SÍLFIDE

RAIMUNDO CORREIA


PASSASTE sílfide
À luz da lua
Coa face nua
Sem ter um véu!
Eu vi-te pálida
Olhar chorando
De quando em quando
Pro ermo céu!

Alvejam cômoros
Dos nevoeiros!
Como os coqueiros
São espetrais!
Fantasma lúgubre
Uivava triste
Quando saíste
Dos coqueirais!

Folhas deslocam-se
Dos galhos - secas...
Lá nas charnecas
Mocho piou!...
Brincava trêmulo
Um brilho vago
À flor do lago,
Que latejou!

A flor, das árvores
Murcha, indolente,
Sobre a torrente
Balança e cai...
O orvalho - o zéfiro
Da flor na taça
Bebendo passa,
Cantando vai!

Reluz tão lânguida
A estrela d'alva
Na face calva
Do mar sem fim!...
Vertendo lágrimas
Do imo d'alma
Eu vi-te em calma
De noite assim!

Os dedos frigidos
Brancos de neve
Roçaste leve...
Meu ser tremeu!
Quem és? responde-me!
Alma sem vida,
Forma perdida,
Delírio meu!

Beijar-te - estólido -
Eu quis - fugiste -
Pálida e triste,
Branco vapor!
Fugiste súbito,
Desfez-te a aragem,
Louca miragem,
Alma de flor!

Eu vi-te - gélida -
Em noite fria,
Fada sombria
Fitar o céu!
Quem és tu? sílfide!
Rosa das campas,
Que o vulto estampas
No peito meu!

Raimundo Correia
(13 de maio de 1859, São Luís, Maranhão - 13 de setembro de 1911, Paris, França)
Raimundo da Mota de Azevedo Correia foi um juiz e poeta brasileiro.

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