BIOGRAFIA DA CABELEIRA

MURILO MENDES


Esta cabeleira nasceu
No corpo das nebulosas,
Depois renasceu em Eva,
Atravessou muitos túneis
De corpos grandes, morenos,
Mais uma vez aparece
Neste mundo, exatamente
Na cabeleira de Dulce,
No dia cinco de abril
De mil novecentos e três.
E renasceu imperiosa:
Era preciso uma vida,
Todo um corpo, uma desgraça,
Pra alimentar a faminta.
Vinham os amantes de Dulce,
À sombra da cabeleira
Passavam dias e noites,
Alguns deles nem lembravam
Que além dos cabelos havia
Outras belezas no corpo.

E o marido de Dulce
Matou a pobre coitada.
Mais o amante de Dulce,
Com dois tiros de revólver.
Mas o tonto do marido
Não sabe que a cabeleira
Já renasceu, furiosa,
Na filha da pobre Dulce.
O marido matou Dulce,
Não matou a cabeleira:
Vai dar muito que fazer.

A filha de Dulce tem
Só dez anos, mas parece
Que já tem quinze, porque
A cabeleira pesada
Passa na frente do corpo,
Atrai os adolescentes,
Tem vida própria, não morre.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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