A MOÇA E A VARANDA

SÉRGIO PORTO



Quem dobrasse à esquerda encontraria logo o portão. Abrindo-os, estaria no jardim - modesto jardim, onde outrora houvera uma roseira que morreu de solidão. Do jardim saía a alameda das samambaias que daria acesso à varanda. Em dias de domingo  que os havia plenos de luz e de azul  já a meio caminho, entre as samambaias, um ouvido mais familiarizado conosco, os de lá, poderia distinguir facilmente os risos da gente. Ríamos muito, naquele tempo.


Da varanda, que dizer? Algumas cadeiras de vime, a mesinha que tinha um pé mais curto que os outros e dois jarrões, um em cada canto, cujas plantas (nunca lhe soubemos o nome) davam umas florzinhas amarelas e cheirosas no mês de abril, para contrariar o outono.

A entrada era uma apenas, pela direita, subindo-se a escada de mármore de três degraus. O resto da varanda era rodeado pelo patamar onde havia, no centro, uma jardineira. Depois que o último de nós ficou mais crescido e menos travesso, ali floriram gerânios.

Hoje, quem me vê diz que eu já morei numa casa onde as cotovias faziam ninhos. Deus não me deixa mentir. No telhado da varanda, durante anos e anos, elas se hospedavam, para alegria nossa e inveja dos outros garotos da redondeza. Quando, pela primeira vez, falou-se em demolir a casa para constuir o prédio feio que lá está até hoje, meu primeiro pensamento foi para os ninhos das cotovias.

Vejam só que menino puro o mundo perdeu!

Os grandes dias da varanda eram os já citados domingos, quando toda a família se reunia para alegres almoços. Dessa época restam somente dolorosas fotografias.

Já as grandes noites vieram mais tarde, quando Luisinha se certificava que ninguém a seguira pela alameda das samambaias (Foi o vento, Luisinha, que balançou as folhas.) é que vinha o primeiro chamar de "meu bem", o primeiro beijo, morno beijo que nunca devia ter esfriado.

No dia em que ela não veio, pensei uma porção de vinganças impossiveis e votei-lhe um ódio de morte que durou quase um minuto. Era a decepção que sempre nos deixa o pecado irrealizado, logo apagada pela idéia de que não nos faltará tempo para pecar. De fato, na outra noite  hora de sempre  lá veio ela, fugindo de uma sombra para outra, para enganar o irmão. Nesse encontro nos juramos uma eterna fidelidade amorosa e fomos mais dramáticos em nossas palavras, gestos, atitudes.

Pra quê, Luisinha? Seguisses o juramente e eu te enganaria, não o seguindo, como o fizeste, enganaste-me primeiro, para confessares depois. Choraste então, e eu também chorei sem nenhuma convicção.

Vejam vocês que rapaz fingido o mundo consertou!

Num mês de abril, de 1947, demoliram a varanda. Eu vi. Parado na rua, lá da calçada em frente, esperei que os operários derrubassem o último tijolo da última parede e voltei para o apartamento com a sensação de que, dentro de mim, algo também fora demolido.

Quanto a Luisinha, resistiu mais tempo, deixou-se demolir aos poucos. Foi preciso mais do que um simples dia de abril, foi preciso toda uma mocidade para deixá-la tal como ontem a vi.


Vocês nunca saberão que excelente moça o mundo estragou!

Comentários

  1. Janaina, parece que temos uns gostos parecidos, além do nome.

    Estou lendo "As cem melhores crônicas..." Gostei muito dessa: A moça e a varanda, do Sérgio Porto. Na sua transcrição faltam alguns trechinhos. Depois você confere. Parabéns pelas postagens. Janaina.

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  2. Essa cronica confirma minha tese que não existe literatura melhor que a portuguesa ou Luso- brasileira. Sempre leio livros e contos estrangeiros,mas os brasileiros... minha amiga!Não tem pra ninguém. Todos os estilos, de prosa e poesia, as musicas, tudo que é relacionado a letras sou mais nossa lingua. Desculpem-me os Dostoiesviskis, os flauberts,os sthephan kings, entre outros, mas os nossos gênios modestia à parte são os melhores

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