POEMA PATÉTICO

EMÍLIO MOURA



Como a voz de um pequeno braço de mar perdido dentro de uma caverna,
Como um abafado soluço que irrompesse de súbito de um quarto fechado,
Ouço-te, agora, a voz, ó meu desejo, e instintivamente recuo até as origens de minha angústia,
Policiada e vencida, oh! afinal vencida por tantos e tantos séculos de resignação e humildade.
Em que hora remota, em que época já tão distanciada, foi que os ares vibraram pela última vez, diante de teu último grito de rebeldia?
Quantas vezes, ó meu desejo, tu me obrigaste a acender grandes fogueiras dentro da noite.
E esperar, cantando, pela madrugada?
Mas, e hoje? Hoje a tua voz ressoa dentro de mim, como um cântico de órgão.
Como a voz de um pequeno braço de mar perdido dentro de uma caverna,
Como um abafado soluço que irrompesse, de súbito, de um quarto fechado.

Emílio Moura
(14 de agosto de 1902, Dores do Indaiá - 28 de setembro de 1971, Belo Horizonte)
Emílio Guimarães Moura foi um poeta modernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. 

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