A MADRUGADA

MURILO MENDES


1

Dorme o gigante dos ventos
Enquanto a lua trabalha.
Beija teus seios devagar.
Vem por aqui, meu amor,
Os cavalos voadores são amigos,
Nos levarão para o deserto branco.


2

Quem foi que colocou
Uma pedra no meu sonho
E os maiôs não puderam sair?
Minha mão direita virou árvore,
Vêm aves da estratosfera me visitar.

3

Maria acorda, namorada morta,
Os clarins do Clube "Flor do Amor"
Estão chamando nós dois:
Que luzes, que flores, jazbande excelente!
Que corpos saudos de tanto dançarem.

4

A guerra passou, passou a Razão,
Já podemos conversar com a Virgem Maria;
Convidemos Judas e o Máscara de Ferro
A passear de táxi à beira-mar.
Podem-se tirar retratos elétricos
Que serão enviados a Saturno.

5

Estou esquecido das determinações do século.
Adeus máquina que móia minha tristeza:
Vou voltar para o seio da minha mulher pedra,
Ou então para mamãe água.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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