BUMBA-MEU-POETA

MURILO MENDES


1930-1931

A FAMÍLIA DO POETA
Salve, salve, seu poeta.
Você hoje anunciou
que vai dar uma função
na praia do Acaba-mundo.
Juntou-se a família toda
para visitar você,
trouxemos alguns vizinhos
para engrossar a função.

O POETA:
Se sentem sem cerimônia,
sejam benvindos, merci.
Os mais malucos na frente
— não tem medo de aplaudir —,
os ajuizados, no fundo.

O PROFESSOR:
Seu moço me dá licença
de vir arejar um pouco:
Estou com a cabeça quente
de tantas aulas que dei.

O POETA:
Muito obrigado ao senhor,
não me ensinou coisa alguma.
Sendo assim cai no mundo,
aprendi foi por mim mesmo
sem o método Decrolly.
Louvada seja a burrice,
não tentou meu professor
a me ensinar coisa errada
no deserto do colégio,
coisa alguma me ensinou.

A PRIMEIRA NAMORADA:
Também eu vim te rever…
Você se lembra de mim?

O POETA:
Como não! Se hoje mesmo
seguro nesta caneta
para um poema dançar,
é porque há quinze anos
você levantava os olhos,
olhou com força pra mim,
depois levantou os braços,
me abraçou tão carinhosa.
Como não… se nem um dia
pude esquecer-te, Isabel.
Se a função sair batuta
deveremos a você.
Se assente aqui, faz favor,
neste lugar destinado
às pessoas de destaque…
No lugar de honra mesmo.

CORO DE VITROLAS:
Tem uma pinta na cara,
o olhar moreno e quieto.
Antigamente seria
uma das nove inspiradoras
que sopravam nos ouvidos
tal qual o Espírito Santo…
no tempo em que os poetas
inda usavam cabeleira.
Tem uma pinta na cara.

O ARLEQUIM:
Sou personagem da estranja,
me transportaram para cá.
Para falar com franqueza
embora me chamem gringo
me sinto melhor aqui
do que me sentia lá.
Não permita Deus que eu morra
tendo voltado para lá.
Eu aqui tenho prestigio,
Uso pencinê de ouro,
empresto dinheiro a juros,
seu ouvido na eleição.

O POETA:
“Seu” diplomata da estranja,
você manda como diz.
Quer um pedaço do reino?

O JAZBANDE:
“Seu” dono da festa, aqui
chegamos meio atrasados.
Encontramos no caminho
um povão em desatino,
vai derrubar o governo.
Ao povo nos ajuntamos,
demos concerto pra ele.
Este povo não faz nada
sem auxilio musical.

O POETA:
Chegaram já meio tarde,
a festa está começando.
Precisamos de uma música
mais infernal, violenta,
para sacudir o povo.
Enquanto não se fabrica,
vão tomando seus lugares,
não deve o povo tardar.

O DEPUTADO:
(Que multidão oportuna!
Arranjarei uns mil votos,
vou ganhar as eleições.)
Meus amigos, vim trazer
uma esplendida notícia:
as últimas leis sociais
exigem que o povo mande.
Derrubemos os tiranos,
transformemos este mundo
num paraíso ideal.
Eu trago instrução de graça,
remédios aos pontapés,
um grande auxilio à lavoura,
projeto a industria, o comércio,
só faço o que o povo quer.
É claro que meu rival
não tem competência alguma.
Levarei todos de táxi
pela estrada do porvir.
Em troca somente exijo
que um votinho aqui me dêem.

O POETA:
Passa fora: esta cantiga
não pega mais pro pessoal.
Abaixo a demagogia.
Tome cheiro da festança,
seu deputado de fraque,
depois vá embora daqui
cantar noutra freguesia.
Conosco não violão.

O DEPUTADO:
(Felizmente neste mundo
nem todos tem vergonha.
Vou falar com o imperador,
vou falar com o relequim;
providências se darão
pra mim vitória em regra.
Esperem um pouco, canalhas.)
Minha gente, até a volta,
se divirtam, minhas flores.

CORO:
Sujeito pra falar mal!
Conosco não violão.

O JORNALISTA:
“Seu” poeta, será possível
se gozar umas casquinhas
de tão celebrada festa?

O POETA:
Faça o favor de chegar,
você é persona grata.
Talvez uns trinta por cento
do que o poeta imagina
foi você que o forneceu.
Você traz algum suicídio,
caso de amor cabeludo,
revolução fracassada,
desastre na lua, o quê?

O JORNALISTA:
Tudo isto que o senhor disse
mais o resto que pensou.

O RANCHO LIRA DO AMOR:
Ó abre alas que eu quero passar,
eu sou da lira do meu natural.
Não devo pedir licença,
povo é que tem que pedir
pra mim poder funcionar.
Meu rancho já está chegando,
estão afinando as flautas,
os violões e os cavaquinhos
ali no clube da esquina.

O POETA:
Entre, que a casa é sua!
Todos nós te desejamos,
ai vem nosso amigo, vem!

CORO:
Entre que a casa é sua!
Todos nós te desejamos,
ai vem nosso amigo, vem!

O DOUTOR:
Desculpem, que sou penetra!…
Não creio que fui chamado.
Mas estejam descansados:
também sou meio poeta.
Mas estejam descansados:
não vim fazer poesia.
Vi o poeta na praia,
me apareceu assim doente.
Poeta, incline a cabeça:
abra os olhos bem, assim.
O diagnóstico sibilino,
esferoidal, apocalíptico,
acusa sintomas graves
de loucura neste poeta.
Este poeta, já o declaro,
não me cheira muito bem.
Anda meio hipocondríaco,
inquieto, mefistofélico.
Mas aplico já o remédio:
leia, hoje, os meus tratados,
que ficará logo bom.

O AGITADOR:
Poetas de todos os planetas,
uni-vos, senão vocês
nunca mais se agüentarão,
com o primeiro econômico,
do nosso mundo atual.
Já trabalhei muito hoje,
camaradas, quero entrar.

O POETA:
Por minha parte consinto
que entre nesta função.
Quanto ao resto do pessoal
não sei se concordará.

CORO:
Qual o quê, o coro serve
é só pra dizer amém,
tem mesmo que concordar.

O SUBMARINO:
Eu sou cavalo-marinho,
danço muito bem no mar.
Eu vim do fundo do mar
trazer aqui a mãe-d’água
para neste baile entrar.

A MÃE-D’ÁGUA
Pelas teorias modernas
o homem provém do mar.
É por isso que você
prestava tanta atenção
aos contos que te contei
nos teus tempos de menino.
Prestavas mais atenção
aos meus cabelos cacheados.
Hoje estão cortados curto,
me vestiram de maiô,
não me reconheces mais.

O POETA:
Ó mãe-d’água de maiô,
de cabelos aparados,
inda mais bonita estás.

O AVIÃO:
Urgente das nebulosas
parti com nevoeiro denso,
trazer esta altura penada
pra concorrer à função.

A NAMORADA MORTA:
Não sou mais alma penada…
alguém se lembra de mim.

O RANCHO LIRA DO AMOR:
Em garridos movimentos
em lindas evoluções
com escolhidos pensamentos
viemos saudar o poeta
cantor de tantas paixões
salve, salve, vale ilustre
alma rara de safira
que o segredo da harmonia
guardastes na tua lira
de tão divinal poesia
a ti nossas emoções
estão amigos corações.

O POETA:
Obrigado minha gente!
Vocês ajudam um pedaço
o brilho desta função.

SÃO FRANCISCO DE ASSIS:
Aproveitei uma folga
que o inspetor do céu me deu,
também vim aqui dançar
pra me lembrar do meu tempo.
Louvado pra sempre o vento
que nas suas asas me trouxe.
Louvada seja esta gente
que de vez em quando esquece
as tristezas desta vida,
cai na farra, que nem eu
na minha primeira fase.

CORO:
Este falar contamina
até quem vem do outro mundo,
ninguém lhe pode escapar.

O POETA:
Caia tudo ajoelhado
pra louvar o bruto poeta,
nosso amigo, nosso irmão.
Quero às vezes imitar,
nem de longe, tal poeta.
Meu consolo é que não imito,
afinal, poeta algum.
De qualquer forma pareço
com São Francisco, senhores:
não há dúvida que sou,
ali, São Francisco às avessas.
Louvemos o bruto poeta,
nosso amigo, nosso irmão.

CORO:
Louvemos o bruto poeta,
nosso amigo, nosso irmão.

A RIMA:
Eu sou órfã, ninguém mais
me dá atenção no mundo.
O meu dó é bem profundo.
Deixem-me entrar… não escutais?

O POETA:
Pode entrar, mas se comporte:
não insista nas melodias.

A MULHER NA VIDA:
Se a turma aí tem escrúpulos,
não faço questão de entrar:
eu sou reserva do rancho.

O POETA:
Pode entrar, que nesta casa
todo o mundo lhe quer bem.

O ANJO DA GUARDA:
Mas que festa extraordinária,
nem lá no céu tem assim.

O POETA:
No tempo que eu precisava
dum anjo pra me guardar,
você estava tentando
as garotas mais sublimes
que nasceram da mulher.
Agora que me tornei
um sujeito tão importante,
um poeta-matriculado
com poder discricionário,
é que você me aparece.
És o tipo do adesista.
Em todo o caso, consisto
tome parte na festança,
mas dobre as asas direito,
se comporte muito bem.

O ANJO DA GUARDA:
Que sujeito pretensioso,
não sou seu anjo da guarda,
você nunca teve tal.
Sou o anjo de São Francisco,
trago aqui um radiograma
pra ele voltar pro céu.

SÃO FRANCISCO:
Meus amigos até a volta,
esmola pra uma igreja
que estou construindo no céu.

O POETA:
Meu santo, sentimos muito,
nossa pobreza é bem grande,
nem mesmo o senhor é assim.
Temos crise do café.

CORO:
Temos crise do café.

O POETA:
(Tantas pessoas declaram
que vão embora da festa,
que esta festa não está boa…
Acabam todos ficando,
com exceção do deputado.
Aliás, o prazer é meu.)

O DEPUTADO:
Senhores, o povo evém,
ganhou a revolução.
Saudemos o arrebol
dos novos tempos pro reino.
Chega aí o ditador
com seu luzido cortejo,
precedido de clarins.

CORO:
Sujeito pra falar bem!
Esta turma é que nos serve,
o resto só tem garganta.

Conosco sim bandolim,
Conosco sim bandolim,
Conosco sim bandolim.

DITADOR, MASCATES, BACHARÉIS, SOLDADOS, POVO:
Tomemos conta depressa
deste reino universal
antes que alguém mais esperto
passe na frente da gente.
Tomemos conta depressa
deste reino universal.
Eletrifiquemos o reino;
Distribuiremos chuchus
aos pobres e torcedores,
bananas aos discordantes.

O DEPUTADO:
Esta casa está se enchendo
de gente a mais não poder.
Que calor, que confusão.
Não há dúvida, não sobra
uma casquinha pro poeta.

CORO:
Não tem lugar pro poeta!
Não tem lugar pro poeta!

O POETA:
Fiquem quietos, vou sair.
Estão todos na sua casa!
Me acostumei há bem tempo
a ceder o melhor quarto
pro relequim repousar.
Só me admiro do coro
a quem ensinei o abecê!…

Eu que voluntariamente
até adotei agora
o seu modo de falar,
não estabeleci distinção
pra maior felicidade
desta festa universal!
…Mas que sujeitos ingratos.
Tirei-os desta cachola,
é natural que se zanguem,
acabo me conformando.
Vou-me embora pra folhinha.
Recorrerei ao Senhor,
meu Supremo Tribunal.
Mas antes de dar o fora
faço questão de avisar:
este assobio que agora
vocês usaram para mim,
eu vou usá-lo também.
Vocês me apupam, maltratam,
mas acabam me elevando
um busto na praça pública,
inda precisarão de mim.
Pois bem, apurem os ouvidos:
desde já estou vaiando
meu busto que se erguerá
na posteridade remota.

DOUTOR:
Este poeta adstringente
continua, meus senhores,
a não me cheirar muito bem.
Incline a cabeça, moço,
deixe-me ver a esclerótica…
É mesmo um caso perdido.
O diagnóstico, pelo menos,
se salvou, é o principal.

O CORO:
O meu poeta morreu!
Que será feito de mim?
Vamos buscar outro poeta
em qualquer lugar – aqui!

FIM DE “BUMBA-MEU-POETA”


Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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