1913, OU A CORRENTE DE AR

MURILO MENDES


Lembro-me às vezes com amor
Daqueles dias fagueiros
Onde a gente deslizava,
Sem receio, no universo:
Eu respirava bom ar,
Nos dias de grande festa
Trajava uma roupa inglesa
De veludo, minhas primas
Assobiavam a "Caraboo",
Tocavam "La Valse Bleue";

Dulce, a filha do vizinho,
Ia comigo ao colégio,
Pelo que não se aprendia
Nem geometria, nem história.
Meus parentes me cuidavam,
Faziam recomendações:
"Ande sempre penteadinho,
Evite as correntes de ar!"

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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