EVOCAÇÃO DA MORTA

MURILO MENDES


Eu vi três anjos distintos
Rodando num carrossel.
E como eram bem vestidos!
Que camisas vaporosas!
Que vestidos bem talhados!
Depois vi o corpo deles.
Que perna firme, que mãos!
Eta cabelos pesados,
Caras feitas a compasso.
Tem o ar de quem não sofre,
Tem o ar de quem não pensa.
Nunca vi anjos assim.
Não eram anjos, nem sei!
Acho até que eram mulheres.
Rodavam no carrossel,
Giravam no carrossel,
Voavam no carrossel,
Saíram do carrossel,
O globo de luz caiu,
Os cavalos não pararam
De tão tontos que ficaram,
O mar de repente chega
Na porta do carrossel,
Perguntou-me pelos anjos.
"Me desculpe está na hora,
Já vamos subir pro céu";
Os anjos me procuraram,
Me levaram na garupa,
Já transpusemos o mar,
- Suspende o corpo, coitado.
Parece que vai nos seguir.
A luz súbito levanta,
Segue no rasto dos três,
Um dos anjos assoprou
No seio dela, apagou;
O anjo maior dos três
Respira, faz um sinal,
Os anjos dão um galeio,
Transpuseram o firmamento,
Bem que uma estrela apitou,
Me arrancam na ventania,
Já não sei mais onde estamos,
Um rosto vem nos abrir.
Um anjo maior me disse:
- Como tiveste paciência
Durante a longa viagem,
Vamos alguém te mostrar,
Olhe bem para este anjo."
Olhei pro ente sublime,
Quase despenco do céu.
Que corpo, que maravilha!
Que linhas harmoniosas!
Andando, o ritmo nasce.
Não tem vaga pra um senão.
Só tem um resto no olhar
Da mulher que ele já foi...
- Anjos, me levem pra trás,
Prefiro não ver mais nada,
Me deixem morto no chão,
Prefiro não ver mais nada.
Se não tivesse um vestígio
Do que ela foi, inda vá.
Mas inda tem esse olhar!
Mas inda tem esse olhar!
Largou-me a força do corpo,
Me levem pro carrossel. -

Voltei com o anjo da noite,
Não quero mais viajar.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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