A VAMP

MURILO MENDES


A camisinha de rendas
Que usava
A irmã que morreu de amor.
Ligas misturadas
Antes da paixão
Com uma lata de talco
E um retrato de Nossa Senhora
Construído com borboletas.
Uma flauta no cabide
Fez a guerra do Paraguai
Quando não havia petróleo
- Pertenceu a meu avó -,
A dama chegou no tufão,
Vestida de dominó,
Sem mensagem para os mortos
Que dormem atrás da cortina.
A dama de dominó
Tem quatro braços
Traz a vertigem
Está com febre
Me pega o amor
Tem quatro braços
Não posso mais
Quatro sovacos
Aí vem a manhã
Clareia o quatro
Allegro aleluia
Allegro da Aurora
O sol ilumina
O mundo sem amor.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

Comentários