou de mostrar a sua vitória, pois toda a gente sabia que ela tinha ganho apenas por um voto, e a cidade passou a chamar-se Atena em sua honra.

Aracne estava demasiado arrebatada pelo orgulho e pela insolência para se aperceber do aviso implícito na tecelagem da deusa, a demonstração de que Atena ganha sempre. Aracne tomou isso mais como um desafio do que como  ameaça, e reagiu tecendo as muitas decepções dos deuses, mostrando como mudavam de forma para seduzir as mulheres mortais. 

Quando as tapeçarias ficaram prontas, ninguém era capaz de dizer qual era a melhor. Atena arrancou a obra de Aracne e começou a bater-lhe com o carro de madeira. Em desespero, Aracne pegou numa corda e atou-a à volta do pescoço e depois olhou para cima para uma viga do telhado para se enforcar. “Enforca-te se é o que queres,” — exclamou Atena — “mas nunca morrerás disso, nem os teus filhos, nem os filhos dos teus filhos. Sofrerás pela tua louca insolência durante o resto da tua vida.” Voltou a bater em Aracne, e em consequência disso, o corpo da rapariga começou a ficar mais e mais pequeno até a cabeça quase desaparecer. Nem ouvidos, nem cabelo, nem nariz, nada mais que estômago e pernas. Aracne estava transformada numa aranha, e os seus descendentes de oito pernas podem ainda hoje ser vistas nos cantos do teto, tecendo os seus intricados tecidos nas mais finas teias. 

QUADRO DOS PEDIDOS ÀS DEUSAS


DEUSAS — PEDIDOS


AFRODITE (VÊNUS) — PARA TER UM ASPECTO IRRESISTÍVEL


ÁRTEMIS (DIANA) — POR UM PARTO FÁCIL: SUCESSO NA CORRIDA


ATENA (MINERVA) — POR ESTRATÉGIAS INTELIGENTES: HABILIDADE PARA TAREFAS DOMÉSTICAS; SABEDORIA PRÁTICA


DEMÉTER (CERES) — FERTILIDADE


HECATE (PLUTO) — RIQUEZA; PODERES MÁGICOS


HERA (JUNO) — FIDELIDADE NO MATRIMÔNIO


HÉSTIA (VESTA) — PROTEÇÃO NA CASA E NO LAR


MUSAS — INSPIRAÇÃO PARA A POESIA E PARA A MÚSICA

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