GLÓRIA DE CÍCERO DIAS

MURILO MENDES


O homem chega no céu que os olhos dele
acham a arquitetura muito equilibrada.
Traz ainda a lembrança da gente obscura da terra.
Os grandes querubins segurando estrelas na mão
não conseguem convence-lo completamente.
Ele procura nos recantos da morada celeste
os poetas anônimos
jejuadores
dançarinas de café barato
quitandeiros assassinos pobretões.
Anjinhos comportados de cabelo rente
abrem sanfonas enormes que ele se baba de gozo.
Uma banda de músicos toda pachola
acolhe-o com dobrados
que aumentam o ar de festa.
Meninas convencidas
apresentam buques de flores que formam a palavra Amor.
O poeta entra na glória definitiva
enquanto os anjinhos gritam
batendo palmas com emoção:
Meu padrinho! Meu padrinho!

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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