ANÁLISE

FERNANDO PESSOA



TÃO ABSTRATA é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Ó NAUS FELIZES, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto noturno mal -
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lado morto
Sonha um castelo medieval...

E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gesto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar manhã...

Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste... Seu 'spírito monge
Para nada externo é perto e real...
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval...

Fernando Pessoa
(Lisboa, 13 de julho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935)
Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta, filósofo e escritor português. É o mais universal poeta português. Enquanto poeta, escreveu sob múltiplas personalidades - heterônimos, como Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro -, sendo que estes últimos objeto da maior parte dos estudos sobre a sua vida e obra.

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