CASAMENTO DO CÉU E DO INFERNO

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE




No azul do céu de metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.

Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.


Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea
vaga-lumeando...


Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.


Diabo tem uma luneta
que varre léguas de sete léguas
e tem o ouvido fino
que nem violino.


São Pedro dorme
e o relógio do céu ronca mecânico.


Diabo espreita por uma frincha
Lá embaixo
suspiram bocas machucadas.
Suspiram rezas? Suspiram manso,
de amor.


E os corpos enrolados
ficam mais enrolados ainda
e a carne penetra na carne.


Que a vontade de Deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,
o resto vai para o inferno.

Carlos Drummond de Andrade
(31 de outubro de 1902, Itabira, Minas Gerais - 17 de agosto de 1987, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro)
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. 

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