CANTO DO DESÂNIMO

MURILO MENDES


Dorme, mundo!
Estrela, deita-te a meus pés,
tempo, some da minha memória,
infância, famílias aparvalhadas olhando pra mim,
sumi.

Desaparece, gravura da primeira comunhão,
some, primeiro olhar da namorada,
corpo da prostituta na cidade sibilante,
noite do crime, vida de amor, sombra do santo.

Desaparece,
bruma da criação anterior,
manequim da nebulosa vermelha ardendo no quarto em febre,
vestido e sombra da mulher primitiva me tomando nos braços,
apaga-te, mão de Deus me formando na manhã remota,
som, movimento, vontade, tempo, energia, desaparecei.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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